25 de abril Antº Bulcão

25 de Abril?
Faz depois de amanhã quarenta e cinco anos, levantei-me da cama de manhã e fiz tudo o que costumava fazer. Tomei duche, comi, peguei nos livros e fui para o liceu.
Quando cheguei à escola, não havia escola. Os portões de ferro estavam fechados e fomos todos para casa.
Estranhei. Não havia motivo à vista para aquilo, como o sismo forte que, no ano anterior, me tinha feito deixar de ver o Pico, tapado pela terra que enchia o ar. Voltei para casa e informei meu pai de que não me baldara às aulas e foi então que ele me deu a notícia: tinha havido uma Revolução em Lisboa, para devolver a Liberdade ao Povo.
Numa simples frase, quatro coisas novas para mim.
Lisboa era apenas um lugar supostamente muito grande, uma palavra escrita nos livros de Geografia e que ficaria mais longe que São Miguel, onde tinha ido em pequeno para os senhores doutores determinarem que eu tinha asma.
Povo era uma das classes da sociedade que estudara nos livros de História. Clero era o padre Correia na cidade e o padre Eduardo em Castelo Branco. Nobreza não havia. Éramos todos povo no Faial, mas não sabia que no continente também era assim, só povo.
Revolução só lera sobre as Francesa e Industrial, custava-me a acreditar que qualquer desses tipos tivesse acontecido no meu País, com cabeças dos reis que já não havia desde 1910 a rolar ou grandes fábricas a serem construídas de um dia para o outro.
Liberdade só tinha lido nas legendas dos filmes. Quando alguém estava na cadeia e era solto, saía para a liberdade. Não imaginava o povo todo preso. Mas a verdade é que não sabia, aos quinze anos, que havia outras liberdades. Aprendi com o tempo que havia, que se podiam conquistar e que se podiam perder…
Tão engraçado, haver palavras que não conhecia na minha infância e adolescência. Por exemplo a palavra direitos. Conhecia bem a palavra deveres. Os deveres escolares, o dever de tratar os mais velhos com respeito ou pedir a bênção a meu avô. Direitos não era palavra que se usasse. Hoje em dia é ao contrário. Toda a gente tem direitos e raramente se fala em deveres.
Quando assimilei a grandeza do que tinha acontecido, maravilhei-me. Novas palavras entravam no meu cérebro e saíam-me pela boca ditas bem alto: democracia, sufrágio directo e universal, partidos políticos, liberdade de expressão… Disse-as, gritei-as em comícios e ajuntamentos, cantei-as até à rouquidão…
Pai, foste embora há 19 anos. Durante esse tempo as coisas descambaram imenso. Não quer dizer que o assalto não estivesse já a ser preparado na sombra ou, até, muitas vezes descaradamente. Mas os efeitos dos desmandos começaram a cair-nos em cima às catadupas, e não sei se algumas das nossas tragédias terão sequer remédio.
Hoje, com sessenta anos, a maravilha desfez-se. Já não me iludo. Faço balanços e não gosto dos resultados.
Não apareça, nesta altura da crónica, qualquer esperto a anunciar: lá vem o gajo fazer a apologia do antigo regime. Não terá sorte, tal saloio. Só que o facto de o fascismo ter tido péssimos governantes não impede que a democracia tenha parido, na sua maioria, maus políticos.
Desde 1974, Portugal já esteve, duas vezes, à beira da bancarrota. Pedindo esmola ao FMI. Perdendo, durante algum tempo, a sua soberania, como sempre perde quem deve.
Se agora está controlado, à custa de muito sacrifício por parte do povo português, a verdade é que o défice orçamental esteve muito acima do permitido pelos critérios de convergência. Foi por um fio que nos mantivemos na zona euro.
A dívida pública disparou em tal percentagem que é uma das mais altas do Mundo. E quem a vai pagar serão os nossos filhos e netos.
A corrupção alargou os tentáculos a vários domínios da sociedade portuguesa – políticos, banqueiros, magistrados, oficiais de vários ramos das forças armadas, forças policiais, funcionários públicos, etc.
Os bancos, que antes recolhiam depósitos e os canalizavam para o investimento, usaram indevidamente poupanças dos seus clientes, a ponto de alguns falirem e receberem dinheiro do Estado em tais proporções que ainda serão os meus bisnetos a pagar a factura.
A Caixa Geral de Depósitos, o banco do Estado, emprestou milhares de milhões sem qualquer garantia de ver o dinheiro voltar aos seus cofres.
A Segurança Social está à beira da falência, tanto que já se fala num aumento impensável da idade da reforma dos trabalhadores portugueses que para ela descontaram.
Um antigo primeiro-ministro aguarda julgamento, acusado de crimes todos eles relacionados com dinheiro.
O actual governo deu cargos e empregos a mais de quarenta familiares.
Nos Açores, estamos sujeitos a maiorias absolutas, primeiro do PSD, depois do PS, partidos que dominaram a sociedade açoriana entre 1976 e 1996, no caso do PSD, desde 1996 até hoje, no que respeita ao PS. Criando clientelas, alimentando jobs for the boys, cuidando prioritariamente dos interesses da classe política e suas famílias, em detrimento dos do povo açoriano, já não sabendo muitos de nós para que serviu a Autonomia.
Como vês, pai, a tal revolução afinal não foi feita para nós. O povo apenas existe para votar de vez em quando e para pagar impostos. Quando corre mais ou menos, não vemos grandes melhorias nas nossas vidas. Quando corre mal, temos de pagar forte e feio.
Somos cada vez menos livres, quando trabalhamos meio ano para o Estado e não temos do Estado o que merecemos quando queremos educar os nossos filhos ou cuidar da nossa saúde, só para falar das coisas mais básicas. Pagamos para tudo. Para aguentar as crises, para revitalizar os bancos, para sustentar políticos e governantes que pecam por incompetência ou mesmo má-fé.
Com cravos não fomos lá, por melhor que tal flor cheire.
E já não sei se conseguiremos cumprir os ideais de Abril, tão bonitos no papel constitucional, tão feios pela sofreguidão dos nossos governantes.
Mas voltando dentro de mim aos calções dos quinze anos, volto a emocionar-me. Já não de esperança, mas de pena. Portugal e os Açores mereciam bem melhor.
António Bulcão

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