(10) Falidos, mas contentes Já tinha aqui referido a… – Osvaldo José Vieira Cabral

 

 

falidos mas contentes osvaldo cabral Pages from 2019-05-15-1-2

Falidos, mas contentes

Já tinha aqui referido a via sacra desta altura do ano, em que as empresas públicas regionais são obrigadas a divulgar as suas contas do ano anterior, mas, antes de as enviar ao parlamento, inundam as redacções da comunicação social com a sua versão cor-de-rosa dos resultados.
Nem todas ousam entrar no esquema, presumindo-se que ainda haja gestores nesta terra com um pingo de vergonha.
Os outros não usam o GAGS, mas enviam todos uma versão em formato igual, com os mesmos caracteres e o que muda é apenas o cabeçalho, com o logotipo da empresa.
De resto, a cantilena é toda igual: ou deram lucro, ou ninguém sabe o que deram, ou ainda não se percebe aquilo o que é que deu, porque a redacção é péssima.
Até agora, três vieram anunciar lucro: o Teatro Micaelense, a Azorina e a Sinaga!
Assim descarado: três empresas altamente subsidiadas pelo orçamento regional, como se os subsídios fossem receitas da actividade, e as duas últimas com calotes de milhões!
É preciso ter muita lata.
Estão a imaginar os 53 milhões de prejuízo da SATA, o governo dar um subsídio de 54 milhões e a empresa vir declarar que teve um lucro de 1 milhão?
É o mesmo esquema.
Outra história engraçada: a conserveira Santa Catarina auto-elogia o seu aumento de volume de vendas, diz que foi o melhor ano de sempre, mas depois não sabemos qual foi o resultado.
Descobre-se, afinal, que teve um prejuízo de quase 1 milhão de euros, praticamente igual ao ano anterior.
O prejuízo continua a ser cerca de 12% das vendas, o que quer dizer que em cada 100 euros de vendas a empresa tem prejuízo de mais de 12 euros.
Finalmente, a versão da Portos dos Açores, ainda mais confusa.
Tão confusa que não se percebe que raio de resultados é que obteve, levando um jornal a anunciar, em manchete, que obteve lucros, para no dia seguinte corrigir que, afinal, foi um prejuízo de mais de 2 milhões…
Sem as contas completas não dá para ninguém perceber do que estão a falar.
Sabemos que em 2016 tiveram proveitos de 34,4 milhões de euros, em 2017 baixaram para 32,4 milhões e dizem que em 2018 são de 20,9 milhões.
É a informação incompleta que convém. O resultado negativo de 2,4 milhões compara com o resultado negativo de 7,9 do ano passado.
Ou seja, é negativo na mesma!
A rubrica de subsídios por integração de investimentos, fora dos números de proveitos, foi de 6,2 milhões em 2016 e 3,8 milhões em 2017. Não há informação desta rubrica para 2018.
Afinal porque é que não divulgam as contas completas se elas já estão prontas?
É isto que a central de propaganda dos departamentos do Governo Regional pretende: criar confusão junto dos cidadãos.
Não é a verdade que interessa, é a desinformação.
Numa altura em que se fala tanto de “fake news”, desinformação, factos alternativos, eis aqui um bom exemplo de quem exerce a desinformação a seu belo prazer.
E a transparência era muito simples: bastava enviar aos jornais os relatórios e contas e as redacções fariam a leitura correcta dos resultados operacionais das empresas.
Porque escondem os documentos?

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PRÉ-REFORMAS – Fala-se muito agora em pré-reformas, na função pública e na SATA. Claro que um dia isto ia bater na porta de alguém. Tanto que avisamos. Os contribuintes vão pagar a dobrar: as pré-reformas e os outros que hão-de continuar a ser admitidos.
Os visados não se esqueçam de ir bater à porta do Palácio de Santana a pedir responsabilidades.

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PROMOÇÕES – Mais uma história de uma empresa pública envolvida em trapalhadas financeiras.
Fez deduções de impostos consideradas irregulares, detectadas pela Autoridade Tributária desde 2011 , “que terão alterado as demonstrações financeiras da empresa”.
Um caso em que o Estado reclama créditos de quase 7 milhões de euros.
Como resolver isto?
Muito simples: a empresa foi extinta pelo Governo Regional e o seu Presidente… nomeado assessor para uma Secretaria Regional!

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GESTÃO DANOSA – Já aqui falamos deste assunto, a propósito das sugestões dos antigos Presidentes do Tribunal de Contas e da Procuradora Geral da República, para que se introduzisse na lei portuguesa a responsabilidade directa dos gestores públicos na gestão das empresas.
Noutras paragens, como por exemplo na Islândia, o que se está a passar com algumas das nossas empresas públicas regionais, já teriam sido objecto de procedimento acusatório de gestão danosa do interesse público de administradores e de políticos que tutelam as actividades em causa.
Na Islândia, vários foram parar à cadeia.
Mais: por não ter atingido as metas de lucro, o administrador da Icelandic, que iniciou o processo de interessamento na SATA, foi despedido.
Claro, estamos a falar de outro campeonato de seriedade e transparência.

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GERAÇÕES PERDIDAS – Resultado de tudo isso: as estatísticas de pobreza reveladas pelo INE, em que os Açores são a pior região do país.
Definitivamente, o modelo de desenvolvimento promovido pelos sucessivos governos, faliu!
Não há muito mais a dizer.
Há é que reverter este rumo para que as gerações mais novas ainda tenham algum alívio, porque as gerações trabalhadoras actuais, fora da esfera protegida do poder, já estão condenadas à pobreza.
Geraram-se várias gerações de pobres sem expectativas e nem sequer capacidade de questionar a sua situação.
É a via açoriana.

Maio 2019
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)

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