Crónica 229 dos castelos, das relações humanas e dos muros à la Trump 12.1.2019

 

esta e outras em https://www.lusofonias.net/mais/as-ana-chronicas-acorianas.html

Crónica 229 dos castelos, das relações humanas e dos muros à la Trump 12.1.2019

Escreveu em tempos o saudoso Daniel de Sá que

Existe um “castelo” na Lomba da Maia. Não tem torres nem ameias nem tampouco o fosso protetor contra invasores e atacantes. Também não tem nome nem dono. Foi assim batizado, por lá se avistar (dia e noite) um castelão, agarrado ininterruptamente ao seu computador, organizando os Colóquios da Lusofonia.

Os castelos constituíam fortes, feitos com muralhas, torres, fossos, barbacãs, calabouços e pontes levadiças. Geralmente eram construídos em terrenos elevados, o que facilitava a defesa contra os ataques externos. Nos momentos de ataque, todos se refugiavam dentro dos castelos para proteção. A ponte levadiça era a única entrada que dava acesso ao interior.

De facto, dali do topo da “falsa” (o nome micaelense para o sótão) a minha janela abria-se sobre todo o mundo: podia observar os mares e os montes, as vacas, os nevoeiros que se aproximavam e, por vezes, desapareciam sem deixar rasto. Outras vezes era o vento mata-vacas de nordeste ou a chuva inclemente e impiedosa ora do norte, ora do oeste ou do sul, e aí sim, abatia-se sobre o “castelo” e as grossas gotas corriam pela janela e toldavam-me o juízo, arrefecendo a minha paciência oriental. Mas não foram essas chuvas quem apagou o fogo, extinto há muito pela sublimação do hábito que torna os quotidianos em tarefas cada vez mais pesadas, quando o desespero se apossou subitamente, sem premeditação. Martelando ferozmente o teclado em frente ao qual gastei a última grosa (doze dúzias de anos, assim me pareciam) da vida, deixei que ela lá fora corresse sem pressas.

Devagarosamente debitei palavras que a gaveta iria consumir com a humidade que, aliás, era muita na ilha sempre verde. Sempre a gaveta para onde desde miúdo atirei tudo o que produzi na esperança de um dia me vir a ser útil. Já aprendera isso com o meu pai e repetia-o até à exaustão pois a mesma experiência ditava-me secretamente esse conhecimento de que seriam sempre úteis. Já o tinham sido por várias vezes. Sabia ser difícil aos que me rodeavam compreenderem aquele frenesim, aquela angústia de escrever e por muito que lhes explicasse (o que já deixara de fazer havia tempo) recusavam-se a ver a minha lógica irrepreensível. Sabia que tinha uma missão diferente de todas as outras e teria de a levar a cabo, embora sem saber rotas nem itinerários.

Eu era quase um eremita rodeado de gente pouca, por todos os lados, como convém a quem é uma ilha, incapaz de me deixar contagiar pelos clamores externos. Não havia ambiguidades nesta postura. Não tinha ressentimentos nem ilusões. Já passara o tempo da dor, limitava-me a sorrir pouco e rir qb.

Ora aprendi ao longo da vida que os piores assaltantes nunca eram nem os inimigos nem os desconhecidos, mas familiares e amigos. Sendo a minha casa, o meu “castelo” um santuário e não sendo eu uma religião, não eram bem-vindos os fiéis por mais disfarçados de Reis Magos que se apresentassem. Sempre fora assim ao longo de quase sete decénios, em Timor, Macau, Austrália e Portugal.

Quando baixava a ponte levadiça e permitia a entrada de alguém, mais tarde ou mais cedo teria de terçar armas para defender o meu santuário. Umas vezes, logo de início, outras ao fim de muitos anos, sempre fora assim, quando baixava a guarda, quando menos esperava, quando acreditava que a amizade não era um verbo aí vinham impiedosas as traiçoeiras setas.

Lá tinha de ir correr à sertage (fritadeira quadrada) buscar azeite a ferver para repelir o ataque. Agora não havia já os habituais cercos medievais esperando uma rendição, nem eram precisas máquinas de guerra como catapultas ou a tradicional chuva de flechas. A tática mais comum para os exércitos de familiares e amigos que lançavam o ataque era estimular traições ou rebeliões entre os sitiados. E foi assim que ao dealbar de 2019, inspirado por alguém em quem nunca me revejo, decidi erguer um muro à la Trump e tornar o meu castelo inviolável. Infelizmente ao fim de quase sete décadas tenho de concordar que as amizades não passam de interesses transvestidos. Mais vale ser eremita do que traído por falsos amigos e aliados. Daí acreditar que mais vale estar só do que mal-acompanhado. Só resta esperar que este muro virtual que acabo de erguer no meu castelo seja mais eficaz, nesta ilha onde o feudalismo pós-medieval se implantou, pelo que em breve irei criar mais defesas como paredes internas, formando um anel concêntrico e protegendo ainda mais a construção. O pátio interno ficará maior, dividido em pátios separados. A torre de menagem (donjon) ficará maior em pedra e criarei uma fortaleza. Outras construções serão acrescentadas aos pátios – com mais torres amplas e altas incorporadas nos muros externos, enquanto outras serão estruturas separadas dentro dos pátios.

Obviamente o “castelo” sem torre nem ameias do Daniel de Sá fora ineficaz.

(texto do autor adaptado de ChrónicAçores uma circum-navegação, vol. 1, ed. 2009)

Para o Diário dos Açores e Diário de Trás-os-Montes

Chrys Chrystello, Jornalista

[MEEA/AJA (Australian Journalists’ Association

Membro Honorário Vitalício nº 2977131, 1983-2018) carteira profissional AU3804]

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Sobre chrys chrystello

Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL
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