Osvaldo José Vieira Cabral · O Subsídio de Inserção Eleitoral

O Subsídio de Inserção Eleitoral

Nas duas cerimónias comemorativas do Dia de Portugal e do Dia da Região Autónoma dos Açores ficou patente que vivemos em dois países diferentes.
Em Portalegre houve espaço para se falar da realidade das nossas vidas, com um discurso que qualquer cidadão comum subscreveria.
Em S. Jorge ouvimos apenas o elogio da Autonomia e nenhum pensamento crítico sobre o que nos afecta nos Açores.
É a diferença entre a política e a cidadania.
No Dia dos Açores, os Presidentes do Governo e da Assembleia deviam ter reflectido sobre os problemas do dia-a-dia das populações e apresentado soluções, em vez de se enredarem, repetidamente, por caminhos teóricos que não dizem nada aos cidadãos.
Em vez de se fazerem juras à Autonomia, devia-se questionar o porquê de, mais de 40 anos depois dessa Autonomia, continuarmos a figurar na cauda do desenvolvimento entre as regiões do país.
É claro que a Autonomia deu-nos mais desenvolvimento, mas o problema é que os outros avançaram mais do que nós.
Devia-se questionar se não estaremos a trilhar opções erradas, estratégias teimosamente mal geridas e caminhos falhados que afastam cada vez mais as ilhas no objectivo da coesão.
Ironicamente, no dia em que se cantavam loas ao investimento regional, durante os últimos anos, no plenário do parlamento, o Instituto Nacional de Estatística divulgava o retrato da realidade, nua e crua, da nossa região.
Em 2006 os Açores detinham o 16º lugar na Competitividade regional, entre as 25 regiões portuguesas. Em 2017 afundamos para o 21º lugar!
Em 2006 ocupávamos o penúltimo lugar na Coesão regional. Em 2017 somos os últimos!
Apenas melhorámos no Ambiente, passando do 18º para o 7º.
No global, no Índice Sintético de Desenvolvimento Regional, permanecemos em penúltimo lugar, tal como em 2006.
Onde é que falhamos? Porque razão os outros avançam mais depressa do que nós? haverá outras opções que devemos tomar?
É sobre estas interrogações que os cidadãos querem respostas.
É disto que as populações vivem no seu dia-a-dia, em cada uma das nossas ilhas, interrogando-se porque razão o filho não tem emprego, porque é que uma ilha tem tudo e outra não tem nada, porque tem que esperar anos para conseguir uma cirurgia, porque é que falham todos os anos o barco e o avião, porque é que não há dinheiro para levar os médicos especialistas às ilhas mais pequenas, mas há para enterrar em empresas públicas sempre falidas, porque é que o vizinho do lado não trabalha a terra e recebe RSI, porque é que os filhos vão estudar lá para fora e não regressam, ou, entrando na política e nos nossos políticos, porque pagamos 12 milhões de euros por ano para um parlamento com tantos deputados, que apenas fazem oito leis por ano?
É tudo isso que causa a abstenção.
A desilusão não é com a Autonomia. É com os que fazem dela aquilo para o qual não estava destinada.
A Autonomia não falhou. O que falharam foram os seus protagonistas, que fizeram dela uma coutada para alguns e apenas retórica para a população.
As pessoas fartaram-se de discursos pomposos, medidas inconsequentes e uma avantajada impunidade política.
É preciso exigir mais, muito mais, para se combater as desigualdades e as injustiças que varrem a nossa sociedade.
Combater a abstenção com prémios aos cidadãos mais bem comportados nas urnas, como uma espécie de Subsídio de Inserção Eleitoral, é, outra vez, cometer o erro que temos cometido sempre que enfrentamos um problema: atira-se dinheiro para cima dele!
Como muito bem exaltou João Miguel Tavares, no discurso do Dia de Portugal,“aquilo que se pede aos políticos, de esquerda ou direita, é que nos dêem qualquer coisa em que acreditar“.
Ora, quando vemos uma região a esbanjar recursos em opções erradas, quando os cidadãos começam a ter dificuldades no acesso a determinados serviços e bens públicos, quando vemos apenas uma elite bem instalada e sem dar explicações públicas sobre como são geridos os nossos bens públicos, quando nos prometem mais abertura no sistema de representação eleitoral, mas continua tudo na mesma, sob o controlo apertado dos aparelhos partidários, então é o desencanto que se apodera de toda uma população, não havendo dinheiro ou prémio que apague isso.
Os Açores, nos últimos anos, parecem um barco à deriva, onde os que ocupam o comando é que se sentem bem.
Quem vai fazendo lastro vê a realidade pela borda fora com ângulo diferente e preocupante.

E é esta teimosa dicotomia que está a matar a Política.
O que mais falta na palavra dos políticos é fácil de diagnosticar: seriedade e humildade.
No dia em que cumprirem os dois desígnios, a abstenção desaparece.

Junho 2019
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimédia RTP-Açores, Portuguese Times, LusoPresse Montreal)

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Publicado por

chrys chrystello

Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL

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