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“Se não for a bem, vai a mal”.
A primeira vez que ouvi a expressão foi por causa de um xarope para a tosse.
É preciso explicar que cresci nos anos sessenta do século passado, na ilha do Faial. Um tempo de vacinas de deixar marcas nos braços. Anos de óleo de fígado de bacalhau, senhores. Ainda hoje não faço ideia de quais seriam os benefícios de uma coisa que só ouvida dá vómitos – óleo de fígado de bacalhau.
Tomado à colher. Só muitos anos depois inventaram umas cápsulas transparentes com aquilo dentro, custava menos a tomar, mas o primeiro arroto trazia o nauseabundo gosto à boca. Na escola, era a mesma colher para todos, num processo democrático nojento, a gente em fila e o professor primário com o frasco na mão esquerda e a colher na mão direita a enfiar-nos o viscoso líquido pela goela abaixo, quase juro que com secreto prazer.
Uma época histórica em que todos os remédios que sabiam mal eram para o meu bem. E os supositórios, meus amigos? Ardiam no cu que nem malaguetas, mas eram para meu bem, baixavam febres, desenrolavam tripas, ajudavam a respirar nos ataques de asma. Sim, leitores, a asma atacava. Fechava alvéolos, enchia o teto do quarto de estrelas que não existiam senão no meu desespero por ar nos pulmões. Pomadas para as costas, barradas em algodão, ventosas e eu atacadinho.
Lá me levaram meus pais para São Miguel no Carvalho Araújo, no Faial não havia especialistas. Colchões de casca de milho proibidos a partir dessa viagem, na cidade já dormia em Molaflex, mas nas casas de campo era casca de milho que me tapava os brônquios. Não havia bombas como há hoje. Era sofrer, puxar o supositório para cima em arrepios de suor pingado na almofada e rezar para que o ar que entrava pelas janelas me descobrisse.
Os xaropes eram amargos como estupores. Nada destas coisas modernas, com sabor a laranja ou morango. Eram quase sólidos, a muito custo descendo o canal das sopas e com o tal sabor que obrigava a agarrar as bordas no colchão de um lado e do outro para melhor suportar a tortura. Vinha o médico ao domicílio, auscultava costas e peitos, via línguas e gargantas com a gente a dizer “ahhhhhhh”, e depois receitava. Uns rabiscos num papel que só os farmacêuticos conseguiam ler e depois era rezar para que o próximo xarope não fosse tão mau como o anterior.
Mas o próximo foi o pior de todos. Tomado depois do pequeno-almoço, tentei recusá-lo ao almoço. “Toma que é para teu bem”. Mantive a recusa. Veio, então, a tal ameaça: “se não for a bem, vai a mal”. Nestas coisas meu pai não brincava. Mas eu já tinha mamado uma colher a bem, decidi experimentar como seria a mal e mantive a boca fechada. Com a mão esquerda tapou-me o nariz e com a direita enfiou-me o maldito xarope na boca.
Todos estes infantis acontecimentos tiveram lugar vinte e poucos anos depois da Segunda Guerra Mundial. A Europa a tentar reconstruir-se depois de ter ficado em ruínas. A CEE tinha nascido apenas há escassos dez anos, e uma das suas anunciadas intenções era a manutenção da paz. E, de facto, depois dos horrores ainda tão na memória das gentes, pensei que o mundo tomaria outro rumo, o ser humano criaria juízo.
Já tinha havido demasiadas guerras, ao longo de séculos, e sempre por motivos parvos: mais território, mais riquezas, mais petróleo, mais terras raras. Estaria na altura de parar. Pura ilusão. As guerras a que o mundo já assistiu nos oitenta anos que se seguiram à Segunda provam que o ser humano não presta para nada.
O meu sonho de paz na infância, de que os únicos ataques seriam de asma e as únicas bombas inventadas seriam para a atacar, eram apenas devaneios de um rapazito tolo.
As coisas que o Hitler dizia antes de espalhar o terror estão documentadas e muitas delas conhecemos. Não sei se terá dito “se não for a bem vai a mal”, como diz agora o Trump em relação ao seu desejo de ter a Gronelândia. Mas se não nos pusermos a pau com os tiques dos ditadores, acabaremos a viver em ditadura.
(publicada hoje no Diário Insular)
Margarida De Bem Madruga
Caríssimo, era assim e sabíamos que era assim…
Agora o mundo anda às avessas e não temos a mínima ideia do futuro. Até desconfio que não temos futuro. Vamos viver nos interstícios do tempo e dos tempos, até que a morte nos separe. …
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