O feminino de maestro, dez anos de Acordo Ortográfico, populismo linguístico no Brasil e Chico Buarque, Prémio Camões 2019 – Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

Source: O feminino de maestro, dez anos de Acordo Ortográfico, populismo linguístico no Brasil e Chico Buarque, Prémio Camões 2019 – Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

Please follow and like us:
error

prémio da Lingua Portuguesa, atribuído pela Fundação Oriente. para timorense

Diz-se muitas vezes que em Timor os jovens não falam português. Este é o Emanuel Viana e este é o fabuloso texto com que venceu hoje o VI Prémio da Lingua Portuguesa, atribuído pela Fundação Oriente.

SÓ SE CANSA DO MAR QUEM DO MAR SÓ VÊ ÁGUA
Quem conta um conto conta uma história; quem conta uma história conta uma verdade. A da própria história. Ela basta. Depois existem os géneros: os romances, as fábulas, a História. Há até os romances históricos, livros que são uma falsa imaginação de uma história real.
Aprendi na faculdade, com um professor, algumas palavras difíceis. Ele gostava de nos ensinar assim Direito. Dizia que quem só sabe de Direito nem de Direito sabe. Aprendi as palavras infinitesimal e incomensurável. A primeira significa a renovação de uma medida matemática sem limites. A outra é usada para determinar nas vítimas os seus danos morais, que são impossíveis de avaliar, logo incomensuráveis. Timor-Leste é assim também. Um país infinitesimal e um país incomensurável. Parece infinitesimal a pobreza, a falta de condições de vida, os hospitais pobres e sem condições, as estradas destruídas, a violência contra as mulheres e, pior de tudo, a corrupção. É incomensurável a beleza do país, como o são as suas maravilhas: um mar calmo e colorido, um sol invejável, montanhas imensas despidas de habitação, de cor amarela na época das secas e verde na época das chuvas. Além disso há os recursos naturais, como o gás e o petróleo.
Escrevo isto porque um conto, uma história imaginária, com personagens fictícios, lugares inexistentes e sonhos impossíveis de realizar, não é história que gostasse de escrever. A vida, em criança, nunca me deixou ver filmes de crianças e só recebi livros muito tarde em idade. Atrai-me a vida crua e se tenho um sonho é o de um país democrático, próspero e desenvolvido. “Conto”, por isso, o sonho de uma criança depois de 2006 e até hoje.
Timor-Leste é um país de sonhos. A ilha de Timor tem uma medida de 30.077 Km2 e localiza-se no sudeste asiático, com fronteiras marítimas com a Indonésia, com quem tem fronteira terrestre, e com a Austrália. Eu próprio, que sou timorense, nasci inundado de mar numa dessas ilhas, a das Flores. Terei de voltar a ela mais à frente, pois vivi lá alguns anos depois de 2006. Quanto a Timor-Leste, acredito que foi a morfologia que abriu ensejo ao número infinitesimal – aqui está apalavra que o professor de Direito me ensinou – de ritos e mitos e lendas. O maior deles é o do crocodilo gigante que, repousado no sono, criou a terra que pisamos. Há outros, mais ou menos bonitos, mas o que eu mais gosto é o do nome próprio, Timor Lorosae, como quem diz a terra do nascer do sol.
Na sua história, aponta-se um passado colonial e grandes e vários conflitos bélicos. Data de 1512 o ano em que os portugueses desembarcaram no país, na região que hoje é de Oecuse Ambeno, e numa altura, ainda, em que a ilha era um território unitário. Foi pois o ano em que Portugal, no que respeita às suas colónias, “completou a sua circum-navegação”. Depois disso, haveria que registar a divisão da ilha em dois, o Timor português e o Timor holandês, transformado em Timor indonésio em 1949. Antes, ainda, em 1912, a tentativa de revolta de Dom Boaventura, na
liderança da Revolta de Manufahi. Até que chegou 1975, depois do 25 de Abril de 1974 em Portugal, e Timor português perdeu a dependência colonial. Duraria pouco, pois a ocupação indonésia dominou até 1999 o território foi administrado pelo invasor com mão de ferro, matando, raptando e violando todos, entre homens e mulheres, jovens e idosos. Daí que em 2002, depois que chegou ao fim a época de transição das Nações Unidas através da UNTAET para um novo país democrático e independente, todos os timorenses pensaram que tinham acabado os seus sofrimentos.
Estávamos errados. 2006 estava para vir. E eu, jovem timorense, iria ver o desastre de um sonho. “Para onde vão os gatos quando morrem?” eu não sei, mas foi a primeira vez, com oito anos de idade, que vi a destruição e a morte na minha frente. Quando se morre o corpo fica frio. Sabem? Já o tocaram? E os olhos, sabiam que só se fecham se nós, os vivos, o fizermos? Eu não sabia, mas vi isso na minha família. E para que não fosse eu a morrer um dia, a ordem em família foi clara: o pai fica em Timor, vai lutar se for preciso porque é o país dele, e a mãe e eu vamos para a ilha indonésia das Flores. E fui, entre longas horas de mar, e por bastante tempo.
Vi mar, e mais mar, e mais mar. Aprendi em pequeno que viajar serve para pensar. Naquele tempo e depois eu sofria bastante. Os meus estudos pararam. A minha família não tinha dinheiro, apesar de haver comida todos os dias. E o meu pai, resistente da guerra, estava separado de mim por um mar imenso. Passavam dias e dias sem falarmos. Sem nós sabermos dele vivo nem ele saber de nós. Querem saber o que é o pior pesadelo do amor? Ver em música o “requiem” de quem mais gostamos. Em 2006 o meu maior medo, todos os dias, é que esse “requiem” fosse tocado em homenagem ao Senhor meu pai, sozinho em Timor porque quis proteger a família da insegurança. Com sorte, hoje, estamos todos juntos, eu pude regressar com a minha mãe, e o combatente solitário é um homem feliz neste país de paz.
Mas falta tanto por realizar ainda! O mar mais próximo que eu agora tenho para ver na capital é o que surge para lá da Universidade. O meu pai não está mais afastado de nós e paz é algo que temos como certo. Mas conseguem acreditar que agora, desde que entrei na Universidade, sinto uma vontade maior de também eu, como anónimo, mudar o meu país para melhor. Acreditamos que o desenvolvimento vai chegar ao nosso país espontaneamente, sem termos de fazer nada por ele. Há mar e há vêr o mar, e quem acredita nisso só vê com os olhos da cara. Um presidente americano, John Kennedy, perguntou o que os cidadãos podem fazer pelo país. Eu sei aquilo para que fui ensinado e sei o exemplo da educação do meu pai. Para que Timor-Leste seja um país em que estudar não é um luxo, em que saúde pública seja significado de um bom hospital, e em que os corruptos sejam punidos, eu, apesar de muito jovem, sei o que precisamos. Precisamos que as pessoas com autoridade para governar, os líderes, como o capitão de um navio, nos liderem como parte de si contra as poderosas ondas de um oceano feroz. Precisamos que eles olhem o povo como

seu, para que a pobreza não seja negligenciada e venha a ser erradicada. Para que nos hospitais exista saúde de qualidade e para que os sonhos dos timorenses sejam cumpridos. É evidente que só se cansa quem e quando do mar só vê agua, porque esse não é capaz de pensar além da realidade tangível. O mar, no fundo, possui muitos recursos e riquezas naturais. Há animais marinhos, peixes, gás, petróleo. Mas sabem o que há em excesso no Mar de Timor: histórias de timorenses. A distância entre famílias causadas pela guerra e pelas imigrações da pobreza. A frase deste meu título é de um escritor que também deixou Timor para ir estudar para Portugal.
Portanto, ao olhar o mar, devemos perguntar que futuro queremos. Não precisamos de ser como os grandes países civilizados nos luxos e na riqueza. Não precisamos de grandes despesas e construções. Precisamos de cumprir a nossa própria constituição. Em direito ensina-se o seguinte: que os Direitos, se não forem realizados nas relações concretas, são escritos sobre areia porque é como se não existissem. Precisamos assim de proteger a saúde, a educação, a habitação, a dignidade humana. Precisamos de preservar a identidade timorense e por que lutamos e sofremos durante séculos. E se isto é incomensurável, impossível de medir e de quantificar, há uma coisa que também o deve ser no futuro das próximas gerações de timorenses: “a crónica da travessia” que temos feito desde 2002 e que precisamos continuar para que em 2050, em 2100, em 2200, novas gerações de timorenses num Timor-Leste mais próspero e equilibrado na repartição dos recursos, falem com honra dos seus antepassados.

Image may contain: 1 person, standing
Image may contain: 3 people, people standing

Like

CommentShare

Comments
Write a comment…
Please follow and like us:
error

Universidade de Goa abre bacharelato em língua portuguesa e estudos lusófonos – Somos!

A Universidade de Goa vai oferecer um bacharelato em língua portuguesa, alargando as possibilidades de formação aos estudantes que, após a terem tido no secundário, apenas poderiam voltar a encontrar a língua de Camões em cursos de pós-graduação. O novo bacharelato em Português e Estudos Lusófonos começa no próximo ano letivo e as inscrições já […]

Source: Universidade de Goa abre bacharelato em língua portuguesa e estudos lusófonos – Somos!

Please follow and like us:
error

Língua Portuguesa: 11 palavras que os nossos avós usavam | ncultura

Recue no tempo e lembre 11 palavras que os nossos avós usavam e que já ninguém, ou quase ninguém, utiliza. Espreite a lista e viaje no tempo.

Source: Língua Portuguesa: 11 palavras que os nossos avós usavam | ncultura

Please follow and like us:
error

Angola quer bantu no acordo ortográfico da CPLP – África 21 Digital

Governo angolano aproveita o Dia da Língua Portuguesa da CPLP para defender que o acordo ortrográfico se concilie com alguns aspetos da linguística bantu.

Source: Angola quer bantu no acordo ortográfico da CPLP – África 21 Digital

Please follow and like us:
error

Língua Portuguesa: 10 palavras com significados diferentes noutras línguas | ncultura

Birra, curva, burro, são apenas alguns exemplos. Tome cuidado com as confusões. Descubra 10 palavras com significados diferentes noutras línguas.

Source: Língua Portuguesa: 10 palavras com significados diferentes noutras línguas | ncultura

Please follow and like us:
error

UMA LÍNGUA À PORTUGUESA NO SRI LANKA?

UMA LÍNGUA À PORTUGUESA NO SRI LANKA?

O ataque terrorista contra cristãos e turistas no Sri Lanka deixou-nos o amargo na boca que todo o terror deixa. Talvez poucas vezes pensemos naquela ilha — e, no entanto, há muito de português por lá…

1. A terra dos Fernandos e dos Fonsekas

Hoje, chamamos «Sri Lanka» àquele país. É dos poucos países sem um nome próprio em português (as formas aportuguesadas «Sri Lanca» ou «Seri Lanca» são praticamente desconhecidas). É um país estrangeiro como poucos.

E, no entanto, se aterramos nessa ilha em forma de lágrima e folhearmos uma lista telefónica, encontramos apelidos como: Silva, Fernando, Pereira, Almeida, Costa, Fonseka…

São nomes relativamente comuns. O actual governo do Sri Lanka tem um ministro de apelido Fernando e outro de apelido «Perera» (uma variante de «Pereira»).

Esta ilha distante tem por lá mais de português do que pensamos à primeira vista. Não nos esqueçamos: logo na primeira estrofe d’Os Lusíadas, há uma referência à Taprobana, que serve para apontar quão longe chegaram os Portugueses. A Taprobana, como aprendemos na escola, é a ilha onde está esse país a que hoje chamamos Sri Lanka. Também não convém esquecer que há um antigo nome para a ilha, de sonoridade bem mais portuguesa: Ceilão.

2. Portugueses na Taprobana

Portugal já lá esteve metido até aos cabelos. O nosso reino governou parte da ilha, andou metido em guerras internas, levou para lá muita gente e deixou por alguns vestígios — a começar pelos tais nomes. Mas não foram só os nomes. Saímos de Ceilão no século XVII e, no entanto, algumas famílias ainda usam, em casa, um crioulo português.

O crioulo português do Sri Lanka já quase desapareceu, sob o peso das duas línguas oficiais — cingalês e tâmil — e do inglês. Já ninguém o escreve, mas ainda há umas dezenas de pessoas que o falam. (Esta página descreve um pouco a língua e os esforços para a preservar: https://roar.media/…/the-language-that-was-left-behind-sri…/)

Reparemos na frase «Vosse quanto vez ja caza?» — significa «Quantas vezes já se casou?».

A sensação é de português malfalado, mas o que temos é, na verdade, um sistema gramatical completo e sistemático.

Por exemplo, o tempo e o modo do verbo, em vez de serem assinalados pela flexão verbal, são indicados por partículas próprias. O passado é apontado pela partícula «ja» (como na frase acima), o presente pela partícula «te» e o futuro pela partícula «lo». Assim, «ja olha» significa «olhei», «te folga» significa «folgam» e «lo leva» significa «levarei» (os exemplos que usei estão nesta página: https://en.wikipedia.org/wiki/Sri_Lankan_Portuguese_creole).

3. O que é um crioulo?

Este é um dos muitos crioulos de base portuguesa espalhados pelo mundo. Os crioulos são línguas interessantíssimas — registam em forma de gramática e léxico o contacto entre povos.

A palavra «contacto» talvez seja um pouco limpa de mais para designar tudo o que esconde. Falamos de comércio, guerras, tratados, escravos… No caso do crioulo português do Sri Lanla, a língua surgiu não só no seio das famílias mistas, como também das conversas entre as crianças e os escravos que para lá levámos.

Quando pessoas com línguas diferentes entram em contacto, o resultado raramente é a incompreensão mútua. Ou melhor, é habitual que haja essa barreira inicial, mas não dura muito: rapidamente, os dois lados aprendem pedaços da língua do outro lado, criando — se o contacto for continuado — aquilo que os linguistas chamam de pidgin, ou seja, uma língua de contacto. Não é a língua materna de ninguém: serve apenas para as situações de comunicação entre pessoas de línguas diferentes.

Pois, se em determinado território esse pidgin se torna tão importante que as famílias começam a falá-lo com os filhos, haverá uma geração que aprende esse falar como língua materna. É aí que surge uma nova língua — que chamamos, habitualmente, «crioulo». Ou seja, a palavra «crioulo» não designa uma língua em particular, mas antes um tipo de língua.

Quando o cérebro das crianças aprende o crioulo, aprende-o como qualquer outra língua humana — para um falante dum crioulo, a sua língua é tão completa e útil como qualquer outra língua para os seus falantes. É uma língua que permite dizer tudo o que quisermos, com gramática bem definida, léxico e tudo o mais de que se faz um idioma.

O crioulo mais falado e conhecido no mundo é o cabo-verdiano, que deverá, mais cedo do que tarde, tornar-se numa das línguas oficiais de Cabo Verde. Há, aliás, um crioulo de base portuguesa que já é oficial nalgumas ilhas das Caraíbas: o papiamento.

Não devemos cair no erro de achar que um crioulo é uma língua menor. Afinal, há quem diga que o inglês passou por fases de crioulização — muito do que é hoje a língua dos ingleses nasceu do contacto entre anglo-saxões e viquingues e, séculos depois, entre anglo-saxões e normandos.

A teoria da origem crioula do inglês é controversa. No entanto, pensemos na nossa língua. Antes do latim de onde veio o português, tivemos o itálico; antes do itálico, o indo-europeu; antes do indo-europeu, outras línguas, que não conhecemos, numa sucessão que vem do fundo dos muitos milénios desde a origem da linguagem humana. É bem provável que, num qualquer momento da história das línguas que vieram a dar ao português, tenha havido um crioulo metido ao barulho, um povo que entrou em contacto com outro povo, nascendo daí uma outra língua, diferente das duas línguas-mãe…

4. Palavras portuguesas além da Taprobana

Pois nós, que andámos pelo mundo inteiro, fomos grandes criadores de crioulos — o que não implica um talento especial, apenas a vontade de falar com quem encontramos, por boas e más razões. Seja como for, as palavras que designam os crioulos em muitas línguas europeias nasceram da nossa palavra «crioulo», com origem na palavra «cria» — o que talvez se ligue às crianças da casa que aprendiam a língua ou aos criados que a falavam… Crias, crianças, criados, crioulos…

Uma língua de crianças e criados, falada por portugueses e cingaleses, com séculos de História. Está, no entanto, e ao contrário de outros crioulos, a desaparecer.

Ora, mesmo a língua mais falada na ilha — o cingalês — tem mais de uma centena de palavras portuguesas. Quando olhamos para a língua escrita a sensação é, claro, de estranheza. As letras são muito diferentes das nossas. A palavra para escola é, por exemplo, «ඉස්කෝලය». E, no entanto, se ouvirmos a palavra, temos «iskōlaya», que teve origem no português. Há palavras de origem portuguesa muito comuns, como «sumānaya» («semana»), «avuelā» (avó paterna) e «baila» — que é o nome de um estilo musical típico do Sri Lanka, muito influenciado pela música portuguesa.

Na ilha, há de facto muitos outros vestígios portugueses: a música, os apelidos, algumas tradições e a religião de uma minoria, que se viu agora atacada.

(Crónica no Sapo 24.)

Continuar a ler

Please follow and like us:
error

A BOLA – «4000 estudantes chineses aprendem português em 40 universidade» (Revista de Imprensa)

A BOLA, toda a informação desportiva. Acompanhe todas as notícias do seu clube ou modalidade preferida, para onde quer que vá.

Source: A BOLA – «4000 estudantes chineses aprendem português em 40 universidade» (Revista de Imprensa)

Please follow and like us:
error

A musse, o musse, a mousse ou o mousse

A musse, o musse, a mousse ou o mousse

Flávia Neves
Flávia Neves

Professora de Português

A forma correta de escrita da palavra é musse. A palavra mousse é forma original da palavra em francês. A palavra musse é um substantivo feminino. Assim, dizer a musse está correto e dizer o musse está errado. A palavra musse é um substantivo comum feminino e se refere a uma comida leve e cremosa que pode ser doce ou salgada feita com claras de ovos. Significa também um produto espumoso para fixar os cabelos.

Exemplos:

  • Eu tenho a receita de uma musse de maracujá maravilhosa.
  • Sua musse de chocolate está deliciosa.
  • Minha irmã comprou uma musse para cabelos encaracolados.

Musse é um estrangeirismo, tendo sua origem na palavra francesa mousse. Enquanto em alguns estrangeirismos utilizamos a palavra na sua forma original (como mouse, delivery, shopping,…), em outros utilizamos a forma aportuguesada da palavra (tal como batom, abajur, boxe,…). No caso em questão, a palavra mousse foi aportuguesada para musse com base na sua pronúncia e nas regras da língua portuguesa.

A dúvida acerca do gênero da palavra musse surge visto a palavra terminar na vogal e, não havendo vogal que marque o feminino (a) ou o masculino (o). Existem, no português, muitas palavras terminadas em –e que apresentam a mesma forma no masculino e no feminino, como o cliente/a cliente, o agente/a agente, o estudante/a estudante,… Contudo, esta regra não se aplica à palavra musse, nem a muitas outras palavras da língua portuguesa, que têm um gênero definido: a mascote, o doce, a face, o lance,…

Palavra relacionada: musse.


Flávia Neves
Flávia Neves

Professora de português, revisora e lexicógrafa nascida no Rio de Janeiro e licenciada pela Escola Superior de Educação do Porto, em Portugal (2005). Atua nas áreas da Didática e da Pedagogia.

Também

Please follow and like us:
error

o arco da velha

 

667. arco-íris, seia 29 set 2014

arco-do-céu

arco-da-chuva

arco-do-tempo

arco-da-água

arco-da-velha

arco-do-abraço

arco-de-deus

arco-celeste

arco-da-aliança

arco-da-virgem

arco-íris

na mitologia dos colóquios

há antropomorfismos

de íris a vénus

jovem e nascitura

metamorfose do arco-da-velha

somos a voz das lusofonias

da galiza a timor

do brasil aos açores

guia-nos mestre bechara

mestre malaca é timoneiro

todos divisamos futuro

no mastro do caráculo

 

Leonel Morgado shared a post.
11 hrs

Image may contain: sky, cloud, outdoor and water
Gallaecian celtic culture
Community
Gallaecian celtic culture

13 hrs

In Galician, Northern Portuguese and Asturian tradition, the rainbow is called “arco-da-velha” (The old woman’s arch, in English), because people believed the Old Woman Goddess (“velha”) was responsible for their appearance. The Old Woman is Cailleach.
In Irish, Gallaecian and Scottish mythology, Cailleach, also know as Cailleach Bheur, is a divine hag, a creatrix, and possibly an ancestral deity or deified ancest. Her function would be to protect all animals in Autumn and Winter and take care of Nature, although it is believed that she was also the spirit of Winter, which did not allow nature to develop freely.

According to ancient beliefs, Cailleach is the mother of all gods and goddesses. In partnership with the goddess Brìghde, she is a seasonal deity or spirit, ruling the Winter months between Samhainn (1st of November) and Beltane (1st of May), while Brìghde rules the Summer months between Beltane and Samhainn.

Photo: The Arco-da-Velha over the cities of Porto and Gaia, Ancient Portus Cale or Portus Gale, Roman designation for this are of Northern Portugal where the native Celts worshiped the Goddess Cailleach.
Photo Credits : Manuel Gonçalves

Gallaecian Celtic Culture, GCC 02/06/2018

Please follow and like us:
error

texto de Teolinda Gersão

Isabel Pereira

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete”: “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.

No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados; almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.

No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa. No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?

A professora também anda aflita. Pelo visto, no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer, dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)

Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.

E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se escreve redação.O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.

João Abelhudo, 8º ano, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática

Este texto é da autoria de Teolinda Gersão. Escritora, Professora Catedrática aposentada da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade

Nova de Lisboa. Escreveu-o depois de ajudar os netos a estudar Português. Colocou-o no Facebook

Please follow and like us:
error