a catástrofe que ninguém viu

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Perguntam-me se depois de ir a Leiria não vi uma catástrofe. Deixem-me ser clara. Entraram pela região ventos ciclónicos de 200km hora, muita coisa não pode resistir a tal. Em Hong Kong com ventos de 140km as pessoas deixam de circular e tapa-se tudo com protecções. O que nós vimos foi um Estado falido em termos de bem estar social. Três dias antes sabia-se da tempestade e no próprio dia deu-se o famoso alerta vermelho cuja única consequência foi “fiquem em casa”. Não se decretou que não se pode ir trabalhar, deixando os trabalhadores nas mãos das empresas, não se decretou que a protecção civil devia ir para a região distribuir geradores e fixar protecções nos vidros. Não se fez nada. E não se fez nada porque não há. Vi carradas de lonas da IL e do Chega a fazer de telhados, com sacos de areia em cima, para não voarem. Que metáfora da privatização. É justo dizer que também deviam lá estar os cartazes do PS e do PSD. Embora, sem dúvida, a AD tenha subido um ponto nisto tudo – o Governo é oficialmente uma agência de comunicação. De má qualidade.
Este é o estado do Estado mínimo para as pessoas, máximo para os lucros. E se acham que é cassete vejam por favor a pomposa notícia no Público há 2 dias quando ainda havia mortos a cair dos telhados na região e sem ajuda alguma – “Objectivo antecipado em um ano: dívida pública ficou abaixo dos 90% em 2025 Governo garantiu, com um excedente provavelmente maior e uma estratégia de antecipação do pagamento da dívida no final do ano, mais um brilharete nas contas públicas”. Que o Públicos escolha para gorda brilharete também nos diz muito…
Enquanto não percebermos isto, que a dívida “pública” é uma alavanca de acumulação de capital de Bancos e fundos, paga com a destruição do Estado Social, e a não contratação de emprego público. Dívida que paga, entre outras, a bolha imobiliária de que fizeram parte empresas como a Mota Engil ou a Teixeira Duarte, porque tudo se concentra nas dívidas e seguros bancários, num esquema piramidal que atinge milhares de pequenas empresas que estão agora destruídas, porque o modelo económico deste capitalismo dependente é armazéns de logística, que voaram, a que pomposamente se dá o nome de “tecido empresarial”, barracões de praia que se dá o nome de “indústria de turismo” e 5 milhões e meio de trabalhardes pobres no Estado e nestas empresas.
O que nós temos é uma catástrofe política. Estamos a discutir o quê? Telhas, postes de electricidade! E fala-se como se tivesse chegado o fim do mundo. Porquê? Porque nem isso, nem uma coisa elementar como reconstrução de telhados e reposição de electricidade está feita uma semana depois. A culpa não é do vento, e do colapso dos serviços públicos. Olhem para a Palestina – onde o Ministro da Educação vai, a Israel, discutir a IA essencial para os drones que matam os palestinianos – , vejam os países que tiveram terramotos, com dezenas de milhar de mortos. O que nós temos é o fim do Estado social, apesar de pagarmos impostos como condenados.
O que nós vimos na Kristin foi a opção Covid “Fique em casa”, a responsabilidade é sua. Fique em casa sem telhados, mas fique. Cada um por si. No Covid sempre defendi que se devia ter requisitado os hotéis vazios e hospitais privados para colocar os idosos dos lares, e não confinar ninguém – o tempo deu razão, é ver agora os colóquios médicos pelo mundo a explicar que há poucas coisas tão absurdas como confinar populações num vírus que circulava em doentes e não doentes. Mas, o que foi feito no Covid? Foi, já na senda das bigtecs, acelerar o digital, em modo delírio, acelerar a destruição do Estado Social com o online. Agora entre nós e um professor há uma plataforma, metade do dia é dedicado a olhar ecrãs, o Ministro, que está em Israel, extinguiu o Ministério, vai a Isreal, cancelou a reunião com os sindicatos e propõe mediadores nas salas de aulas. Saúde? Temos que telefonar e ser atendidos já por IA. Foi isso que fez este Governo com a Kristin – para eles a Kristin é um robot, se quiser um telhado marque 1, se caiu e tem dores marque 2, se tem uma árvore em cima marque 3. E por favor não deixem de se filmar, como o fascista a distribuir águas, ou esta coleção ignóbil de Ministros a filmar-se. A catástrofe é não vermos que temos que nos organizar, contra o Estado, que nos suga cada cêntimo do salário e em troca nos dá…comunicação.
Raquel Varela
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