prémio da Lingua Portuguesa, atribuído pela Fundação Oriente. para timorense

Diz-se muitas vezes que em Timor os jovens não falam português. Este é o Emanuel Viana e este é o fabuloso texto com que venceu hoje o VI Prémio da Lingua Portuguesa, atribuído pela Fundação Oriente.

SÓ SE CANSA DO MAR QUEM DO MAR SÓ VÊ ÁGUA
Quem conta um conto conta uma história; quem conta uma história conta uma verdade. A da própria história. Ela basta. Depois existem os géneros: os romances, as fábulas, a História. Há até os romances históricos, livros que são uma falsa imaginação de uma história real.
Aprendi na faculdade, com um professor, algumas palavras difíceis. Ele gostava de nos ensinar assim Direito. Dizia que quem só sabe de Direito nem de Direito sabe. Aprendi as palavras infinitesimal e incomensurável. A primeira significa a renovação de uma medida matemática sem limites. A outra é usada para determinar nas vítimas os seus danos morais, que são impossíveis de avaliar, logo incomensuráveis. Timor-Leste é assim também. Um país infinitesimal e um país incomensurável. Parece infinitesimal a pobreza, a falta de condições de vida, os hospitais pobres e sem condições, as estradas destruídas, a violência contra as mulheres e, pior de tudo, a corrupção. É incomensurável a beleza do país, como o são as suas maravilhas: um mar calmo e colorido, um sol invejável, montanhas imensas despidas de habitação, de cor amarela na época das secas e verde na época das chuvas. Além disso há os recursos naturais, como o gás e o petróleo.
Escrevo isto porque um conto, uma história imaginária, com personagens fictícios, lugares inexistentes e sonhos impossíveis de realizar, não é história que gostasse de escrever. A vida, em criança, nunca me deixou ver filmes de crianças e só recebi livros muito tarde em idade. Atrai-me a vida crua e se tenho um sonho é o de um país democrático, próspero e desenvolvido. “Conto”, por isso, o sonho de uma criança depois de 2006 e até hoje.
Timor-Leste é um país de sonhos. A ilha de Timor tem uma medida de 30.077 Km2 e localiza-se no sudeste asiático, com fronteiras marítimas com a Indonésia, com quem tem fronteira terrestre, e com a Austrália. Eu próprio, que sou timorense, nasci inundado de mar numa dessas ilhas, a das Flores. Terei de voltar a ela mais à frente, pois vivi lá alguns anos depois de 2006. Quanto a Timor-Leste, acredito que foi a morfologia que abriu ensejo ao número infinitesimal – aqui está apalavra que o professor de Direito me ensinou – de ritos e mitos e lendas. O maior deles é o do crocodilo gigante que, repousado no sono, criou a terra que pisamos. Há outros, mais ou menos bonitos, mas o que eu mais gosto é o do nome próprio, Timor Lorosae, como quem diz a terra do nascer do sol.
Na sua história, aponta-se um passado colonial e grandes e vários conflitos bélicos. Data de 1512 o ano em que os portugueses desembarcaram no país, na região que hoje é de Oecuse Ambeno, e numa altura, ainda, em que a ilha era um território unitário. Foi pois o ano em que Portugal, no que respeita às suas colónias, “completou a sua circum-navegação”. Depois disso, haveria que registar a divisão da ilha em dois, o Timor português e o Timor holandês, transformado em Timor indonésio em 1949. Antes, ainda, em 1912, a tentativa de revolta de Dom Boaventura, na
liderança da Revolta de Manufahi. Até que chegou 1975, depois do 25 de Abril de 1974 em Portugal, e Timor português perdeu a dependência colonial. Duraria pouco, pois a ocupação indonésia dominou até 1999 o território foi administrado pelo invasor com mão de ferro, matando, raptando e violando todos, entre homens e mulheres, jovens e idosos. Daí que em 2002, depois que chegou ao fim a época de transição das Nações Unidas através da UNTAET para um novo país democrático e independente, todos os timorenses pensaram que tinham acabado os seus sofrimentos.
Estávamos errados. 2006 estava para vir. E eu, jovem timorense, iria ver o desastre de um sonho. “Para onde vão os gatos quando morrem?” eu não sei, mas foi a primeira vez, com oito anos de idade, que vi a destruição e a morte na minha frente. Quando se morre o corpo fica frio. Sabem? Já o tocaram? E os olhos, sabiam que só se fecham se nós, os vivos, o fizermos? Eu não sabia, mas vi isso na minha família. E para que não fosse eu a morrer um dia, a ordem em família foi clara: o pai fica em Timor, vai lutar se for preciso porque é o país dele, e a mãe e eu vamos para a ilha indonésia das Flores. E fui, entre longas horas de mar, e por bastante tempo.
Vi mar, e mais mar, e mais mar. Aprendi em pequeno que viajar serve para pensar. Naquele tempo e depois eu sofria bastante. Os meus estudos pararam. A minha família não tinha dinheiro, apesar de haver comida todos os dias. E o meu pai, resistente da guerra, estava separado de mim por um mar imenso. Passavam dias e dias sem falarmos. Sem nós sabermos dele vivo nem ele saber de nós. Querem saber o que é o pior pesadelo do amor? Ver em música o “requiem” de quem mais gostamos. Em 2006 o meu maior medo, todos os dias, é que esse “requiem” fosse tocado em homenagem ao Senhor meu pai, sozinho em Timor porque quis proteger a família da insegurança. Com sorte, hoje, estamos todos juntos, eu pude regressar com a minha mãe, e o combatente solitário é um homem feliz neste país de paz.
Mas falta tanto por realizar ainda! O mar mais próximo que eu agora tenho para ver na capital é o que surge para lá da Universidade. O meu pai não está mais afastado de nós e paz é algo que temos como certo. Mas conseguem acreditar que agora, desde que entrei na Universidade, sinto uma vontade maior de também eu, como anónimo, mudar o meu país para melhor. Acreditamos que o desenvolvimento vai chegar ao nosso país espontaneamente, sem termos de fazer nada por ele. Há mar e há vêr o mar, e quem acredita nisso só vê com os olhos da cara. Um presidente americano, John Kennedy, perguntou o que os cidadãos podem fazer pelo país. Eu sei aquilo para que fui ensinado e sei o exemplo da educação do meu pai. Para que Timor-Leste seja um país em que estudar não é um luxo, em que saúde pública seja significado de um bom hospital, e em que os corruptos sejam punidos, eu, apesar de muito jovem, sei o que precisamos. Precisamos que as pessoas com autoridade para governar, os líderes, como o capitão de um navio, nos liderem como parte de si contra as poderosas ondas de um oceano feroz. Precisamos que eles olhem o povo como

seu, para que a pobreza não seja negligenciada e venha a ser erradicada. Para que nos hospitais exista saúde de qualidade e para que os sonhos dos timorenses sejam cumpridos. É evidente que só se cansa quem e quando do mar só vê agua, porque esse não é capaz de pensar além da realidade tangível. O mar, no fundo, possui muitos recursos e riquezas naturais. Há animais marinhos, peixes, gás, petróleo. Mas sabem o que há em excesso no Mar de Timor: histórias de timorenses. A distância entre famílias causadas pela guerra e pelas imigrações da pobreza. A frase deste meu título é de um escritor que também deixou Timor para ir estudar para Portugal.
Portanto, ao olhar o mar, devemos perguntar que futuro queremos. Não precisamos de ser como os grandes países civilizados nos luxos e na riqueza. Não precisamos de grandes despesas e construções. Precisamos de cumprir a nossa própria constituição. Em direito ensina-se o seguinte: que os Direitos, se não forem realizados nas relações concretas, são escritos sobre areia porque é como se não existissem. Precisamos assim de proteger a saúde, a educação, a habitação, a dignidade humana. Precisamos de preservar a identidade timorense e por que lutamos e sofremos durante séculos. E se isto é incomensurável, impossível de medir e de quantificar, há uma coisa que também o deve ser no futuro das próximas gerações de timorenses: “a crónica da travessia” que temos feito desde 2002 e que precisamos continuar para que em 2050, em 2100, em 2200, novas gerações de timorenses num Timor-Leste mais próspero e equilibrado na repartição dos recursos, falem com honra dos seus antepassados.

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