jornalista da Lusa evocação sobre Timor

Quando, como no meu caso, já se escreveram tantos textos sobre Timor-Leste, há muitos dos quais nos esquecemos e outros que nunca esquecemos. Este é um destes últimos. Foi feito em jeito de desabafo ao longo de muitos dias e publicado a 20 de maio de 2002. Mas como 20 de maio de 2002 não teria existido sem a coragem de 30 de agosto, deixo este desabafo aqui hoje. No 19º aniversário da Consultar Popular.

Timor-Leste/Independência:
Por António Sampaio, da Agência Lusa

Díli, 20 Mai 2002 (Lusa) – Depois de mais de 5.000 textos em três anos, de centenas e centenas de horas a falar e ouvir falar de Timor-Leste, de dezenas e dezenas de entrevistas, de sorrisos, de desespero, de medos e de viagens surpreendentemente belas.
Depois de conversas com assassinos e vítimas de violência, de contactos com diplomatas e activistas com pouca diplomacia.
Depois de ouvir aspirantes a políticos, políticos dogmáticos, políticos de ideologias ultrapassadas ou esquecidas, políticos pouco inspirados, políticos apologéticos, políticos sensacionalistas e peritos em propaganda, políticos de esquerda, de direita ou totalmente desnivelados com qualquer das alas e consigo próprios
Depois de ouvir desculpas e justificações, de tentar entender explicações ou silêncios quando as respostas não convinham.
Depois de ver gritos pela liberdade dados em silêncio, de sentir celebrações adiadas e de ouvir orações a calar a dor. Depois de sentir os olhos a nublarem-se com os sentimentos que o jornalista não deve mostrar na busca da verdade.
Depois de conhecer humanistas e abusadores dos princípios básicos do ser-se humano. De contar anedotas a quem dias depois fazia ameaças, de correr ao som de rumores, de vaguear por factos e de contar carros da ONU, com as letras pretas sobre o fundo branco, enquanto passavam ao som de aplausos pelas ruas.
De ouvir o ‘bacalhau quer’alho’ num convívio de juventude esquerdista, de afastar com os pés montes de café derramado a tapar manchas grandiosas de sangue, de fotografar ‘gangsters’ de mota e de camisolinhas todas iguais, a fazerem juramentos pela ‘vida ou morte’, depois de cortarem os pescoços a duas galinhas. De ver homens a abraçar-se e logo a seguir a jurarem matar-se à primeira oportunidade.
De contar crânios carbonizados nas traseiras do esqueleto de uma carrinha de caixa aberta. De fugir de balas e de saber que os pés dos ‘brancos’, dos ‘malais’, dos ‘bole’, do ‘patrão’ correm mais rápido e podem fugir sem ter que regressar.
De ver jornalistas ‘heróis’, de ver heróis sem nome, de ver turistas do ‘histórico’, fãs da guerra e cúmplices do caos a menearem-se como preocupados e conscientes. Depois de testemunhar inconsciência, irresponsabilidade, triunfos, dedicação, paixão por uma causa e pouco entendimento da mesma.
Depois de ouvir pessoas que falavam português pela primeira vez em 24 anos, de visitar locais de onde há igual número de anos fugiram os portugueses, de comer camarões de Metinaro, de ficar estonteado com a beleza de Dare.
Depois de apanhar café em Ermera, de fazer acompanhar esse cafézinho de fruta-pão e amendoins como só se fazem na Diocese de Baucau. Depois de ver cerimónias integracionistas, de milícias com armas de madeira e catanas, a alguns quilómetros de uma lagoa onde dizem que flutuam corpos.
Depois de comprar bananas verdes para correr a ver os timorenses votarem nas ultimas eleições indonésias em que o terão que fazer.
Depois de fugir e ver fugir, de contar corpos, de ver instrumentos de tortura, de passar sobre arquivos de décadas passadas, esquecidos e bolorentos, de visitar praias deslumbrantes e observar marcas de violações nas paredes de casas destruídas.
Depois de contar anedotas com D. Basílio do Nascimento, de esperas sem fim na Percetakan Negara VII, às portas da casa-prisão de Xanana em Jacarta, de beber café com integracionistas num hotel onde acabava de chegar Madeleine Albright.
Depois de ouvir, ao telefone um ‘tenho que desligar’ e o som das balas, antes das que mataram Manelito das Carrascalao. De ver cair morto um jovem, baleado por um soldado indonésio que não o conseguiu pontapear quando ele passava a correr, e que por isso preferiu a certeza e a rapidez da bala.
Depois de abraçar o senhor Tilman, o bagageiro amigo do aeroporto de Díli, e de cumprimentar o bagageiro que de Atauro viu sair o avião em que fugiu o governador Lemos Pires, já lá vão tantos anos.
Depois de ficar apavorado, com um dos maiores parceiros de viagens por Timor, quando à meia-noite, no meio de Díli, todas as luzes se apagam.
Depois de conhecer o Zé Lai, o maior condutor de Díli, que quer ser político, foi guerrilheiro e perdeu a mulher e o filho à fome dos anos 70.
Depois de ver os táxis verdes do senhor chefe das milícias, e os azuis a cair de podre, a serem substituídos nas ruas de Díli, por tanques pesados e jipes nos tons verdes e castanhos dos militares da INTERFET.
Depois de magoar os pés nos corais da praia da Areia Branca e de cuidadosamente empacotar pilhas de papeis num armário, agora em cinzas, no quarto 209 do Hotel Mahkota.
Depois de olhar para os sorrisos amarelos de Ali Alatas, e para o de um velho desdentado que explicava que mascar betel, areca e cal viva ‘dá uma dor assim no peito e dá vontade da gente trabalhar’.
De ver procissões imensas e todos os padres de Timor num convívio alegre e descontraído, na varanda agora destruída da sede da Diocese de Díli. Depois de olhar para a estátua do Cristo Rei, no alto do monte da Praia da Areia Branca, construída por Suharto, ou para a rotunda do aeroporto onde nunca acabou por ser colocada a estátua da sua mulher, a senhora ’10 por cento’.
Depois de conhecer o enfermeiro de nome código ‘Socorros’, de ouvir sons do político que se prefere chamar ‘Selvas Ciclone’, de ver jornalistas apaixonadas pelo comandante Falur Rate Laek, e de dormir sob um toldo de plástico num dos locais mais inacessíveis do montanhoso Timor-Leste, ao lado da tenda de comando de Taur Matan Ruak.
Depois de ver chegar a burocracia da ONU, de ver os timorenses a reaprenderem a guiar o seu país. Depois de ver Xanana Gusmão a chorar, a cantar, a rir. Depois de saber que o casamento tinha sido em Dare e que o filho da nação se vai chamar Alexandre, alcunha Kay Rala.
Depois de ver as milícias a voltar. De ver portugueses a guardar timorenses, 25 anos depois. De comer bacalhau, francesinhas e beber bicas nas ruas antes intransitáveis, onde o medo reinava. De comprar jornais timorenses, novos ou com cara lavada, a putos de cara suja e olhar vivaço.
Depois de regressar aonde tudo foi destruído e quase nada reconstruído. Depois de comprar o primeiro quadro do Bosco e de ver D. Ximenes Belo a olhar para um ‘nu’ na primeira exposição do futuro Centro Cultural.
Depois de ver as primeiras celebrações em liberdade, os primeiros congressos, os primeiros jogos políticos de cintura. Depois de ver nomeados os primeiros ministros, de ver tomar posse o primeiro funcionário público, de ver renascer o comércio e regressar os comerciantes chineses. Depois de ver estátuas mágicas de Ataúro e a magia da ‘normalidade’
Depois de ver ruas a renascerem, edifícios a reaparecerem e a vida a regressar. Depois de ouvir e ver mais rádios e mais televisão do que sempre, de ver consultas, análises, projectos, estudos, seminários e conferências.
Depois de ver esboços de governos, de parlamentos, de estruturas administrativas. De ver quem dá o dinheiro, quem não o vê e quem não percebe onde foi gasto.
De espreitar para novos gabinetes, de ver a reconstrução privada a explodir, de ver nascer contentores nos passeios e bermas da cidade. De ver o café a sair, a fruta a chegar, o vendedor no mercado a encomendar reforços com telemóvel na mão.
Depois de comprar VCDs piratas, de ver putos minúsculos a oferecer segurança a militares e polícias corpulentos, a troco de uma coca-cola, uma bola ou um dólar. De ver uma roleta com os nomes de 16 partidos, a alinharem-se no primeiro boletim de voto.
De acompanhar um comício a oito, grandes e pequenas campanhas, o fim das Falintil, o fotógrafo Xanana, o ansiado acordo sobre as riquezas do Mar de Timor.
Depois de ver contar votos, pela segunda vez e sabendo que os votantes estavam em casa, não escondidos na montanha. Depois de ver um governo só timorense, os primeiros debates constitucionais, os esforços da reconciliação e as tentativas de repatriação.
Depois de ver chegar a lei base da nação e de ver confirmado o papel do ‘velho’ que não queria ser presidente e discursou como tal perante homólogos de todo o mundo.
Depois de ver subir a bandeira. Depois de ver um Estado a nascer.
Depois de mais de três anos de viagens in loco, após outros nove ou 10 de viagens por fora, ainda se confundem as direcções.
Ficam retalhos de algumas das placas mal sinalizadas que se foi encontrando. Deixados para o mundo, no registo que foi possível.

Lusa/Fim

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novo ciclo Jornal do Fundão

Um grupo de jornalistas e docentes universitários nao atirou a toalha ao chão. Comprou o jornal senior na imprensa, o Jornal do Fundao, de 72 anos, para que continue na banca, pelos leitores e pela região do interior. É pelo jornalismo que caminhamos.

JORNALDOFUNDAO.PT|BY JORNAL DO FUNDÃO
A partir de hoje o Jornal do Fundão inicia um novo ciclo na sua já longa história. Um grupo de jornalistas – onde se inclui o atual diretor –, docentes universitários na área da Comunicação e também amigos de sempre deste semanário e dos valores que representa, adquiriram ao Global Medi…

a mordaça na RTP

Filipe Tavares shared a post.
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Paulo de Morais

12 hrs

Seixas da Costa é o Comissário Político que o Governo nomeou para a RTP, para o Conselho Geral Independente. Mas é muito mais do que isso: como é administrador na Mota Engil, garante que a RTP não noticie iniciativas contra as ruinosas PPP rodoviárias, como esta (http://frentecivica.com/?page_id=789); como é administrador da EDP, garante a censura às notícias sobre rendas eléctricas ou as acusações de corrupção ao Presidente da EDP António Mexia; como é administrador da Jerónimo Martins, que representa a Unilever (maior anunciante de Portugal), impede notícias sobre publicidade ilegal. ETC.
Com Seixas da Costa nomeado pelo governo para a RTP, o governo garante a propaganda política e a promiscuidade entre os grupos económicos, a comunicação e a governação. Seixas da Costa paira na RTP, mantém uma Administração subserviente, uma Direccção anestesiada. A Informação definha, os jornalistas padecem. Os espectadores desligam ou mudam de canal. A situação na RTP assemelha-se aos anos setenta, antes do 25 de Abril. Seixas da Costa é um sucessor, na televisão a cores, de Ramiro Valadão, comissário do governo fascista para o audio-visual.

O jornalismo português é burro?

Não sei se o caro leitor ou leitora se apercebeu mas, em São Tomé e Princípe, antiga colónia portuguesa, há dois ex-ministros suspeitos de tentarem um golpe de Estado e pessoas presas há poucos dias por, alegadamente, estarem a preparar um atentado.

Source: O jornalismo português é burro?

jornalismo à antiga entrevista a Hitler

Carlos Fino shared a link to the group: Jornalistas.
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ARQUIVO DN
PARA A HISTÓRIA DO JORNALISMO EM PORTUGAL

DN.PT
O DN republica a entrevista de António Ferro a Hitler, de 1930, quando o nazi não tinha ainda chegado ao poder. Para reler, hoje que faz 73 anos que a II Guerra Mundial terminou
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Carlos Fino E há, ao longo do texto, construído em progressivo suspense, vários momentos notáveis – da figura do historiador-polícia ao serviço do partido, da encenação do poder, típica das ditaduras, mesmo quando ainda no ovo, à agenda diária do chefe, passando pSee More
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Cristina Mestre Hoje, os jornalistas já não escrevem assim, com tanto pormenor e subtileza, é pena

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Joana Ruas Uma notável entrevista feita por um jornalista culto e inteligente vivendo em tempos difíceis..O retrato que faz de Hitler com bigode a Charlot e rodeado de marionetas batendo tacões é admirável porque transforma o «grande homem» numa figura de papelão.As perguntas, essas resumem magistralmente o que viria depois.

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adeus até ao meu regresso (é disto que o meu povo gosta)

Bejinhos e abraços para o Manel, que vem de França para a semana, de férias; para os sobrinhos de Alter do Chão; para a vizinha cusca lá do bairro. É a volta a PT em bicicleta da RTP que, quais pilhas duracell, dura, dura e dura…
Durante a guerra colonial, para além dos aerogramas (oiçam os Trovante), havia os desejos de boas festas das tropas.pt em que se debitavam coisas parecidas com isto da ‘volta’, salvaguardando as diferenças óbvias… “Daqui 1° cabo Teixeira. Queria mandar muitas ‘propriedades’ para toda a família”.
Serviço Público de Média? You wish… É mais do género candongueiros da informação da treta…

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MIND CONTROL IS HERE

Truth Theory shared a video.
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In case you missed it

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Mike Sygula

May 27

When 6 Corporations control 90% of the media In America. You can be sure you are getting a good dose of propaganda, there is an agenda to report specific news in a specific way. Mike Sygula

a décima ilha (é a da Horta)

“Ilha da Horta”??? Como é que gente tão ignorante é jornalista??? Erros destes na comunicação social nacional sobre os Açores acontecem com alguma frequência, para espanto de todos nós.

Andrew Rego shared a post to the group: Açores Global.

E nao é que a décima ilha existe mesmo 😁

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Ricardo Batista

Geografia dos Açores, o calcanhar de Aquiles da comunicação social do continente )

profissionalismo televisisvo e pronúncia de nomes George Donikian SBS TV Australia

nota do editor Chrys Chrystello

George Jack Donikian da SBS NA AUSTRALIA telefonava.nos para o TIS Telephone Interpreter Service a verificar os nomes portugueses que tinha de ler em inícios de 1980 (Eanes era dos difíceis..)

Fénérbasse,
Fénérbaque,
Fénérbatche,
Fénérbá??
Sei que não é um erro de língua portuguesa,mas é irritante a quantidade de jornaleiros que nestes últimos dias têm pronunciado esta palavra das maneiras mais diversas!
Que falta de profissionalismo!
Porque não telefonam ao Quaresma,ou à embaixada da Turquia??

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Chrys Chrystello George Jack Donikian da SBS NA AUSTRALIA telefonava para o TIS Telephone Interpreter Service a verificar os nomes portugueses que tinha de ler em inícios de 1980 (Eanes era dos difíceis..)