a crise do leite JOSÉ GABRIEL AVILA

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A crise do leite – Crónica Rádio Atlântida
Já fomos terras de produção de grandes quantidades de pastel, trigo, milho, vinho, chá, produzimos beterraba sacarina e chicória, exportámos ananás, batata branca e doce, cultivámos linho e espadana, criámos ovinos e caprinos e nas últimas décadas apostámos no melhoramento animal de raças de bovinos de leite e de produção de carne.
A economia açoriana em cinco séculos, procurou responder, da melhor forma, à procura de produtos agrícolas que trouxessem mais-valias aos proprietários e empresários rurais. Todavia, nem sempre ultrapassou as dificuldades geradas pela pequena dimensão das terras e pelos custos de produção. A maquinaria agrícola foi um dos entraves, o outro foi a falta de mão-de-obra resultante dos baixos salários que levaram a uma sangria da emigração para o Brasil e a partir dos anos 60 do século passado, para os Estados Unidos e Canadá.
Presentemente, começa-se a ouvir falar em reconversão da bovinicultura já não para produção intensiva de leite – e a qualidade do nosso leite é indesmentível – mas para a produção de gado de carne, para o que só a ilha do Pico, dizia-se, tinha apetências.
É um revés para os produtores do leite que tanto apostaram na melhoria das manadas e do maneio do gado e pastagens.
Os Açores que produzem cerca de 35% do leite português, e que recebem através do POSEI apoios substanciais para fazer face a essas produções que todos afirmam ter qualidade, não conseguem valorizar o seu produto de excelência.
Algo vai mal neste setor e, como os dirigentes responsáveis afirmam, os industriais têm uma quota parte importante da culpa por não se ter valorizado um produto alimentar tão necessário.
Faltou capacidade e vontade para reconverter o leite em produtos derivados mais-valiosos – e tantos são eles que encontramos no mercado, originários de países sem matéria prima!… Ficámo-nos pela manteiga, pelo queijo e pelo leite em pó e descansámos, julgando que ninguém nos passaria adiante. Agora é o que se vê.
Mais uma crise da agro-pecuária no horizonte, a juntar a tantas outras cujas produções desapareceram e só constam da história económica destas ilhas?
Espero que os governantes e os responsáveis do sector agro-industrial se sentem à mesa para analisar friamente o porquê da situação e que tirem conclusões, tracem objetivos e delineiem programas para que ao colapso da beterraba, da chicória, do ananás, do trigo, da batata, do vinho, etc, não se siga o colapso do leite e dos produtos afins.
Uma desgraça nunca vem só! – diz o povo. Oxalá a pandemia passe depressa e os responsáveis tenham a clarividência e coragem suficientes para agarrar o touro pelos cornos!…
José Gabriel Ávila
jornalista c.p. 239 A
6/6/21
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