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Portugal | FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS: …É UMA QUESTÃO DE FAZER AS CONTAS

Posted: 21 May 2019 11:21 AM PDT

Duarte Rocha*

Um Colega Funcionário Público, de outros tempos (administrativo) mostrou-me à dias, um recibo de vencimento de 2009, em que auferia brutos de 762€ mais 75€ de subsidio de alimentação, após os devidos descontos

Recebia líquidos + – 700€.

Após estes, 10 anos, pelos efeitos dos descongelamentos, teve um acréscimo remuneratório de 75€ perfazendo um total de 837€ e mais 25€ no subsídio de alimentação, que dá o total de 100€ mensais, após os devidos descontos:

Recebe atualmente, líquidos + – 720€.

E desabafou ele, todo indignado, com toda a razão, como é possível, passados, estes, 10 anos e, na realidade, só fui aumentado em 20€ como é possível, com os brutais aumentos do custo de vida dos bens essências, habitação, alimentação, energias, água, saúde, combustíveis etc. etc. etc….

SÓ FUI AUMENTADO, EM 20€

COMO É QUE É POSSÍVEL!!!…

Bem, tendo estudado, um pouco, a questão constatei o seguinte:

– Em 2009 descontava, em sede de IRS, 5% atualmente, desconta 10,5;

– Em 2009 descontava para ADSE 1% atualmente, desconta 3,5%;

– Em 2009 descontava para a S.S. 10% atualmente, desconta 11%;

Resumindo, o parco acréscimo remuneratório e aumento no subsídio de alimentação foi, quase, todo engolido, pelos aumentos das percentagens, para efeitos de descontos do salário bruto, com principal enfoco para a taxa de IRS + 5,5%.

ADSE + 2,5 e S. S. +1% e assim, se engana o trabalhador quero dizer, assim se rouba os trabalhadores.

Mas, o mais vergonhoso é que os brutais aumentos em sede de IRS pela parte do PORCO!!! do mafioso salazarengo do Passos Coelho, pouco ou nada foi reduzido, por esta coligação de todas as esquerdas.

OU SEJA, NA REALIDADE PARA UM TRABALHADOR, SEM DEPENDENTES, A AUSTERIDADE CONTINUA…

É por isso, que o meu boletim de voto, nas próximas eleições, vai ter um tomas ou um manguito, confesso que estou mais inclinado para o tomas, porque demora menos tempo a desenhar e é de mais fácil execução…

MEU DEUS!!! só de pensar que estes xuxialistas só cobraram uma taxa de 7%, em sede de IRS aos “criminosos de colarinho branco” para eles transferirem “os seus saques das offshores” fossem eles de 1 ou de 100 milhões…

E estes CABRÕES!!! de governantes… têm a LATA!!! de cobrar a um pobre coitado de um trabalhador, em sede do mesmo imposto, 10,5% por uns míseros 800 e tal euros.

GRANDESSÍSSIMOS PORCOS CABRÕES IMORAIS!!!…

Governo de António Costa (O ILUSIONISTA)

TABELA DE IRS DE 2019 (SEM DEPENDENTES) CASADO 2 TITULARES:

Até 811,00 – 8,3%

Até 919,00 – 10,5%

Governo de Passos Coelho (O MAFIOSO)

TABELA DE IRS DE 2014 (SEM DEPENDENTES) CASADO 2 TITULARES:

Até 801,00 – 8,5%

Até 907,00 – 11,0%

Governos de José Sócrates (O ARGUIDO)

TABELA DE IRS DE 2009 (SEM DEPENDENTES) CASADO 2 TITULARES:

Até 795,00 – 5,0%

Até 900,00 – 6,0%

Duarte Rocha – em Facebook

UMA LUTA SOBRE BRASAS III – Martinho Júnior

Posted: 21 May 2019 10:52 AM PDT

HOJE JÁ É TARDE DEMAIS

Martinho Júnior, Luanda

EM SAUDAÇÃO AO 25 DE MAIO, DIA DE ÁFRICA, QUANDO HÁ 56 ANOS, EM GRANDE PARTE EM FUNÇÃO DA LUTA DE LIBERTAÇÃO, SE CRIOU A ENTÃO “OUA”, ORGANIZAÇÃO DA UNIDADE AFRICANA (https://www.officeholidays.com/countries/africa/african_unity_day.php)!

No Cunene, de há pouco mais de 100 anos a esta parte, estão-se jogando algumas das sagas mais decisivas do povo angolano e da África Austral.

Forçosamente os povos que habitavam além Cunene teriam de oferecer resistência ao colonialismo português, aos prussianos e por fim aos ingleses (provenientes do Cabo na África do Sul, os ocupantes do Sudoeste Africano até praticamente ao fim do “apartheid”), pois as leis da expansão e domínio colonial punham em causa o seu modo de vida de pastores seminómadas, que tinham no gado os motivos culturais para a sua própria sobrevivência e com eles o habitat do seu espaço vital centrado no acesso á água e ao pasto.

No seu espaço vital, esses povos dominavam os circuitos de água, ao longo da bacia do Cuvelai e Sudoeste Africano adentro até ao lago Etosha.

Assim o expansionismo colonial ameaçou sua sobrevivência e compeliu-os à resistência contra uns e outros, ou jogando com as contradições entre os invasores redundantes da Conferência de Berlim, apesar de sua desestruturação, pois comércio algum era suficientemente aliciante para os poder convencer e moldar, até por que souberam jogar com muitos dos contraditórios coloniais em regiões transfronteiriças!

O rei Mandume haveria de ser o chefe emblemático dessa resistência e as campanhas do expansionismo colonial não foram fáceis, só conseguindo avançar pouco apouco e com muitos reveses pelo meio…

Essa situação agravou-se com a Iª Guerra Mundial, consequência da competição entre os império colonial britânico e o alemão, que levou o subalterno colonialismo português a aliar-se uma vez mais aos britânicos.

O colonialismo português a sofrer reveses como o de Naulila, em finais de 1914, face a uma incursão prussiana…

Essa incursão acabou por ser um antecedente remoto à “border war” que o “apartheid” levaria a cabo na 2ª metade do século XX já com Angola independente, precisamente no mesmo espaço territorial de alguns dos episódios finais da batalha do Cuito Cuanavale.

O próprio expansionismo foi um revés para Angola em relação ao acesso à água e à determinação da necessidade duma geoestratégia (servindo como alienação, inibição e um travão propício à formação da mentalidade de feição) e seria determinante nos atrasos que advêm até hoje, em relação às possibilidades de desenvolvimento sustentável respeitando e em função do controlo e gestão da água interior!

Hoje já é tarde demais, por que o possível esforço de luta contemporânea, o esforço angolano de hoje, só pôde ser realizado depois de vencido o colonialismo, depois de vencido o “apartheid”, depois de vencidas algumas de suas sequelas e ganhando consciência crítica e de vanguarda face ao capitalismo neoliberal que tem sido inculcado em África formatando mentalidades nas elites servis, quando tudo se deveria ter iniciado em tempo oportuno precisamente há pouco mais de 100 anos!

Também por esta razão tenho considerado que Angola tem apenas (sobre)vivido (?) em “séculos de solidão”!

05– De meados do século XIX até ao início da Iª Guerra Mundial, o colonialismo português e o prussiano (https://www.youtube.com/watch?v=gX8itgI9s80&feature=youtu.be), cada um em seu território, desenrolaram com geometrias muito similares a respectiva expansão em Angola e no Sudoeste Africano, para entrar em combate entre si no período da Iª Guerra Mundial, facto que não foi alheio à entrada dos sul-africanos provenientes do território inglês do Cabo (África do Sul).

Em Naulila manifestou-se a fragilidade da tentativa de ocupação colonial portuguesa a leste do rio Cunene (http://www.momentosdehistoria.com/MH_05_01_01_Exercito.htm), o que espevitou ainda mais a resistência dos humbes, cuamatos e cuanhamas (https://pt.wikipedia.org/wiki/Combate_de_Naulila).

No espaço do sudoeste e sul angolano essa expansão sendo difícil para o colonialismo português, havia sido sustido desde logo no passo do rio Cunene, nos Gambos (de 1855 a 1866) e intermitentemente no Humbe (de 1867 a 1898).

Os então Governadores de Angola, Francisco Joaquim Ferreira do Amaral (1882 a 1886) e Guilherme Augusto de Brito Capelo (1886 a1892), foram os reorganizadores da expansão para leste do colonialismo português no espaço angolano, conjuntamente, na frente sul-sudeste, com o mando militar de Artur de Paiva Couceiro que em 1889 haveria de chegar e ultrapassar o Cubango, consolidando as posições a partir da região central das grandes nascentes (Bié) e em direcção ao Cuando Cubango (o que deu azo ao imenso “distrito” do Bué e Cuando Cubango).

O Governador Brito Godins teve no entanto pela frente uma das sucessivas revoltas do Humbe, junto ao rio Caculuvar afluente ocidental do Cunene (reforçados pelos cuamatos e pelos cuanhamas): a primeira entre 1885 e 1886, a segunda em 1891 e a terceira entre 1897 e 1898.

 

No Cunene os cuamatos e os cuanhamas percebiam que a tentativa de expansão do colonialismo português para leste do rio Cunene iria pôr em causa o seu modo de vida de criadores seminómadas de gado e o domínio sobre a água interior…

Os portugueses além do mais, não haviam definido as fronteiras com o Sudoeste Africano ocupado primeiro pelos prussianos (https://www.revistamilitar.pt/artigo/921), depois pelos ingleses provenientes do Cabo (África do Sul).

No planalto a Huila, um paraíso para a migração dos boeres, estes tornaram-se aliados incondicionais importantes, por que eram dos poucos a saberem movimentar-se nos ambientes do sul de Angola e Sudoeste Africano (http://tudosobreangola.blogspot.com/2018/12/a-colonizacao-das-terras-altas-da-huila.html).

Na primeira tentativa de vencer os humbes, a conclusão de René Pélissier não deixa margem para dúvidas: “a chaga fechou-se de novo, mas em falso e tudo leva a crer que certos oficiais ou certas ajutoridades tentaram escamotear esta guerra que nem foi gloriosa, nem rendosa, nem sequer marcial. Fixaremos que os portugueses não só não puderam atravessar o Cunene contra os cuamatos, mas ainda que os humbes se revelaram uns difíceis vassalos. A missão foi encerrada. O sul de Angola entrava na história como o quebra-cabeças da administração portuguesa” (História das campanhas de Angola – IIº volume, página 159 – https://www.amazon.com/Hist%C3%B3ria-Campanhas-Angola-1845-1941-Portuguese/dp/9723326965).

As resistências que se sucederam foram as dos Gambos, as do Humbe, as do Cuamato e por fim as do Cuanhama/Ovambo em 1915 cujo colapso ocorreu em Môngua (Omongwa), entre 12 e 24 de Agosto.

A heroicidade do rei dos cuanhamas, Mandume ya Ndemufayo (https://mandumekwanhama.wordpress.com/historia-de-mandume-o-rei-dos-kwanhamas/http://cdn1.portalangop.co.ao/angola/pt_pt/noticias/educacao/2017/1/6/Huila-Rei-Mandume-considerado-simbolo-resistencia-colonial,5d2b2407-d410-4210-8f26-805a6dfce9f1.html), representou um climax de resistência à penetração colonial portuguesa e inglesa (esta proveniente do Cabo, África do Sul, sucedendo ao poder prussiano derrotado)… o seu colapso influenciou desde então no atraso das medidas que deveriam ter sido tomadas evitando a expansão dos desertos do Namibe e do Kalahári, território da Província do Cunene adentro.

A própria batalha de Môngua (https://www.revistamilitar.pt/artigo/1243) foi uma disputa de espaço vital que integrou o controlo das chimpacas (cacimbas) de toda a região onde ocorreu o embate e os cuanhamas não foram só militarmente derrotados, como sua cultura foi severamente atingida e desestruturada, apesar do heroísmo das hostes do Rei Mandume ya Ndemufayo, acossadas em Angola e no norte do Sudoeste Africano.

No Sudoeste Africano (https://wacka.fandom.com/pt-br/wiki/Partilha_da_%C3%81frica) o poder prussiano foi também pelo menos uma vez derrotado na batalha de Namutoni a 28 de Janeiro de 1904, pelos ondongas, próximos dos cuanhamas; nessa altura o forte de Namutoni, situado a leste junto ao lago Etosha, foi destruído (https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Namutoni)!

Também aí era uma luta de resistência, pela sobrevivência cultural, pelo espaço vital e pela escassa água do interior àquela latitude, que iria inspirar as sagas que foram ocorrendo durante o século XX, mas atrasaram as respostas face aos desafios da seca que se foram acumulando até aos nossos dias, agravadas agora com os fenómenos globais do aquecimento.

É evidente que a ocupação colonial, impondo parâmetros de domínio próprios, iria trazer consequências de atraso em relação ao espaço vital e à água, inibindo qualquer processo de desenvolvimento sustentável para os povos africanos, no Cunene para o povo angolano (http://paginaglobal.blogspot.pt/2018/01/o-deserto-do-namibe-tende.html).

 

06– Os historiadores mais atentos evidenciam desde logo as questões históricas e antropológicas nas disputas pelo espaço vital e pela água interior, em especial quando o colonialismo português começou as guerras de expansão a leste do rio Cunene.

No seu IIº volume sobre a História das campanhas de Angola e referindo-se à conquista do cuanhama (página 245), René Pélissier considera assim:

“No cuanhama, Mandume reunira a hoste e batera com tal violência que Pereira de Eça, pregado ao chão, chamou em seu socorro a coluna do cuamato.

Que se passara?

Mandume como bom ovambo, preparara a sua cilada no fundo-do-saco, deixando avançar o general com os seus 2.700 homens e a sua coluna de carros ao longo da linha das chanas.

Mas estas estavam secas e foi necessário abastecer de água o pessoal com camiões que iam andando numa roda viva entre a coluna e o Cunene.

Mandume deixou estender o cordão umbilical fazendo o vazio à sua frente.

Em 1915, no sul de Angola, quem tivesse a água tinha a vida e, naquele momento, tinha nas mãos a sorte do cuanhama”…

No artigo “Os portugueses no mundo cuanhama”, da autoria de José Carlos de Oliveira, publicado na Revista Militar (https://www.revistamilitar.pt/artigo.php?art_id=601&fbclid=IwAR0JoQxDPhOV0oFEANK5mDi6Idf9qFavlgWcMBq2Fpsf72wudCoL0sy9kNU), o autor considerou a propósito de Môngua:

“Pereira D´Eça estava absolutamente consciente da situação aflitiva da falta de água, os cuanhamas ainda mais.

Quem se apoderasse das Mulolas (poços de água) sairia vencedor.

As mulheres cuanhamas ajudavam freneticamente, mesmo em fúria, os seus homens municiando-os com constantes idas e voltas aos Ehumbo e este aspecto da batalha desorientava as tropas da expedição portuguesa que, em desespero de causa, famintas e extenuadas terão ouvido a ordem de carregar do comandante: Se querem matar a sede, então avancem para as cacimbas.

Soldados e marinheiros embrenham-se pelo mato em direcção às cacimbas novas, perseguidos de perto pelo tiroteio dos inimigos que, rastejando, pelos mutiatis atingiam as tropas.

Os cuanhamas surpresos com o ataque, apesar de circunstancialmente disporem de superioridade em homens e armamento, obedeceram à ordem final de Mandume de incendiarem a Embala e partirem para o Ihole a dez quilómetros de Namakunde, na zona considerada neutra.

A 5 de Setembro a expedição de Pereira D’Eça avistava os restos da embala ainda a arder, bem como o que sobrou da missão alemã que havia educado Mandume, que usufruía das maiores honrarias e conforto, porque o destinavam a seu vassalo instalando-o no trono do cuanhamas”…

No Sudoeste Africano, com o advento da Iª Guerra Mundial, foram os sul-africanos a conquistar o território, algo que desde logo agradou ao colonialismo português, também ele envolvido.

Os cenários africanos da Iª Guerra Mundial confluíram para que o colonialismo português se viesse aliar ao “apartheid” dado o papel de conquista do Sudoeste Africano por parte da África do Sul (https://www.revistamilitar.pt/artigo/1234).

 

Eis como a Prússia perdeu o Sudoeste Africano (https://www.revistamilitar.pt/artigo/921):

“A rendição no Sudoeste Africano.

A campanha no Sudoeste Africano foi uma questão de brancos, pois nem os sul-africanos nem os alemães queriam fazer participar os negros nos combates.

Em agosto de 1914, o primeiro-ministro sul-africano Louis Botha, ex-general boer que emergira como líder político dos africâneres moderados, assegurou a Londres que a África do Sul tinha meios para se defender, permitindo que a guarnição britânica partisse para a França, e também se comprometeu-se a invadir o Sudoeste Africano Alemão.

Uma vez que, em setembro, a esquadra alemã do almirante Maximilian von Spee ainda navegava com liberdade, a Marinha Real Britânica bombardeou e destruiu as estações de rádio alemãs em Swakopmund e na baia de Luderitz.

No terreno, esta ação teve o apoio da Força de Defesa da União, liderada por Botha, porque, entre os oficiais sul-africanos, os “velhos boer” viram na iniciativa britânica uma oportunidade para reafirmar a sua independência. No entanto, as forças sul-africanas, que iniciaram as hostilidades, em 13 de setembro de 1914, com um ataque ao posto policial de Ramansdrift, na fronteira sul, ainda tiveram o contratempo de debelar a revolta «afrikander», liderada pelo general Manie Maritz, que teve o apoio de forças alemãs, entre 15 de setembro de 1914 e 4 de fevereiro de 1915.

Continuando a progressão para norte, os sul-africanos, com esmagadora superioridade, foram ganhando terreno aos alemães que apenas ofereciam resistência, como retardamento tático, pois não estavam em condições de complementar as suas unidades europeias nem mobilizar soldados africanos, dado que a população indígena tinha sido significativamente reduzida, uma década antes, com o genocídio dos «herero». Depois dos sul-africanos terem tomado WindhoeK, em 12 de maio de 1915, Erich Victor Carl August Franke, o último comandante da «kaiserliche schutztruppe», rendeu-se perto de Knorab, a 9 de julho seguinte48, tendo os prisioneiros alemães sido transportados para campos de concentração perto de Pretória e, depois, transferidos para Pietermaritzburg, na região oriental, a 80 km de Durban.

Até outubro de 1914, dadas as boas relações entre as guarnições dos postos de Angola e da Damaralândia, embora os alemães receassem que os portugueses os poderiam atacar por causa da aliança luso-britânica, não existiam medidas especiais de segurança na fronteira, o que facilitou o episódio de Naulila (19 de outubro), o massacre em Cuangar (31 de outubro) e o ataque alemão a Naulila (18 de dezembro).

A 19 de dezembro, perante a ameaça vinda do território alemão, as forças portuguesas abandonaram o Humbe, depois do paiol do Forte Roçadas ter explodido, e retiraram para norte, para Gambos, com intenção de defender Lubango. Motivados pelos combates entre forças europeias, as populações africanas da Huila, tinham-se revoltado, chefiadas pelo soba Mandume, do povo cuanhama.

A chegada a Angola das expedições militares portuguesas, no final de 1915 e em março seguinte, tinha por missão fazer frente ao ataque alemão vindo do sul da colónia.

Em face dos desenvolvimentos na Damaralândia, a missão das forças portuguesas foi reformulada, pelas necessidades de acabar com a revolta das populações da Huíla e reocupar o Forte do Cuamato.

Foi neste contexto que se deu o Combate da Mongua (18, 19 e 20 de agosto de 1915) e a consequente ocupação da embala de Mandume, em 4 de setembro”…

A partir das campanhas além Cunene o colonialismo português valorizou a água interior como nunca, apesar de ocultarem os conceitos lógicos sobre o fulcro da região central das grandes nascentes no que diz respeito ao seu valor geoestratégico, começando aliás por votar ao ostracismo a leitura de Silva Porto, instalado na sua embala no que é hoje a cidade do Cuito, capital do Bié.

As lutas que se iriam seguir ao longo de todo o século XX (http://paginaglobal.blogspot.pt/2018/05/os-punhais-sangrentos-de-trotta-e.html) confirmariam essa regra e o atraso provocado pela conquista expansionista do colonialismo português, começou por impôr ausência de geoestratégia em função da rosa-dos-rios angolana por que manteve a visão da colonização, conforme um povo de marinheiros que deu à costa a partir do mar onde semeou os padrões de sinalização.

Essa mentalidade foi a que foi absorvida até hoje pelas próprias elites angolanas, mais agora no momento da formatação mental dessas elites nos processos do corrente capitalismo neoliberal que impacta sobre Angola!

Lembra-se o exemplo de Mandume (http://info-angola.ao/index.php?option=com_content&view=article&id=2650:popula-do-cunene-recorda-rei-mandume&catid=687&Itemid=1727), que aliás serviu de inspiração na luta contra o “apartheid” entre 1975 e 1991, mas sua resistência interior não foi devidamente digerida sob os pontos de vista antropológico e histórico e a prova está no pouco relevo que os angolanos têm dado ao papel decisivo sob o ponto de vista de lógica com sentido de vida, à região central das grandes nascentes até ao momento, contrariando as minhas abordagens nesse sentido de há cerca de 10 anos a esta parte, em particular a necessidade da luta contra o subdesenvolvimento seguindo a perspectiva duma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável (https://paginaglobal.blogspot.com/2018/08/luanda-em-desastre-ambiental.html)!

Martinho Júnior | Luanda, 17 de Maio de 2019

Ilustrações:

01- Foto atribuída ao Rei Mandume ya Ndemufayo e suas tropas;

02- O túmulo do Rei Mandume ya Ndemufayo no Cunene;

03- Mapa étnico do sudoeste e sul de Angola, segundo o colonialismo português;

04- Foto de guerreiros cuanhamas;

05- Uma embala cuanhama vista do ar.

VER VÍDEO – Alberto Oliveira Pinto – Angola na Grande Guerra

Angola recuperou 3.630 MEuro após aprovação da lei de repatriamento de capitais

Posted: 21 May 2019 10:03 AM PDT

Luanda, 21 mai 2019 (Lusa) – Seis meses depois de a Assembleia Nacional angolana ter aprovado a Lei sobre Repatriamento Coercivo de Capitais, os cofres do Tesouro de Angola receberam cerca de 4.000 milhões de dólares (3.630 milhões de euros).

O processo começou em 26 de junho de 2018, com os deputados a aprovarem, sem votos contra, a Lei sobre Repatriamento de Capitais, que dava um prazo de seis meses, até 26 de dezembro do mesmo ano, para fazerem regressar sem penalizações as verbas investidas ilegalmente fora de Angola, processo que, soube-se em abril passado, não trouxe qualquer dinheiro de regresso ao país.

Após o prazo de seis meses, o parlamento aprovou, em 21 de novembro de 2018, a lei sobre o repatriamento coercivo de capitais, que acabou por estender-se à perda alargada de bens, processo que começou a contar a partir de 26 de dezembro.

 

Com as novas leis, o Governo explicou tratar-se de uma legislação mais alargada, tendo criado “instrumentos procedimentais”, recorrendo também à lei da prevenção e combate ao terrorismo, além de outros mecanismos.

A lei tem por objetivo dotar o ordenamento jurídico angolano de normas e mecanismos legais que permitam a materialização do repatriamento coercivo, com maior ênfase à perda alargada de bens a favor do Estado.

No caso dos “bens incongruentes” domiciliados no país, a proposta, segundo argumentou Francisco Queiroz, ministro da Justiça angolano, em outubro do ano passado, prevê que possam ser confiscados, podendo os órgãos de justiça “perseguir os que detêm estes bens”, em defesa dos interesses dos cidadãos.

Em abril deste ano, a diretora nacional dos Serviços de Recuperação de Ativos da Procuradoria-Geral da República (PGR) angolana, Eduarda Rodrigues, admitiu que Angola não conseguiu recuperar qualquer verba de forma voluntária, mas, coercivamente, conseguiu recuperar perto de 4.000 milhões de dólares (3.630 milhões de euros) em dinheiro e bens.

A diretora dos Serviços de Recuperação de Ativos da PGR angolana pormenorizou que, desde a entrada do período coercivo, o Estado angolano recuperou 2,3 mil milhões de dólares (2.090 milhões de euros) e cerca de mil milhões de dólares (909 milhões de euros) em património do Fundo Soberano de Angola, num processo ligado a José Filomeno dos Santos (filho do ex-Presidente angolano José Eduardo dos Santos).

Dentro do país, prosseguiu, conseguiu-se resgatar 2.400 milhões de kwanzas (6,5 milhões de euros), 19,3 milhões de dólares (18,9 milhões de euros) e uma pequena quantia de 143 euros.

Do estrangeiro, o Estado angolano conseguiu recuperar 3,5 milhões de euros, 477.200 dólares (415 mil euros) e 10,2 milhões de reais (2,3 milhões de euros).

Angola recuperou ainda em ativos 20 imóveis no país, quatro outros no estrangeiro, além de cinco viaturas e uma embarcação.

Segundo Eduarda Rodrigues, estão em curso trabalhos sobre processos de empresas privadas criadas com fundos públicos, prevendo-se, para breve “mais novidades muito boas para avançar à sociedade”, lembrando também que há cidadãos que estão a aparecer voluntariamente nos serviços de recuperação de ativos para “entregarem o seu património, que foi adquirido de forma incongruente”.

“Temos muita informação a chegar e acho que é prematuro levantar mais dados agora. O serviço é novo, foi criado em dezembro, fui nomeada em janeiro, trabalhei sozinha durante dois meses e só agora é que os meus colegas começaram a trabalhar. Temos muito que trabalhar, mas estou muito expectante e acho que vamos recuperar mesmo muitos ativos para o Estado”, salientou ainda na mesma ocasião.

Em 2017, a PGR angolana introduziu em juízo 12 processos referentes a crimes contra a corrupção, branqueamento de capitais e abuso de confiança, mas em 2018, o número subiu para 637, havendo já este ano, até março, cerca de 100 processos apenas na Direção Nacional de Prevenção e Combate à Corrupção.

Lusa | Diário de Notícias

UE adverte contra provocações no Médio Oriente após Trump prometer “fim do Irão”

Posted: 21 May 2019 09:31 AM PDT

A União Europeia advertiu contra qualquer nova escalada na região do Médio Oriente, à luz das crescentes tensões entre os Estados Unidos e o Irão, disse na segunda-feira a porta-voz da Comissão de Relações Exteriores e Segurança da UE, Maja Kocijancic.

“Não vou comentar especificamente nenhum tweet específico, mas na situação mais ampla, eu diria que a região não precisa de mais elementos de desestabilização. Isso é algo que temos dito constantemente, que quaisquer provocações devem ser evitadas e todos os esforços devem ser feitos para aliviar as tensões”, disse Kocijancic numa conferência de imprensa.

A declaração vem depois do tweet do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump dizer que “se o Irão quiser lutar, isso será o fim oficial” do país.

As ameaças de Trump aumentaram depois que os Estados Unidos intensificaram sua presença militar no Oriente Médio no início deste mês, no que o assessor de segurança nacional dos EUA, John Bolton, chamou de “uma mensagem clara e inequívoca ao regime iraniano”.

A instalação inclui um grupo de ataque, mísseis Patriot, bombardeiros B-52 e caças F-15, segundo o Pentágono.

O presidente dos EUA afirmou anteriormente que esperava evitar uma guerra com o Irão, enquanto o líder supremo iraniano, Aiatolá Ali Khamenei, por sua vez, disse que o Irão não pretendia travar uma guerra com os Estados Unidos, mas continuaria a resistir a Washington.

Sputnik | Foto: © AP Photo / Marinha dos EUA

“Ninguém poderá conter a ascensão da China”, afirma especialista

Posted: 21 May 2019 09:10 AM PDT

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que a China não será uma superpotência “com ele” no poder. Conseguirá o líder americano conter o desenvolvimento do gigante asiático e o que acontecerá quando ele deixar de ser presidente dos EUA? Nessa conexão, o especialista chinês acredita que ninguém é capaz de cumprir essa tarefa.

Trump disse em entrevista à Fox News que estava ”muito contente” com a briga comercial entre Washington e Pequim e que, embora a China queira ser a maior superpotência mundial, isso “não irá acontecer comigo“.

O mandatário assinou um decreto que introduz o estado de emergência para proteger a infraestrutura de informação e comunicação dos EUA contra ameaças estrangeiras. Por sua vez, o Departamento de Comércio dos EUA colocou a Huawei na lista negra de atividades contrárias à segurança nacional do país. Os fabricantes norte-americanos que vendem quaisquer equipamentos à Huawei precisarão agora de uma licença especial das autoridades dos EUA.

Em seguida, alguns dos maiores fornecedores da Huawei, incluindo a Intel, Qualcomm, Xilinx e Broadcom, anunciaram que estão parando o fornecimento de software e componentes críticos para a empresa chinesa. Ademais, a Google também disse que suspende os contatos comerciais com a Huawei.

Em entrevista à Sputnik China, o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade Chinesa de Comunicações de Massa, Yang Mian, indicou que, com todas essas ações, Trump aparentemente está tentando eliminar um forte concorrente das empresas tecnológicas americanas. No entanto, isso pode prejudicar os parceiros americanos da Huawei, que comprou no ano passado componentes americanos no valor de US$ 11 bilhões (R$ 45,8 bilhões).

Assim, Trump pode falhar o cumprimento das promessas da campanha eleitoral, ou seja, de “tornar a América grande novamente”. Afinal, uma guerra comercial pode se converter em um choque económico para todos os participantes do mercado.

“Trump desencadeou a chamada guerra comercial para alcançar o balanço comercial”, afirmou o especialista.

“Nós já dissemos várias vezes que não poderia haver vencedores em uma guerra comercial. E se em resultado da guerra comercial a economia norte-americana for afetada por choques sérios, o confronto entre a China e os EUA na área comercial terminará”, destacou.

Ao comentar as recentes declarações de Donald Trump à Fox News, em que ele afirmou que a China não será uma superpotência “com ele” no poder, o professor afirmou que Trump só pode dirigir o país durante 8 anos.

“Mas ninguém poderá conter a ascenso da China. Quaisquer que sejam os truques dos EUA, quaisquer que sejam as medidas que tomem, eles não conseguirão conter o ascensão da China e o florescimento da nação chinesa, embora seja possível criar alguns obstáculos ao progresso. No entanto, a tarefa de conter a o desenvolvimento da China é irrealizável.”

As capacidades de Trump estão limitadas, não só em conter o desenvolvimento da China em geral, mas também em relação a uma empresa chinesa em particular. Além do fato de o mercado americano estar sofrendo perdas — visto que as ações de quase todos os fornecedores da Huawei ficaram mais baratas, mas os cidadãos comuns também sofrem com o impacto. Por exemplo, em estados pouco povoados dos EUA toda a infraestrutura de telecomunicações usa equipamentos dessa empresa chinesa. Assim, caso as entregas de componentes diminuam drasticamente, a empresa não conseguirá prestar assistência a essas redes e os residentes desses estados ficarão sem comunicação.

Para evitar tal impacto, o Departamento de Comércio dos EUA está pronto para conceder uma licença de 90 dias às empresas que já usam componentes da Huawei. De acordo com as autoridades americanas, essa medida deve ajudar as empresas de telecomunicação americanas a mudar gradualmente para equipamentos de outros fabricantes.

No entanto, na opinião do professor chinês, tais medidas não ameaçam o trabalho estável da Huawei. A empresa tem vários armazéns com todo o necessário em território americano e é capaz de fornecer seus serviços durante mais um ano.

A única coisa que pode ser afetada pelas medidas dos EUA são as vendas da empresa no mercado internacional. É verdade que será difícil para os usuários estrangeiros parar de usar os serviços da Google e mudar para os análogos chineses. Mas, por outro lado, a Huawei pode beneficiar disso. Se seus desenvolvimentos tecnológicos se tornarem melhores que os outros, eles podem ganhar posições no mercado mundial. Mas, mesmo se isso não acontecer, as capacidades do mercado interno chinês farão com que a empresa sobreviva.

Sputnik | Foto: © AFP 2019 / STR

As relações comerciais com os EUA

Posted: 21 May 2019 01:52 AM PDT

Prabhat Patnaik [*]

A Grã-Bretanha, quando era o principal país capitalista do mundo, tinha um défice em conta corrente em relação aos países emergentes, como a Europa Continental e os Estados Unidos, no final do século XIX e início do século XX. Na verdade, é da natureza do país líder ter esse défice, uma vez que proporciona a esfera de acção para que outros cresçam dentro do arranjo de moeda internacional presidido pelo país líder.

Os EUA também têm um défice em conta corrente vis-à-vis os países emergentes de hoje. A diferença entre os dois está no facto de que a Grã-Bretanha não apenas cumpria seu défice corrente, mas chegava a fazer exportações de capital para os mesmos países com os quais tinha um défice em conta corrente – e compensava-o pelo excedente da conta corrente engendrado em relação às suas colónias, para as quais fazia exportações “desindustrializantes”, e de cujo excedente de exportação adicionalmente se apropriava de modo gratuito para liquidar seus pagamentos. Em suma, a Grã-Bretanha não teve de enfrentar qualquer problema de balança de pagamentos, apesar de ter défices substanciais em conta corrente e na conta de capital em relação aos novos países emergentes daquele tempo.

Os EUA não têm essa possibilidade em aberto. Embora ainda existam excedentes apropriados das antigas “colónias” por causa dos direitos de propriedade intelectual e outras destas extorsões, estas nada são quando comparadas ao que é necessário para equilibrar os pagamentos dos EUA. A descolonização política tornou impossível aos poderes metropolitanos imporem às suas antigas “colónias” um sistema de transferências gratuitas. Os EUA, portanto, expandiram sua dívida externa por um longo tempo a fim de cumprirem suas obrigações de balança de pagamentos, criando pela primeira vez na história do capitalismo uma situação em que a mais poderosa potência capitalista do mundo também é a mais endividada externamente. Mas agora ela deseja controlar seu endividamento externo.

Além disso, ela não pode sequer manter seu nível de actividade interno fazendo exportações “desindustrializantes”. Tais exportações podiam ser feitas anteriormente porque a Grã-Bretanha, a potência colonial mais forte, tinha estes mercados coloniais “disponíveis”; ela podia acessá-los à vontade. Mas os EUA não têm mercados coloniais “disponíveis”.

Confrontado com um declínio na actividade interna e um aumento do endividamento externo, os EUA embarcaram numa nova estratégia, de serem proteccionistas e, ainda assim, de “persuadir” os países emergentes a aceitarem voluntariamente seu proteccionismo unilateral. Tentaram convencer a China a aceitar o seu proteccionismo unilateral. Deste modo, espera fazer com que outros países suportem o fardo do ajuste, enquanto aumenta o nível de actividade interna e ao mesmo tempo fecha seu défice na balança de pagamentos. Mas não teve êxito em relação à China, uma vez que o governo chinês acaba de aplicar tarifas mais altas a todo um conjunto de exportações dos EUA.

E agora [o governo dos EUA] está a tentar persuadir a Índia a aceitar seu proteccionismo sem retaliar e se possível reduzir suas próprias tarifas, de modo a que as exportações americanas possam ter mais facilidade para entrar no mercado indiano e deslocar as exportações asiáticas em direcção às quais a Índia se deslocava cada vez mais ao longo da última década ou pouco mais. Em breve uma equipe americana chegará à Índia a fim de tentar convencer o país a aceitar voluntariamente o proteccionismo dos EUA e reduzir a magnitude do défice americano nas relações bilaterais.

Os dois problemas básicos que os EUA têm em relação à Índia são: primeiro, o substancial saldo de mercadorias a favor da Índia e, segundo, o regime de direitos de propriedade intelectual da Índia que, apesar de ser compatível com TRIPS, não beneficia os Estados Unidos.

A balança de mercadorias a favor da Índia chegou a US$27,3 mil milhões em 2017; supõe-se ter baixado um pouco, em US$4 mil milhões em 2018, devido ao aumento da procura indiana por uma série de produtos americanos, em particular aviões civis e energia. Mas permanece, no entanto, um número considerável. Um fechamento do hiato escancarado na balança de pagamentos é o que os EUA gostariam.

Cerca de uma década atrás a participação dos EUA nas importações da Índia era de 8,5%; agora caiu para 5,7%. Ao longo do mesmo período, a participação da China aumentou de menos de 11% para mais de 16%. A Índia, em suma, tem-se movido de fontes americanas para fontes asiáticas nas suas importações e os EUA gostariam de alterar isso.

Durante a última década os EUA forçaram a Índia a mudar sua atitude em relação a commodities como as maçãs e amêndoas que importou. Da mesma forma, está a remover um certo número de ítens das exportações indianas do Sistema de Preferências Generalizadas. Além disso, também é provável que haja uma mudança nas importações indianas de petróleo provenientes do Irão para, pelo menos em parte, para os EUA, devido à pressão americana para boicotar o petróleo iraniano. O governo de Modi, ao contrário da China, está completamente alinhado com a exigência americana de não comprar ao Irão, apesar de o petróleo iraniano ser mais barato e de os EUA deixarem claro que não venderiam à Índia a um preço mais barato. Em matéria de petróleo, portanto, a Índia simplesmente abandonou sua posição de não ser obrigada a comprar a um preço mais alto. Todas essas áreas, no entanto, embora de alguma importância na perspectiva indiana, ainda não representam muito do ponto de vista dos EUA.

A outra área em que os EUA pressionarão a Índia é em relação à agricultura, na qual os EUA argumentam há muito que a Índia tem dado subsídios ao arroz e ao trigo superiores ao permitido pela OMC. Apesar de os próprios EUA terem aumentado seus subsídios de US$61 mil milhões quando a OMC foi formada, em 1995, para US$135 mil milhões em 2016, isso é supostamente aceitável, ao passo que os subsídios da Índia, que são dados a uma grande massa de pobres camponeses indigentes, não o são, porque “distorcem preços”. Como nos EUA há muito poucos produtores no sector agrícola, eles podem receber subsídios directamente sem causar quaisquer “distorções de preço”, muito embora esses “subsídios” sejam utilizados para capturar o mercado global. Mas na Índia, onde há milhões de camponeses, subsídios directos não podem ser dados na forma de apoio ao rendimento; os subsídios têm de ser concedidos sob a forma de apoio aos preços e é precisamente isto que tem sido contestado pelos EUA.

A lei de patentes aprovada na Índia em conformidade com os direitos de propriedade intelectual (TRIPS) foi um golpe para o sector de medicamentos genéricos. Antes disso, a Lei de Patentes indiana fora uma peça legislativa modelar que em certa medida rompeu o monopólio em tecnologia dos países avançados. Mas isso teve de ser abandonado para torná-la compatível com o TRIPS, aumentando a duração das patentes e estendendo as patentes de processo para patentes de produto. Mesmo isso, no entanto, não foi suficiente para os EUA, os quais desde então têm pressionado sistematicamente a Índia para que desencoraje empresas de genéricos. Esta pressão continuará a ser exercida pelos visitantes da delegação comercial americana.

O que a posição americana demonstra é que o argumento do livre comércio está dependente da existência de colonialismo. Quando o colonialismo reinou supremo, pode-se ser hipócrita sobre o livre comércio, uma vez que as colónias poderiam absorver as mercadorias não vendidas. O livre comércio parecia uma coisa boa, pois nenhum país avançado piorou com isso. Não que alguma vez tenha havido um comércio completamente livre; mas o país líder poderia praticar o livre comércio sem ser incomodado por isso. E as próprias colónias para as quais o excedente era exportado não contavam. Mas quando não há colonialismo, mesmo este argumento entra em colapso. E é isto que o mundo tem estado a enfrentar nos últimos anos.

A aceitação voluntária do proteccionismo dos EUA por países como a China e a Índia equivaleria a aceitar o fardo de impulsionar a procura agregada na economia mundial. Mas, como eles não podem sequer usar seus respectivos Estados para essa finalidade, como os défices orçamentais não serão permitidos além de um ponto, eles podem usar apenas a política monetária; mas a política monetária será inadequada para promover a procura agregada numa situação de deficiência geral da procura. Em consequência, a deficiência da procura agregada continuará e, portanto, a luta pela captura do maior mercado possível. O esforço americano para tornar seu proteccionismo aceitável para os outros simplesmente não terá êxito.

20/Maio/2019

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2019/0519_pd/indo-us-trade-relations

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

SUBTILEZA CHINESA

Posted: 21 May 2019 01:30 AM PDT

No momento em que os EUA iniciam uma guerra comercial contra a China, Xi Ji Ping decidiu visitar uma empresa chinesa especializada em terras e metais raros.

Para que o recado fosse mais explícito, fez-se acompanhar pelo representante da China nas conversações comerciais com os EUA. Não precisaram de dizer nada.

Resisitir.info

Portugal | Emergência Climática

Posted: 21 May 2019 12:38 AM PDT

Ana Alexandra Gonçalves* | opinião

Governo português considera não ser necessária a declaração de emergência climática, tal como solicitado pelo Bloco de Esquerda, até porque já fizemos mais do que os outros. Voltando a apontar o dedo aos outros, João Pedro Matos Fernandes, ministro do Ambiente, referiu que os países que já declararam o estado de emergência “não fizeram nada a partir daí”, tratando-se de “um passo simbólico”.

Recorde-se que milhões de estudantes fizeram greve às aulas e membros de grupos de activistas como os pertencentes ao “Extinction Rebellion” chamaram a atenção, bloqueando estradas, pontes e por aí fora. Subsequentemente, Reino Unido e Irlanda declararam o Estado de Emergência Climática.

 

A atitude do Governo português não destoa daquela de outros países que julgam que já fizeram o suficiente apenas porque alegadamente fizeram mais do que os outros, como se planeta pudesse ele próprio ser dividido e nós, por termos alegadamente feito mais do que os outros, estivéssemos a salvo. Como se agora pudéssemos descansar.

É verdade que o Estado de Emergência Climática é simbólico, mas chama a atenção para o maior problema com que a humanidade se depara, aquele que nos levará à extinção. É também verdade que o referido Estado de Emergência não pode deixar de ser acompanhado por acções concretas. Porém, cantar vitória por se considerar que já se fez muito é simplesmente absurdo. Nesta questão, muito continua a ser insuficiente. E são os mais jovens a perceber a verdadeira emergência e a lutar para que o pior não se torne o novo normal, para que a irreversibilidade não determine a realidade.

*Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão

Portugal | Ser ou não ser o diabo, eis a questão!

Posted: 20 May 2019 11:53 PM PDT

Alfredo Barroso | jornal i | opinião

É óbvio que nenhum dos dois eurodeputados veteranos aceitará ser a encarnação do diabo. Para eles, o diabo autêntico só pode ser encarnado pelas malvadas “esquerdas encostadas”. E daí a grande contradição que atormenta a direita portuguesa.

Quando ligo a televisão e me aparecem os eurodeputados mais ou menos vitalícios, Paulo Rangel e Nuno Melo, furibundos e de dedo em riste, a amaldiçoar e a malhar nas “esquerdas encostadas”, a insultar o cabeça-de-lista do PS, Pedro Marques, e a acusar o primeiro-ministro, António Costa, de todas as desgraças que a imaginação deles consente, é irresistível lembrar–me da cena em que Macbeth reflecte sobre o sentido da existência, ao saber da morte de sua mulher, e a certo passo diz: “ Que a vida/ é uma sombra ambulante; um pobre actor/ que gesticula em cena uma hora ou duas/ e depois não se ouve mais; é um conto/ narrado por um louco, cheio de som e fúria,/ e que não significa nada”. Parafraseando Shakespeare, eu diria que a política, tal como aqueles dois políticos furiosos a concebem, “(…) is a tale/ told by an idiot, full of sound and fury,/ signifying nothing”. Ou seja: não passa, cada um deles, de “um pobre actor/ que gesticula em cena uma hora ou duas/ e depois não se ouve mais”. Sentido figurado: eles continuam a falar, mas já ninguém os ouve.

 

Quer um quer outro destes eurodeputados tão antigos – Paulo Rangel pelo PPD–PSD e Nuno Melo pelo CDS-PP – são candidatos a completar uma quinzena de anos com os rabos sentados em lugares cativos do Parlamento Europeu. E a inquisitorial fúria que os move faz-me pensar que estão ambos mais ou menos a meio caminho entre Torquemada (1420-1498) e Savonarola (1452-1498) em versões pós-modernas. Cada um deles é assim uma espécie de bolchevique neoliberal e neoconservador, decidido a erradicar da cena política caseira os terríveis pecados que cometem as “esquerdas encostadas”, dos quais eles e Assunção Cristas tanto se queixam, e com toda a razão, dado que a direita ainda não logrou retirar essas esquerdas da mó de cima, isto é, da maioria parlamentar que sustenta o Governo minoritário do PS. E é certamente por isso que Paulo Rangel, em coro com Nuno Melo, surge todos os dias nas televisões, iracundo e de dedinho salazarento sempre espetado, a insultar e a vergastar sem dó nem piedade o cabeça-de-lista do PS, Pedro Marques, neófito nestas andanças por ser a primeira vez que se candidata ao Parlamento Europeu – o que, para Rangel, deve ser um desplante de todo inadmissível face a um eurodeputado tão antigo.

Tanto Paulo Rangel como Nuno Melo não devem ter grandes ambições nem vontade de abandonar as suas “zonas de conforto”, que dão por garantidas em Bruxelas, nem mesmo quando por essa Europa fora repercute – como diria Camilo – “o eco atroador de um terramoto moral que convulsiona Lisboa”. É certo que Rangel já se aventurou a disputar, em pura perda, a liderança do PPD-PSD, mas certamente já terá recalcado o infeliz episódio no gavetão do esquecimento. Quanto a Nuno Melo, não sendo tão histrião como Rangel – será mais Bracara Augusta, mais sacristão -, nem por isso é menos impiedoso no ódio que alimenta e demonstra por tudo quanto lhe cheire a “esquerdas encostadas”, além de não revelar grande vontade de disputar a liderança do CDS–PP à sua tão encantadora chefe, Assunção Cristas, que não se cansa de lhe passar a mão p’lo pêlo, não vá o diabo tecê–las e ele lhe sair ao caminho.

É isso mesmo, o diabo! Se Paulo Rangel e Nuno Melo se atrevessem a ler Nietzsche, concretamente Assim Falava Zaratustra, deparariam com uma cena – “A criança com o espelho” – que poderia impeli-los a tomarem o lugar de Zaratustra. Vou citar para que se perceba: “‘Ó Zaratustra – disse-me a criança -, vê-te a este espelho!’ Quando, porém, olhei para o espelho, soltei um grito e deu-me um baque o coração, porque não era a mim que via, mas a cara contorcida e o ricto de um diabo”.

Em todo o caso, é óbvio que nenhum dos dois eurodeputados veteranos aceitará ser a encarnação do diabo. Porque, para eles, o diabo autêntico só pode ser encarnado pelas malvadas “esquerdas encostadas”. E daí a grande contradição que atormenta a direita portuguesa: para quê ameaçar as esquerdas com o diabo, como o fez Passos Coelho, se ao mesmo tempo se diz que as esquerdas é que são o diabo?! Ser ou não ser o diabo, eis a questão! Coisas do demo são sempre muito complicadas!

Para Paulo Rangel e Nuno Melo – tal como para Savonarola, há pouco mais de 500 anos, em Florença -, é preciso acabar com o permanente carnaval financeiro em que vivem as “esquerdas encostadas”, praticando um desperdício intolerável. Claro que isto não é verdade, mas dá-lhes muito jeito. Porque só assim eles poderão erguer-se contra o caos, a anarquia, a confusão, o mal-estar e a miséria que lubrificam as suas imaginações delirantes. Só assim eles podem armar-se em detentores da verdade, só assim poderão causticar e castigar, rindo dos maus costumes, as esquerdas infames que se atrevem a pôr em causa esta nação e os seus princípios, a família e os bons costumes, a raça e as suas virtudes. Cada um deles é um “Amigo da Verdade”! Como aquele a quem Frei Justino de Padornelos respondeu, no Eusébio Macário, numa das muitas fatias de prosa memoráveis que podemos ler nos romances facetos de Camilo, que escreveu assim acerca do frade:

“Ele tinha as calosidades judiciosas dos estadistas experimentados, a linha recta dos galopins veteranos; arquivava as gazetas que o insultavam numa estante da latrina, e dizia que as correspondências da oposição, naquele sítio, conseguiam o seu fim de utilidade pública. De resto, uma só vez escrevera num jornal, em resposta a um político, estes seráficos dizeres: ‘Apareça o ‘Amigo da Verdade’ e traga três focinhos, se quiser levar um direito para esfoçar no lamaçal da calúnia. Eu não costumo aparar a pena; mando estonar o fueiro de carvalho-cerquinho, e prefiro desancar-lhe o palaio a ensinar-lhe a gramática, senhor ‘Amigo da Verdade’, senhor pedaço de besta’. Saiu isto assim num periódico de Braga; parecia-se com um trecho das Epístolas de S. Cipriano devotado ao martírio”…

Não tenho ilusões. Estou convicto de que, durante esta última semana de campanha eleitoral para o Parlamento Europeu (e o que será quando se tratar das eleições para o Parlamento nacional?!), os dois eurodeputados mais ou menos vitalícios da direita vão continuar a despejar cargas de trotil – em sentido figurado, claro! – sobre Pedro Marques, cabeça-de-lista do PS, e sobre António Costa, primeiro-ministro. Não tanto sobre as outras esquerdas, porque esperam que essas também ajudem à festa. Mas a realidade estará sempre muito distante da ficção, dos discursos de campanha e da propaganda eleitoral. Bem longe destes dois “Amigos da Verdade”…

*Escreve sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990

Portugal | PJ faz buscas no Hospital de Cascais por falseamento de resultados

Posted: 20 May 2019 11:30 PM PDT

A PJ esteve na sede no Grupo Lusíadas Saúde a fazer buscas, como dá conta a SIC Notícias. Em causa estão denúncias de falseamento de resultados clínicos, alegadamente para aumentar o financiamento da parceria público-privada.

A Polícia Judiciária esteve esta segunda-feira na sede do Grupo Lusíadas Saúde a fazer buscas. Em ‘cima da mesa’ estão denúncias de falseamento de resultados clínicos, alegadamente para aumentar o financiamento da parceria público-privada, como dá conta a SIC Notícias.

Recorde-se que o Ministério Público (MP) determinou a abertura de um inquérito que corre termos no Departamento de Investigação e Ação Penal de Sintra.

Esta ação do MP surge na sequência de uma reportagem emitida pela SIC em que atuais e antigos funcionários denunciam casos de falseamento de dados em ficheiros de doentes e alterações no sistema da triagem na urgência para aumentar as receitas que são pagas à parceria público-privada.

 

Na terça-feira também o Ministério da Saúde tinha determinado à Administração Regional de Saúde a abertura de um processo de inspeção para esclarecer as denúncias envolvendo o Hospital de Cascais.

“Face às denúncias relatadas na reportagem da SIC, o secretário de Estado Adjunto da Saúde, Francisco Ramos, determinou à Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo a abertura de um processo de inspeção de forma ao cabal esclarecimento destas matérias”, segundo uma resposta do Ministério enviada à agência Lusa.

Relatos de antigos e atuais funcionários recolhidos no âmbito da reportagem denunciam que eram impelidos a aligeirar sintomas ou o caso do doente, de forma a que os algoritmos da triagem de Manchester dessem uma cor de pulseira verde em vez de amarela, por exemplo, para que os tempos máximos de espera não fossem ultrapassados.

O incumprimento dos tempos de espera faz o hospital incorrer em penalizações financeiras.

A SIC, que também ouviu doentes tratados na instituição, dava ainda conta de suspeitas de acrescento de informação clínica nas fichas dos doentes alegadamente para aumentar a severidade e as comorbilidades dos utentes.

Isto serviria para influenciar o financiamento que o hospital recebe, que é calculado através do “case-mix”, um índice de ponderação da produção de um hospital que reflete a maior ou menor complexidade das situações.

Filipa Matias Pereira | Notícias ao Minuto

Brasil | Convocação de Bolsonaro não encontra apoio entre seus aliados

Posted: 20 May 2019 10:55 PM PDT

Ontem, segunda-feira, os movimentos neofascistas Vem Pra Rua e NasRuas avisaram que não pretendem atender ao chamado de Bolsonaro para as manifestações.

Começou a fazer água, nas últimas horas, a tentativa do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de se contrapor ao movimento social que tomou as ruas, praças e avenidas das grandes cidades, na semana passada, no primeiro grande protesto contra as medidas de bloqueio dos investimentos em Educação, quatro meses após a instalação do atual governo. Bolsonaro tenta convocar seus apoiadores a uma manifestação de apoio pessoal, dentro de alguns dias, mas a adesão tem sido mínima.

Nesta segunda-feira, os movimentos neofascistas Vem Pra Rua e NasRuas avisaram que não pretendem atender ao chamado, que tem circulado nas redes sociais e aplicativos de celulares.

“Não apoiamos políticos nem governos, apoiamos ideias e iniciativas. A Nova Previdência, a Reforma Tributária e o Pacote Anticrime são ideias que apoiamos. Mas as pautas dessas manifestações do dia 26 são confusas e dispersas”, diz Adelaide Oliveira, coordenadora nacional do Vem Pra Rua.

Tomé Abduch, porta-voz do outro grupo, acrescentou a um site de extrema direita que “o Movimento Nas Ruas não está administrando ou organizando a manifestação divulgada”.

Renúncia

Acuado com o escândalo de corrupção que atinge um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), sem o mínimo de articulação com os partidos no Congresso Nacional e tendo enfrentado as maiores manifestações até agora contra o seu governo, Bolsonaro recorre aos mais diversos expedientes na tentativa de se manter no cargo.

Na sexta-feira, o presidente divulgou um texto que faz alusão a “forças ocultas” de um “Brasil ingovernável”, remetendo à famosa carta renúncia do ex-presidente Jânio Quadros. E, no final de semana, tentou uma medida desesperada, para que seus apoiadores saiam às ruas no próximo domingo.

O risco, segundo o cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) Paulo Niccoli Ramirez, é a maioria da população se voltar contra e transformando a data em mais um protesto contra o governo.

A situação remete a Fernando Collor quando, em 1992, o então presidente, também acuado por uma forte crise econômica e escândalos de corrupção, sugeriu que a população saísse às ruas com as cores da bandeira. Em vez disso, as pessoas escolheram o preto para manifestar a generalizada insatisfação.

Lula Livre

O “tiro no pé” não é um alerta apenas do professor, que falou aos jornalistas da Rádio Brasil Atual, nesta manhã. Integrantes do próprio PSL, como a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL), e grupos de extrema-direita que trabalharam pela eleição de Bolsonaro e sempre se mostraram simpáticos ao governo, como o MBL, também criticaram a convocatória do presidente.

Outra “trapalhada” do governo, também no fim de semana, foi a hashtag #BoldonaroNossoPresidente, com o erro de grafia denotando o uso de “robôs” para fazer aparecer o termo no topo das expressões mais utilizadas no Twitter. Se não bastasse, outro filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), ao participar de um game num programa da Rede TV, pronunciou, por duas vezes, o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “dica” para uma outra participante da brincadeira associar à palavra “livre”.

A última iniciativa de Bolsonaro, que postou vídeo de um pastor congolês que o intitula como “enviado de Deus” também não ajuda, segundo Ramirez. Ele diz que o messianismo evangélico pode estimular ainda mais atritos com os militares do governo, de tradição positivista, que preza pela rígida separação entre Igreja e Estado.

‘Pessoalzinho’

Para o professor da Fespsp, com todas essas ações que apontam para uma total falta de inabilidade política, Bolsonaro perde peças a cada rodada política. O principal erro foi ter chamado os professores e estudantes de “idiotas úteis“.

— Quando um governo ataca seu povo, a tendência é que seu povo ataque também — diz o professor. Ele acrescenta que Bolsonaro, com a sua falta de habilidade política, “perde peças” a cada rodada do xadrez da política.

O presidente ainda reiterou a declaração, voltando a se referir aos manifestante, no fim de semana, como “este movimento do pessoalzinho aí que eu cortei verba”. Bolsonaro ainda foi alvo, no último domingo, de editoriais negativos dos três principais jornais conservadores do país.

Rei messiânico

Segundo Ramirez, a tendência é que Bolsonaro renuncie ou busque uma guinada mais autoritária para o seu governo. Para a primeira hipótese, que em caso de renúncia ou impeachment nos dois primeiros anos de mandato, a Constituição prevê a convocação de novas eleições.

Para efetivar o plano autoritário, no entanto, Bolsonaro precisaria ainda mais do apoio dos militares e setores da população, o que também não parece o caso. Voltando à metáfora do xadrez político, ele chama o presidente de um “rei messiânico” que está encurralado por boa parte da sociedade.

— A questão agora é aguardar o xeque-mate — avalia.

‘Surreal’

O isolamento de Bolsonaro é tamanho que até o deputado federal Marcelo Ramos (PR-AM), presidente da Comissão Especial da reforma da Previdência na Câmara, na base do governo, afirmou, nesta tarde, que o ato marcado para o próximo domingo é “surreal”, por investir contra o Congresso Nacional e contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Segundo o parlamentar, deputados do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro, atacam a tramitação da medida sem nem saber o que se passa na comissão.

— Os partidos de centro não são responsáveis pela falta de articulação do governo — concluiu.

Correio do Brasil

Imagem: Janaína publicou severas críticas a Jair Bolsonaro e não recomenda o apoio às manifestações do próximo domingo

Brasil | Perdendo a Guerra

Posted: 20 May 2019 10:36 PM PDT

Após as manifestações em defesa da educação em todo o país, o Governo parece ter se desestabilizado. O presidente faz declarações desencontradas e tresloucadas, pressentindo que seu Governo não se sustenta

Liszt Vieira | Carta Maior

O falcão não escuta o falcoeiro/ As coisas desmoronam/

O centro não sustenta/ Mera anarquia avança sobre o mundo.

(W.B. Yeats)

Abstraindo o conteúdo reacionário, regressivo, pré-moderno e até mesmo medieval das decisões do atual Governo, se raciocinarmos apenas em termos de guerra, tema tão caro ao atual presidente, vemos que ele comete erros grosseiros.

Como chegou apenas a tenente e foi reformado um posto acima, como é de praxe, não estudou estratégia e tática da guerra. Se tivesse noção disso, não abriria tantas frentes de combate ao mesmo tempo. Abriu fogo para todo lado, ganhando a cada dia novos adversários, para ele inimigos. E não consegue dar conta de tantos confrontos ao mesmo tempo.

Já começa a perder combates. Como não selecionou seus alvos prioritários, atacou quase todos os segmentos da sociedade com sua metralhadora giratória, e começa a colher derrotas. Sua preocupação parece ser dar uma satisfação a seus patrocinadores e seguidores fiéis. No caso do decreto ampliando o porte de arma para 20 categorias, envolvendo milhões de pessoas, desdenhou a informação de que o decreto é inconstitucional. É como se dissesse a seus apoiadores: eu fiz a minha parte, eles é que barraram. Diria um malicioso: E não deixem de pagar minha propina!

Ele não tem nenhum programa de governo, não é a favor de nenhuma política pública, quer apenas destruir. Está colecionando adversários importantes, indignados com a destruição e o desmonte da educação, ciência, cultura, meio ambiente, política externa etc.

Do ponto de vista econômico, não há mais dúvida de que este é um ano perdido. Ninguém investe alegando esperar a reforma da Previdência que transfere renda dos pobres para os ricos, bem no estilo dos Chicago Boys. Se a reforma que finalmente for aprovada não agradar o mercado, os empresários vão se lembrar de que o atual presidente cometeu crimes ao apoiar e premiar as milícias assassinas no Rio de Janeiro. Motivo para impeachment não falta.

Antigos críticos implacáveis do governo do PT já assumiram papel de oposição a Bolsonaro e apelaram aos militares para abandonar o Governo que tende a se enfraquecer e se desmoralizar perante seu público. Isso já ocorre com as forças armadas, cuja imagem fica seriamente comprometida com as atitudes irracionais e sociopatas do capitão pateta.

Ressalte-se que o Ministério Público Federal pediu a suspensão do decreto de armas de Bolsonaro e afirmou que o bloqueio de verbas imposto pelo Ministério da Educação é inconstitucional. Mas a ofensiva ilegal continua. Em represália, o Governo baixou o Decreto 9.794, de 14 de maio de 2019, que transfere para a Casa Civil da Presidência da República as competências para as indicações de pró-reitores ou decanos destas instituições. Ou seja, Bolsonaro tira dos reitores competência de nomear pró-reitores e outros cargos de gestão. Mais um decreto inconstitucional.

A ofensiva não para. O objetivo é colocar a sociedade, vista como “inimigo”, na defensiva. Mas a reação começa a produzir um enorme desgaste no Governo, como se viu nas manifestações em defesa da Educação no dia 15 de maio último.

O presidente, chamado de sociopata, não prima pelo equilíbrio, é o mínimo que se possa dizer. A História registra muitos casos de tiranos perturbados mentalmente. Entre muitos outros exemplos, podemos citar Frederico 1º da Prússia (1657-1713), Ivan 4º, o Terrível, da Rússia (1530-1584), George 3º, da Inglaterra (1738-1820), Carlos 6º, da França (1368-1422) etc.

Um dos melhores exemplos talvez seja o de Caio Cesar, mais conhecido pelo apelido de Calígula, imperador romano do ano de 37 D.C. até 41 D.C. Ficou famoso por sua crueldade, extravagância e perversidade sexual Foi assassinado pela guarda pretoriana, em 41, aos 28 anos.

Acossado pelas dívidas, pôs em funcionamento uma série de medidas desesperadas para restabelecer as finanças imperiais, entre as quais pedir dinheiro à plebe. Passou à história como um tirano demente. Uma das decisões mais conhecidas de Calígula foi sua ideia de colocar no Senado Romano o seu cavalo favorito, Incitatus, embora alguns historiadores pensem que esta história é mais lendária do que verídica.

Perdeu a guerra na Britânia porque pediu ao exército para, em vez de atacar as tribos britânicas, recolher conchas, o tributo que segundo ele era devido ao monte Capitolino e ao monte Palatino. Segundo Suetônio, autor do famoso livro A Vida dos Doze Césares, era simplesmente um monstro. Psicopata, narcisista, assassino, depravado. O pior dos piores.

Guardadas as devidas proporções e ressalvadas as diferenças, pode-se afirmar que temos hoje no Brasil “o pior dos piores” de todos os presidentes de nossa História, superando alguns com fama de desajustados, como por exemplo Jânio Quadros e Collor. Sem dúvida, atualmente temos o pior de todos os governos que já tivemos. Basta ver a prioridade dos ministros do Governo Bolsonaro.

A prioridade atual da Ministra dos Direitos Humanos é denunciar a personagem Elza, da série infantil Frozen, que mora num castelo de gelo e, segundo a Ministra, só pode ser lésbica.

O Ministro da Educação permanece firme na sua guerra para destruir a educação no Brasil, a mando do presidente que odeia educação e cultura. A manifestação nacional em defesa da educação mobilizou em todo o país milhões de pessoas, chamadas de “idiotas úteis” pelo presidente.

O Ministro do Meio Ambiente persevera em sua insana tarefa de desmontar o Ministério e destruir as fontes dos recursos naturais, a floresta com sua rica biodiversidade, fonte de água, oxigênio e umidade que impede a seca e desertificação do país. Sai a floresta, entra a soja transgênica, o gado, a mineração, as madeireiras, as grandes obras. Tudo para aplacar o ódio do presidente à proteção ambiental e para agradar os setores atrasados do agronegócio.

O Ministro das Relações Exteriores continua priorizando o ataque ao “marxismo cultural” que inventou o aquecimento global, enganou todos os cientistas do mundo inteiro e iludiu a ONU.

A Ministra da Agricultura prioriza autorizar a importação de mais agrotóxicos, segundo ela injustamente proibidos na Europa como cancerígenos. Merece o título de Musa do Veneno.

E last, but not least, o Ministro da Economia cuja prioridade é economizar 1 trilhão a ser extraído da população de baixa e média renda por meio da reforma da previdência, cortes nos orçamentos da educação, saúde, ciência, meio ambiente etc. O Ministro Guedes finge não saber que as empresas petrolíferas estrangeiras que vierem explorar o pré-sal deixarão de pagar 1 trilhão de impostos pela Medida Provisória 795 – a chamada M.P. do Trilhão – aprovada em novembro de 2017 por iniciativa do governo Temer, e que deu origem à Lei 13.586/2017.

Segundo consta, os outros Ministros não têm prioridades, porque nada fazem.

A situação política é estarrecedora. Para todo lado, o que se vê no governo é mediocridade, ignorância, arrogância e imposição de decretos inconstitucionais. É um governo anti-iluminista, pré-moderno, com valores medievais, que combate a razão, a ciência, o humanismo em nome do de um obscurantismo religioso fundamentalista. Afinal, como diz o título de um quadro do pintor espanhol Goya, “o sono da razão gera monstros”.

A política da destruição sem construir nada já se volta contra o Governo, que começa a perder apoios e ver reduzida sua antiga popularidade. A grande mídia já namora a opção Mourão como alternativa. E o apoio do mercado começa a fazer água com as perspectivas sombrias da economia. Breve, os empresários vão “descobrir” que Bolsonaro e família apoiam as milícias criminosas e começarão a conspirar pelo seu afastamento.

Alguns jornalistas já falam em “confusão mental”, “problemas psiquiátricos” e chegam a sugerir que o Presidente peça demissão. Outros já dizem que o impeachment de Bolsonaro “entra no radar”. Após as manifestações em defesa da educação em todo o país, o Governo parece ter se desestabilizado. O presidente faz declarações desencontradas e tresloucadas, pressentindo que seu Governo não se sustenta.

A instabilidade institucional pode levar o país, à beira do precipício, a um estado de anomia, em que, como dizia o poeta irlandês W.B.Yeats em seu poema The Second Coming, o falcão não escuta mais o falcoeiro, as coisas desmoronam, o centro não sustenta. Tudo indica que, de uma forma ou de outra, o Governo desmorona, é questão de tempo.

Argentina | O que aprender com Cristina Kirchner

Posted: 20 May 2019 10:20 PM PDT

Ao renunciar à candidatura à presidência, ela qualificou-se como estrategista da vitória sobre a direita – agora mais possível que nunca. Seu gesto diz muito, a Brasil às voltas com Bolsonaro e a uma Europa ameaçada pelo neofascismo

Antonio Martins | Outras Palavras

No futebol, um drible pode mudar a história de um campeonato. Na Argentina, tão apaixonada quanto o Brasil pelo esporte de Pelé e Maradona ou Messi, a ex-presidente Cristina Kirchner desenhou neste sábado uma jogada mágica. Ao anunciar, em vídeo [incorporado neste texto, logo abaixo], que disputará as eleições presidenciais de 27 de outubro, porém na condição de candidata a vice de Alberto Fernández [veja seu perfil e sua entrevista ao Pagina 12], ela cumpriu três objetivos cruciais, com um único movimento. Ofereceu, ao projeto antioligárquico e antineoliberal que expressa, condições muito mais favoráveis para voltar ao governo, em 2020. Além disso, em caso de vitória, terá sido a estrategista do êxito, mas não arcará com os limites e constrangimentos do exercício direto do poder. Estará muito mais livre para dialogar com a sociedade, para ajudar a mobilizá-la, para pressionar o governo à esquerda. Por fim, desfez o cerne da estratégia do atual presidente Maurício Macri. Incapaz de apresentar aos argentinos qualquer resultado favorável, ele contava esconder o desastre que suas políticas promoveram atrás de um biombo: a rejeição de parte considerável dos argentinos a Cristina. Agora, que perdeu a condição de fazê-lo, sua própria candidatura é contestada por correligionários de direita. A poucas semanas do início do processo eleitoral argentino (as “eleições primárias” de todos os partidos ocorrerão em 11 de agosto), instalou-se a confusão, no campo que reúne hipercapitalistas e ultraconservadores.

O lance de Cristina Kirchner foi feito mesma semana em que, no Brasil, Jair Bolsonaro tenta sair do isolamento apelando à única arma que talvez lhe reste: o sentimento antiestablishment; e em que forças de ultradireita ameaçam mobilizar este mesmo sentimento para avançar consistentemente nas eleições para o Parlamento europeu. Talvez seja possível tirar destes fatos, coincidentes no tempo e semelhantes no sentido, três hipóteses decisivas:

1. O descrédito das instituições é uma marca de nosso tempo e continua crescendo. Toda ação política precisa levar em conta este fenômeno. Segundo as pesquisas de opinião mais recentes, Cristina Kirchner havia ultrapassado Maurício Macri, nas preferências para as eleições argentinas – e era favorita para um eventual segundo turno. Mas o risco a correr era enorme e o que está em jogo não recomenda a aventura. A ex-presidente partia de um índice de rejeição superior 35%. Mesmo após três anos e meio de governo ruinoso, Macri – ou um “novo” outsidercom perfil semelhante ao seu – poderia vencer.

Empresário e ex-dirigente de futebol, Macri foi, em um século, o primeiro candidato a vencer as eleições sem pertencer ao Partido Radical (de direita moderada) ou ao Justicialista (“peronista”). Assim como Bolsonaro ou Trump, venceu na esteira do sentimento de revolta popular, diante da crise do sistema de representação. Esta apropriação é fruto de uma reviravolta. O ataque às instituições não é, em geral, uma bandeira da direita. E a crítica ao esvaziamento da velha democracia, com o processo de globalização, foi feita entre outros, ainda nos anos 1990, por jornais como o Le Monde Diplomatique, que falavam em “instituições globalitárias”. Ou por intelectuais como o escritor José Saramago. Numa carta ao Fórum Social Mundial de 2002, ele mencionou os “rituais vazios” da política. Comparou as eleições contemporâneas a uma espécie de “missa laica” – em que os eleitores podem escolher distintas faces e nomes, mas não projetos de futuro.

No entanto, salvo notáveis exceções, a esquerda institucional não foi capaz de dar consequência concreta a esta crítica. Uma “nova” direita, muito mais brutal, o fez, em especial a partir da grande crise pós-2008. Percebeu que havia um vácuo o ocupar. Numa sociedade em que o capital eliminava direitos, era preciso mover o centro de gravidade do debate público. Ao invés do perigoso debate sobre políticas concretas, a crítica vazia “aos políticos” (sem nunca apresentar alternativas…). Ou propostas que explorassem sensações como a de insegurança (porte de armas, por exemplo) ou de desamparo (agenda moralista).

Repare: expressões como antiestablishment aparecem com constância e com destaque, no discurso de personagens tão distintos como Steve Bannon e Jair Bolsonaro. Fazem parte de uma estratégia política ultraoportunista e mesmo cínica, porém eficaz – como demonstram tantos resultados eleitorais recentes. Enfrentar esta estratégia defendendo um sistema político esvaziado (e hostil às maiorias) é desastroso – porque dá tração ao discurso da ultradireita. Cristina Kirchner acertou porque escolheu um caminho oposto.

2. A estratégia da ultra-direita é resistível – desde que não se aceite travar o combate no campo despolitizado que ela propõe. Ao afastar-se da disputa direta pela Presidência, a ex-presidente argentina não deu apenas uma demonstração de desprendimento. Ela sacudiu o tabuleiro, marcado pela ausência de debate, de em que seu oponente pretendia travar a disputa. Uma contenda entre ambos seria extremamente polarizada e, no entanto, muito rala em politização. Conhecemos a história no Brasil. Formam-se dois campos cristalizados e crispados. A adesão a cada um não se dá, essencialmente, pelo diálogo e polêmica, mas pela rejeição liminar do outro.

Este ultra-acirramento mobiliza torcidas e alimenta egos, mas a quem interessa de fato? Aos que contestam as políticas calamitosas em vigor, e teriam tudo a ganhar se houvesse vasto debate sobre elas? Ou aos que, sabendo-se incapazes de defendê-las, buscam mudar de assunto?

Cristina calcula que, se a disputa entre personalismos for esvaziada, as eleições voltarão ao que importa. O vídeo em que anunciou sua decisão de concorrer à vice-presidência é uma provocação ao debate que Macri não desejaria. Está repleto, em fala e imagens, de menções ao empobrecimento dos argentinos, à população de rua, às favelas e lixões, ao fechamento incessante de empresas e à humilhação nacional da volta submissa ao FMI. É Cristina, ficou claro, quem articulará esta narrativa até as eleições. Mas poderá fazê-lo com muito mais desenvoltura agora, que sua figura não será o objeto principal de debate na campanha. Ao renunciar, a ex-presidente – conhecida pela paixão pela polêmica política – tornou-se, paradoxalmente, mais ela própria do que nunca.

3. Os novos combates exigem uma esquerda disposta a se reinventar. A decisão de Cristina é mais uma, numa série relativamente recente – mas notável – de flexões de alguns partidos históricos de esquerda e centro esquerda. O movimento começa no segundo semestre de 2015. Na Inglaterra, depois de anos de burocratização e amortecimento, o Partido Trabalhista foi sacudido pela renovação (por eleição direta) de sua liderança. Jeremy Corbyn, o mais improvável dos candidatos, venceu, porque propôs um programa claro de combate às políticas de “austeridade”, defesa dos serviços públicos, revisão das privatizações. Por duas vezes, os parlamentares do Labour, incomodados, o derrubaram; em ambas, ele retornou, nos braços da base do partido. A mídia o considerava inviável eleitoralmente. Sob sua liderança, os trabalhistas recuperaram-se da derrota eleitoral humilhante de 2012 e são quotados para vencer as próximas eleições parlamentares.

Mais ou menos à mesma época, começava a funcionar, em Portugal, uma curiosa geringonça. O Partido Socialista reviu sua tendência de décadas, de acomodação às políticas neoliberais, coligou-se com duas agremiações à sua esquerda (Partido Comunista e Bloco de Esquerda) e realiza um governo que, embora contraditório, retomou a recuperação dos salários e o investimento público. À época do giro, afirmava-se que naufragaria em poucos meses. Agora, até instituições internacionais ortodoxas como o FMI e o Banco Mundial são obrigadas a admitir os resultados macroeconômicos positivos.

Nos Estados Unidos, ergueu-se, em paralelo e em oposição à onda Trump, uma vaga de esquerda que teve em Bernie Sanders, há três anos, suas grande expressão. A cúpula do Partido Democrata bloqueou sua candidatura à Presidência – que segundo muitas análises teria derrotado a do atual presidente. Mas o movimento não foi contido e desembocou, nas eleições legislativas do ano passado, na eleição de Alexandria Ocasio-Cortez e na formulação da proposta de Green New Deal, que ocupa hoje o centro do debate político no país.

E há poucas semanas, na Espanha, um Partido Socialista renovado percebeu que só venceria as direitas – a tradicional (PP), a brutal (Vox) e a “pós-moderna” (Ciudadanos) se assumisse o choque de projetos e se comprometesse com os interesses das maiorias. Mudou, venceu (também para surpresa de muitos) e cogita fortemente compor-se com o Podemos, para o novo governo que formará em breve.

Com a atitude de Cristina Kirchner, a Argentina prepara-se para integrar o grupo. Resta perguntar: chegará a vez do Brasil?

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Venezuela | Maduro desafia oposição para eleições legislativas antecipadas

Posted: 20 May 2019 10:03 PM PDT

Nicolás Maduro, 56 anos, no poder desde 2013, denunciou as iniciativas do presidente da Assembleia Nacional como uma tentativa de golpe de Estado liderado pelos Estados Unidos

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, propôs nesta segunda-feira antecipar as eleições legislativas, previstas para 2020, como forma de encontrar uma “solução pacifica” para a crise que afeta o país e desafiou a oposição a ir a votos. “Tenho uma proposta hoje, 20 de maio, para as oposições: vamos avaliar-nos eleitoralmente, vamos a eleições antecipadas da Assembleia Nacional para ver quem tem os votos e ver quem ganha”, disse Nicolás Maduro.

A crise política na Venezuela agravou-se em 23 de janeiro, quando Juan Guaidó, que é presidente da Assembleia Nacional, onde a oposição detém a maioria, jurou assumir as funções de Presidente interino e prometeu formar um Governo de transição e organizar eleições livres. Na madrugada de 30 de abril, um grupo de militares manifestou apoio a Juan Guaidó, que pediu à população para sair à rua e exigir uma mudança de regime, mas não houve desenvolvimentos na situação até ao momento.

 

Nicolás Maduro, 56 anos, no poder desde 2013, denunciou as iniciativas do presidente da Assembleia Nacional (parlamento) como uma tentativa de golpe de Estado liderado pelos Estados Unidos.

À crise política na Venezuela, onde vive uma grande comunidade portuguesa e lusodescendente, soma-se uma grave crise económica e social, que já levou mais de 2,3 milhões de pessoas a fugirem do país desde 2015, de acordo com dados das Nações Unidas.

Lusa | Expresso | Foto: Eva Marie Uzcategui / Getty Images

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chrys chrystello

Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL