a história sempre a repetir-se

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a História repete-se, embora nunca da mesma maneira…May be an image of text
(…) Na América Latina, alguns historiadores estimam em mais de 50 milhões o número de indígenas mortos durante a colonização espanhola. Portugal não esteve isento de crimes semelhantes, quer no Brasil, quer em África. O Congo belga, sob o reinado de Leopoldo II, representa talvez o ápice do horror colonial europeu. (…)
[Carlos Narciso, “Duas Linhas”, 10/02/2026]
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O colonialismo europeu, iniciado no século XIV com a chamada “descoberta” de novos mundos pelos navegadores portugueses, fez da Europa senhora do planeta. Ingleses e franceses colonizaram a América do Norte; portugueses e espanhóis submeteram a América do Sul e Central; África foi retalhada entre ingleses, alemães, belgas, portugueses e franceses; a Ásia conheceu destino semelhante. Poucos povos escaparam à dominação colonial.
Durante séculos de ocupação e exploração, não foi apenas a escravatura humana que devastou esses territórios. Houve também a espoliação sistemática de recursos: ouro, prata, especiarias e produtos agrícolas como o açúcar, que alimentaram a acumulação de riqueza na Europa. O progresso europeu assentou, em larga medida, nesta pilhagem organizada.
Essas conquistas foram acompanhadas por genocídios em larga escala. Os povos indígenas da América do Norte foram quase exterminados pelos colonos europeus.
Na América Latina, alguns historiadores estimam em mais de 50 milhões o número de indígenas mortos durante a colonização espanhola. Portugal não esteve isento de crimes semelhantes, quer no Brasil, quer em África. O Congo belga, sob o reinado de Leopoldo II, representa talvez o ápice do horror colonial europeu.
Esses crimes históricos tendem hoje a ser relativizados. O sofrimento alheio, quando distante no tempo, é facilmente diluído em narrativas civilizacionais ou atenuado por uma falsa neutralidade histórica. Mas o presente começa a devolver-nos uma imagem perturbadora desse passado.
O ressurgimento de um colonialismo explícito por parte dos Estados Unidos, como reação às tentativas de erosão do império que construíram ao longo dos últimos 250 anos, permite-nos vislumbrar, pela primeira vez, o que outros povos sentiram quando foram submetidos pela força dos canhões. Ontem, o pretexto era a “expansão do cristianismo”. Hoje, chama-se “democratização”. A lógica é a mesma, a mentira também. Hoje é pelo petróleo, gás natural, terras raras, que se fazem as guerras dos EUA.
Sem remorso e sem qualquer assunção de culpa histórica, o Ocidente prepara-se para aceitar aquilo que outrora impôs. A Dinamarca ficará sem a Gronelândia e nada será feito para contrariar uma intenção já assumida por Donald Trump. O direito internacional, tal como a moral que o sustenta, revela-se descartável quando confrontado com a lei do mais forte.
[Carlos Narciso, “Duas Linhas”, 10/02/2026]

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