António Bulcão Carta a Donald Trump

Views: 13

Carta a Donald Trump
Caro Donald: escrevo-lhe esta cartinha porque há muita gente aqui na Terceira com medo de que o senhor também nos queira anexar. Quer dizer, há também muita gente que gostaria disso, até já rezaram para o seu país ter mais guerras, para haver muitos americanos na Base, imensas casas arrendadas acima de mil euros e dinamização comercial da Praia. Mas eu sou dos que não gostariam de ser americano, pelo que lhe peço pelas almas: tire isso do juízo e deixe-nos em paz.
O receio será justificado, e o senhor é que deu pau para as colheres, com aquilo da Faixa de Gaza poder ser Riviera (temos uma praia com esse nome), por querer ficar com a Gronelândia e isto agora do petróleo da Venezuela. Acho até que, no seu primeiro mandato, falou na possibilidade de ficar com a ilha de Jasus, por razões geoestratégicas.
Daí estas curtas linhas, que são para lhe fazer um convite: antes de tomar decisões drásticas, venha passar uns tempos à ilha. Vai ver que não vale a pena tomar este calhau de assalto. Aqui vive gente doida, Donald (creizi pipol, em inglês).
Começa logo no Natal, com um ritual bárbaro, que dá pelo nome de “o menino mija” (de lital bói pisses). Quando cheguei aqui também fiquei confuso, toda a gente me dizia que o seu menino mijava, e eu a perguntar-me “ok, e o que tenho eu a ver com isso?” (what the fuck?), é natural que mijem os meninos, faz parte da natureza para não reterem líquidos e darem cabo da bexiga e dos rins. Só com o tempo me apercebi de que querem é pretextos para se encharcarem com aguardentes e licores em casa uns dos outros.
A seguir vem o Carnaval. Aí é que os nativos perdem completamente a cabeça. Uns a tocar, outros a representar, correm a ilha toda e ai povaredo nas sociedades para rir com bailinhos, chorar com danças, abarrotados com vinho de cheiro e filhoses, ai Donald, nem imagina a quantidade de homens que adoram vestir-se de mulheres, ia ser um perigo para os seus marines.
Depois vêm os bodos, os bezerros enfeitados com boninas amarelas e mais comezaina maluca pelas freguesias todas, com mordomos e tudo, muito prezados. E as touradas (bullfaites), os bichos dentro de gaiolas, depois a correr amarrados com cordas, gajos com guarda-chuvas a fintá-los, um ou outro turista a ir pelo ar e o povo a encher ruas, a não deixar passar carros, sempre com uma bujeca na mão?
E o que esta gente come, senhor Donald? Atiram-se por essas pedras à beira-mar, armados de fachos e martelos, e apanham caranguejos fidalgos (gentleman crab), mais cracas (creiques), que são animais que vivem em buracos e, depois de cozidos, são extraídos com pregos e engolidos junto com água do mar, já viu coisa mais medieval?
Espetam facas em porcos e, mal acaba a guincharia da pobre vítima, comem-no todo, das orelhas ao rabo, passando pelas tripas e pelo sangue, chamando-lhes morcela e linguiça, nada de fast food por aqui…
Se o senhor decidir anexar a ilha também vai anexar estes selvagens. E os americanos que para cá vierem, das duas uma: ou não aguentam e vão querer voltar para os States no primeiro avião que pousar nas Lajes; ou gostam tanto que nunca mais querem sair daqui para fora, vão espalhar palavra pelos 50 estados de V. Exa, que rapidamente ficarão despovoados e a gente não tem terra para albergar tanto milhão.
Venha ver com os seus olhos, senhor Donald. E traga a Melania. Acho que ela vai adorar isto. E se for mútuo, se esta gente engraçar com a sua mulher, podemos nomeá-la embaixadora da ilha Terceira, juntamente com a Sofia Ribeiro. Que dupla, senhor Donald, que dupla fantástica.
(publicada hoje no Diário Insular)
 

Joana Félix

Fez-me recordar o “Papalagui”. Outro que também já não está nas minha estantes e dos que comprei era novinha

Deixe um comentário

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.