O governo lisboacêntrico Por: Manuel Leal

 

O governo lisboacêntrico
Por: Manuel Leal

Por: Manuel Leal

A elite politizada dos Açores carece de uma identidade verdadeiramente açoriana. O bem comum nestes termos é definido ao longo do seu relacionamento com Lisboa. Desta subordinação advêm as suas prerrogativas, o seu modo de vida, e a estatura social e até económica de que goza. Esta comunicação processa-se através da linguagem codificada dos partidos, da burocracia e de instituições lisboacêntricas*.
A obediência às diretrizes e à disciplina interna destas organizações mantém e perpetua a ideia avoenga do império garantindo à Metrópole a exploração dos Açores numa conjuntura neocolonial. O neocolonialismo expressa-se na realidade política e económica destas ilhas. Este domínio económico e político é responsável pela situação caracterizada pelo lucro e as vantagens políticas internacionais que os Açores têm dado à Metrópole, calculado nas vertentes do comércio e da política fiscal em mais de três biliões de euros anuais. A Metrópole, todavia, faz regressar ao arquipélago menos de 300 milhões de euros no mesmo período de tempo.
O ano passado, por exemplo, Portugal vendeu à Roménia doze aviões do tipo F-16, recebidos dos Estados Unidos como parte das comparticipações pelo uso na Terceira da Base das Lajes. Esta transação teve um valor aproximado de duzentos milhões de euros, dos quais os Açores não receberam um centavo.
Lisboa tentou suprimir ao povo português o conhecimento deste evento. Demorou nada menos de oito meses para responder à inquirição apresentada pelo deputado açoriano, João Bosco Mota Amaral, confirmando a transação que o Governo da República pretenderia constituir Segredo de Estado. Se a maior parte daqueles dinheiros fossem devolvidos aos Açores o futuro económico da Terceira poderia ser menos problemático com a criação de emprego sustentável.
Na edição de 30 de janeiro passado do jornal Correio dos Açores, a extensão da pobreza que se verifica no arquipélago ficou bem clara numa reportagem reveladora do isolamento da classe política regional em relação aos setores menos protegidos da população. As entrevistas feitas com algumas das vítimas corroboraram esta realidade. Um pescador da Vila Franca do Campo, de 40 anos de idade, Roberto Estrela, resumiu esta situação no lamento “A escravidão acabou, mas hoje todos os pescadores são escravos”.
Por outro lado, quando o governo divulga que “Todas as famílias em dificuldades e sinalizadas têm o apoio da Ação Social” o problema parece relacionar-se com as implicações do processo de “sinalização”. É inadmissível, por exemplo, que um jornalista e a sua família passem fome não obstante estar empregado. A propaganda governamental sugere que há aspetos da política de ação social suscetível de promoção da subjugação social através de um processo de condicionamento psicológico ou habituação. Como escreveu Santos Narciso no Atlântico Expresso de 26 de janeiro, com dificuldade se separariam de um objetivo eleitoralista.
Enquanto prosseguir esta relação caracterizada pela dependência em relação à Metrópole das regalias da elite burocrática e administrativa dos responsáveis pela governação regional, a passividade popular serve os interesses neocoloniais. Por isso são precisos mecanismos de contestação, cuja atividade ponha a descoberto as estruturas da classe e das instituições da engrenagem de opressão latente. O sistema atual coíbe aos açorianos o seu próprio governo sem os cordelinhos da partidocracia metropolitana.
É neste contexto que se torna necessário o abandono dos partidos nacionais e dos seus representantes, em atos coletivos e públicos, repetidos, em voz alta e insistente na repulsa da partidocracia e do neocolonialismo que protege. Os pescadores e todos os trabalhadores naquelas condições humilhantes não têm, necessariamente, que assumir uma postura apática perante as políticas que visam sobretudo o bem-estar da classe política e dos seus apoiantes na burocracia. “O povo unido jamais será vencido”. Nenhum governo poderá sobreviver à prisão de uma multidão.
As manifestações de impugnação da ideia e da prática imperial não surgem, no entanto, sem um trabalho do empoderamento através da libertação psicossocial e política das vontades e do descontentamento que se reflete na abstenção eleitoral em todas as ilhas. Trata-se de uma responsabilidade que cabe aos açorianistas, num movimento de consciencialização das estruturas académicas, políticas e trabalhistas que principia com a participação da juventude escolar. É através das estruturas básicas e sociomentais da memória coletiva que se tece e enraíza a identidade social.
Os 6-de-junho de todos os povos fizeram-se com causas justas em apoio da evolução que as transformaram em movimentos vitoriosos. Cada família empobrecida, cada cidadão desempregado, cada doente carecido de cuidados médicos, cada estudante carecido de apoio financeiro para prosseguir os seus estudos, desde os potenciais atos policiais injustos à insensibilidade dos beneficiados da conjuntura partidocrática e neocolonial constituem uma oportunidade de inquirição popular e justa.
A agitação neste sentido não ilude ou falseia, nem estimula a violência. Reafirma, informa e difunde, e persiste na tese de que o sistema opressivo desfigura ou esconde. Os Açores são mantidos numa situação neocolonial, opressiva, através dos agentes coniventes do poder lisboacêntrico que formam a elite do poder regional.
* Não encontrei esta palavra composta nos vários dicionários da língua portuguesa que consultei. O significado, porém, é óbvio: que tem Lisboa no centro ou que Lisboa é considerada o centro.
2015-02-02

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Sobre chrys chrystello

Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL
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