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A oposição ao Acordo Ortográfico vista pelos melhores desacordistas

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J. Silva
Embora em fase de rescaldo, o tema AO teve entre nós debate aceso. Tal deveu-se, por um lado, ao atavismo da sociedade portuguesa, bem visível na nossa história nos últimos duzentos anos. Por outro lado, nós, portugueses, temos esta propensão para a querela, como as longas discussões em torno do futebol fora das quatro linhas demonstram. Não me revendo eu no primeiro defeito, revejo-me certamente no segundo, pelo que não poderia desperdiçar a oportunidade que me foi oferecida pelo JJCardoso, que agradeço, e publicar algo sobre o tema no Aventar.
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Todas – rigorosamente todas – as objeções ao AO90 já foram exaustivamente desmontadas. No entanto, sendo o desacordismo um fenómeno para-religioso, ele impede os crentes de ler fora da vulgata, pelo que tudo se resume a recitar suras desacordistas e outras coisas absurdas. O desacordismo,pela sua natureza, impede o desacordista de ler um único argumento contrário, e assim se explica porque motivo os “debates” sobre o AO promovidos por desacordistas não incluem acordistas. Os desacordistas mais facilmente batem uns nos outros do que debatem com outros.
Então, como podemos nós ultrapassar esta impossibilidade de levar luz à caverna lúgubre do desacordismo? Como vencer esta dificuldade de fazer o desacordista ler fora da sua área de conforto emocional e intelectual? Talvez pedindo ao desacordista para atender apenas à opinião de outro desacordista. É o que farei aqui.
António Emiliano, linguista, professor universitário, mostrou ser o opositor ao AO mais valoroso no debate técnico do tema. Vejamos que ele tem a dizer sobre um dos principais pilares da oposição ao AO, a questão etimológica (extrato da nota 47 do facebook de Emiliano, a 16 de abril 2012):
O problema “técnico” principal desta hedionda Base IV devoradora de letras e brasilificadora do português língua escrita não é etimológico, como clamam alguns desacordistas.
[…]
A matriz ortográfica greco-latina da língua portuguesa há muito que foi desfigurada por decreto (e cá continuamos, escrevendo português, de forma menos bela e adequada, mas português quand-même): invocar a dita matriz greco-latina é argumento que não vale um caracol na presente controvérsia e só serve para alimentar a imagem negativa que os acordistas gostam de dar a quem lhes faz frente.
Devastador. O citado faz notar que se reserva o direito de mudar de opinião. Mas com ou sem mudança de opinião, com ou sem signatário, filho querido ou enjeitado, este esplêndido trecho ganhou vida própria e sobrevive à vontade ou parecer do genitor, como sempre acontece à obra do operário que se transcendeu.
Vasco Graça Moura, homem da cultura e de letras, foi o mais mediático dos opositores ao AO. No auge da questão, há cerca de um ano, Moura deu uma entrevista ao jornal O Globo. Vejamos o que ele tem a dizer a quem imagina que “A Língua É Nossa” ou que “Existem Duas Línguas Portuguesas”.
O Globo: Muitos opositores do acordo em Portugal dizem que a língua é dos portugueses. O que o senhor acha dessa afirmação? 
VGM: Não tem pés nem cabeça. A língua portuguesa é património de todos que a falam como língua nacional.
Lúcido. Ainda que só por uma vez. Link da entrevista.
Miguel Tamen, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, vê as coisas de outra forma. Ainda que Tamen aceite que “o AO desliga o Português da matriz greco-latina” ao contrário de Emiliano, ou que “a Língua é nossa”, ao contrário de Moura, ele pensa que essas e outras falácias não são objeções fundamentais ao AO; para ele, a essência da questão é outra, como se pode ler numa entrevista ao i:
i: Qual é então essa sua principal objecção?
MT: Eu acho que o acordo é mau porque a ideia de lusofonia é má. Na minha opinião, tudo o que invoque a noção de lusofonia me parece deplorável.
Honesto. Tamen está mais próximo do fulcro da questão, porque o fulcro da questão da aceitação ou rejeição do AO é político; só é ortográfico na medida em que foi, como é, necessário mascarar resistências sociológicas e corporativas envergonhadas, de tão vergonhosas. Link da entrevista.
Termino com a opinião de outro desacordista, João Ferreira Dias. No trecho que se segue, JFDias faz uma espécie de resumo da matéria e diz o seguinte:
Naturalmente que a nostalgia que habita em mim prefere “actor” a “ator”, “acção” a “ação”, por exemplo, mas também “Pharmacia” a “Farmácia”. Ora, de “Pharmacia” ninguém falava, pelo simples facto de já ter caído em desuso faz tempo. Tal significa – e este ponto é importante – que a grafia portuguesa não se manteve estanque e a forma como os meus pais aprenderam a grafar algumas palavras é diferente daquela que aprendi, trinta e tal anos depois. Portanto, a razão da recusa do acordo ortográfico por parte de inúmeros cidadãos portugueses não deverá residir num apego à originalidade da língua, porque se for essa a razão estamos mal, afinal a grafia pré-acordo é já uma degeneração do português arcaico, por exemplo, porque ou muito me engano ou já ninguém escreve nos seguintes moldes:”Razoões desvairadas, que alguuns fallavam sobre o casamento delRei Dom Fernamdo”.
Desta forma, só consigo vislumbrar uma razão simples para que o Acordo Ortográfico seja visto como uma abominação – o facto de ser um acordo com o Brasil. Sendo assim, o problema nada tem a ver com a grafia mas reside antes em recantos da xefonobia e do preconceito, resultantes de processos civilizacionais mal resolvidos.
Brilhante. Receio que, por esta altura, a maioria dos desacordistas não tenha estofo psicológico para ler o post original na íntegra.
É possível que, para muitos desacordistas esta tenha sido a primeira vez que tomaram conhecimento de opiniões divergentes da vulgata descordista. Se tiver sido assim, este post já valeu a pena, mesmo que não tenha demovido nenhum dos crentes.