O enxovalho foi maior Osvaldo Cabral

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Pierre Sousa Lima to Açores Global

O enxovalho foi maior

Rui Rio acaba de provar que é um líder politicamente descompensado em relação às Autonomias Regionais.
A atitude do PSD nacional tem uma dimensão muito mais profunda, porquanto este partido é tradicionalmente e historicamente o partido das Autonomias, desde Sá Carneiro e os restantes fundadores.
Ao quebrar este peso histórico, Rui Rio assina uma sentença de morte política nos Açores.
O líder do PSD não só enxovalhou o PSD-Açores – tal como aqui escrevemos há uma semana -, como ousou enxovalhar Mota Amaral, cujo currículo político está acima e a léguas do de Rui Rio, e teve ainda o descaramento de apresentar um argumento que é um enxovalho para os açorianos e para a Região Autónoma dos Açores.
Ao decretar que a candidata da Madeira será a representante das Regiões Autónomas, quis dizer que Mota Amaral ou outro açoriano não têm capacidade para representar a região. E ao determinar que a candidata madeirense terá que contratar um assessor dos Açores no seu gabinete em Bruxelas, passou um atestado de menoridade aos açorianos face aos madeirenses.
Um líder com esta visão merece uma resposta à altura por parte do PSD-Açores, já que o eleitorado açoriano certamente saberá responder adequadamente no dia das eleições.
Não basta o PSD-Açores decidir, apenas, que não fará campanha eleitoral.
E a seguir ao 26 de Maio, volta tudo ao mesmo como se não tivesse acontecido nada?
Se Alexandre Gaudêncio quer atenuar, minimamente, esta sua primeira estrondosa derrota, tem que ir mais longe e cortar em definitivo com as orientações da Comissão Política Nacional.
A sobrevivência política de Gaudêncio dependerá muito de como vai lidar com esta enorme contrariedade. Se for tacticamente dócil, ou frouxo, os eleitores não o perdoarão, pelo que só lhe resta uma atitude firme e de ruptura. É uma questão de honra.
Até porque, agora, só lhe restam as eleições regionais do próximo ano.
Depois desta derrota interna, vai ter a segunda no dia 26 de Maio e uma terceira nas legislativas de Outubro.
E uma ruptura significa manter o PSD-Açores nas estruturas nacionais, mas assumir a sua autonomia interna em pleno, anunciando que se desliga de qualquer orientação política do líder nacional, não convidando nenhum membro da Comissão Política Nacional a vir aos Açores nos próximos meses eleitorais, elaborar uma lista às legislativas sem dar cavaco às orientações nacionais e esperar pelo resultado de Outubro, em que, provavelmente, Rui Rio terá a pior derrota de sempre do PSD, a acreditar nas últimas sondagens, levando-o à expulsão da liderança.
Paulo Rangel já anunciou que virá aos Açores, certamente acompanhado pela “representante das Regiões Autónomas”.
A única resposta ao anúncio provocatório é o PSD-Açores decidir que não lhe dará nenhum apoio logístico e nenhum social democrata açoriano cair no ridículo de acompanhar a comitiva no périplo regional.
Por outro lado, mais do que não fazer campanha, o PSD-Açores devia dar uma indicação de voto aos seus militantes, porque abrir a porta à abstenção não é o mais indicado para um partido que se advoga defensor do combate ao fenómeno (apesar de se prever que vamos ter a maior de todas no dia 26 de Maio).
E aqui tem várias alternativas: como protesto, apela ao voto em branco ou apela ao voto nulo (basta escrever no boletim “Antes morrer livres, que em paz sujeitos”), ou dá liberdade de voto a todos os militantes, para que possam votar conforme a sua consciência.
Numa democracia madura e num sistema político com mentalidade aberta, como nas democracias anglo-saxónicas, em vez do fundamentalismo partidário que se vive no nosso país, o voto óbvio a recomendar nestas circunstâncias devia ser na única voz dos Açores que vai estar em Bruxelas: André Bradford.
Porque se o objectivo é termos voz no Parlamento Europeu e nos corredores de Bruxelas e se “os Açores estão acima do partido”, então é mais do que óbvio que o único representante açoriano devia merecer uma votação maciça para se apresentar com um mandato forte lá fora.
Claro que não é isto que vai acontecer.
E quem fica a perder, mais uma vez, somos todos nós, açorianos.

Osvaldo Cabral

(Diário dos Açores de 15/03/2019)

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