António Bulcão · Carta ao senhor ministro Santos Silva

Views: 0

Carta ao senhor ministro Santos Silva
Perdoe, logo de início, o facto de senhor estar com s pequeno e ministro não ir com um m grande. Mas o senhor ministro não merece mais. Já não merecia antes e, depois das suas últimas declarações na Assembleia da República sobre a descontaminação na ilha Terceira, vai até com sorte por tratá-lo por senhor e reconhecer o cargo que ocupa, embora sem revelar qualidade para representar o Estado seja a que nível for.
Há coisas que não devem ser misturadas e muito menos alvo da mais leve ironia. Misturar saúde pública com política é de um mau gosto indesculpável no mais nojento comentador político, quanto mais num ministro de Estado.
Mas foi o que o senhor fez. Respondendo a António Ventura sobre a descontaminação, disse que a mesma não deveria ser “apenas dos terrenos das Lajes”, mas “também das condições em que se possa formar um novo governo nos Açores”. Usando e abusando da palavra “chega”, abdicou da sua qualidade ministerial para erguer o punho esquerdo de socialista e fazer política baixa numa matéria que é de saúde pública.
Não devíamos admirar-nos. O senhor tem um passado deste tipo de “bocas”. Recordo apenas algumas, como quando afirmou que gosta de malhar na direita e ainda mais no PCP ou no BE, ou quando comparou a concertação social a uma feira de gado.
Lembro, ainda, que foi dispensado da TVI, onde fazia comentário político, espumando raiva quando foi despedido contra Sérgio Figueiredo, então director de informação daquela estação televisiva, ao qual chamou “ayatolhah de Barcarena”. O que obrigou o mesmo Sérgio Figueiredo a retorquir, dizendo que o senhor não voltava à TVI por ser “malcriado”.
Portanto, a televisão decidiu que o senhor não tinha classe para ser comentador político e o senhor foi para ministro, mantendo a má-criação. E logo numa pasta que requer polimento e diplomacia, a dos Negócios Estrangeiros. Foi-se vendo a sua natureza ao longo do tempo em relação a muitas matérias, e agora chegou a nossa vez de mamar consigo, na ilha Terceira…
Meta uma coisa na cabeça, senhor ministro: muito antes de haver democracia em Portugal, fomos nós que tivemos de aturar os americanos aqui na Praia da Vitória. Fomos nós que suportámos o barulho intenso, por vezes insuportável, dos motores das grandes aeronaves guerreiras. Fomos nós que vimos placas de cimento de casas a racharem com as trepidações. Fomos nós que tivemos de cheirar os combustíveis com que os aviões foram baptizando os pobres indígenas. Fomos nós que ficámos expostos ao perigo, por vivermos ao pé de uma Base militar.
Para Portugal, ficavam as rendas, quando os americanos as pagavam, o prestígio internacional de se sentir aliado de uma grande potência, a alegria de ver as Lajes escolhida para acolher Bush, Aznar e Blair na cimeira da guerra.
Mas para nós ficou ainda uma coisa mais grave e actual: a contaminação de solos e aquíferos basais. Responsável por cancros, senhor ministro. Muitos já morreram, muitos estão doentes. E quando queremos que o Estado, ou os E.U.A, limpem a porcaria que andaram a fazer durante décadas, para prevenir danos futuros, o senhor goza connosco. Que temos de descontaminar é o novo governo dos Açores…
Continuaremos aqui, senhor ministro. A tentar resistir. Na colónia que sempre fomos e continuamos a ser. A fazer bailinhos e marchas, em cantorias e touradas. Aos vossos olhos, tolos e crédulos. Alguns enterrados, outros a extrair tumores e a chorar em cada sessão de quimioterapia. Mas resistindo à vossa exploração.
E se o senhor quiser vir a uma feira de gado, está à sua vontade. Só não lhe prometo que alguém o compre. Porque já o conhecemos…
António Bulcão
(publicada hoje, no Diário Insular)
André Silveira, Luís Filipe Borges and 17 others
1 comment
5 shares
Like

way ukraine GIF
Comment
Share
Comments
  • Permita Sr Doutor os parabéns dum cidadão comum desta terra.
    • Like

    • Reply
    • 3 m

Mais artigos