as pessoas que conheci por João Severino

JÁ CONHECI milhares de pessoas ao longo da vida. Em Portugal, desde a escola primária até ser profissional do jornalismo. Em Espanha, França, Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Itália, Jugoslávia, Bulgária, Turquia, Irão, Paquistão, China, Hong Kong, Macau, Timor-Leste, Angola, Moçambique, EUA, Austrália, Singapura, Indonésia, Malásia, Vietname, Noruega, Suécia, Rússia conheci pessoas de toda a maneira de ser. Pessoas dos mais diversos feitios. Pessoas amáveis e carinhosas. Pessoas horrorosas, de mau feitio, vingativas, invejosas, traidoras, maldosas, avarentas, peneirosas, incompetentes. Pessoas que marcam a nossa vida porque as ficámos a conhecer. Umas melhor que outras. Mas, as amáveis e carinhosas, sinceras e verdadeiras são os melhores seres humanos do mundo. Se escreves uma carta, um email ou uma mensagem e não te respondem ficas logo a saber o tipo de gente com quem lidas. Se compras um automóvel que te disseram estar impecável e ao fim de um mês fica arrumado numa qualquer oficina, ficaste a saber o que é um aldrabão. Se editas um jornal e um opositor, simplesmente por inveja e incompetência, te faz a vida negra até te destruir, ficas a saber o que é um crápula. Se um dos melhores advogados e personalidade de maior relevo de uma cidade australiana, sem te conhecer, ouvindo apenas a pessoa que és, te ajuda e à tua família na reintegração na sociedade ficas a saber o que é a solidariedade desinteressada. Se um chinês que tem uma cultura completamente oposta à tua, que nunca convidou um estrangeiro para jantar em sua casa e te convida a ti e à tua mulher para um bom repasto caseiro ficas a saber o que é a verdadeira amizade, respeito e consideração só porque soubemos tratar esse chinês com seriedade, consoderação e respeito. Das milhares de pessoas que conheci, quase nenhuma esqueci. Posso não me lembrar já do nome, mas o local e o que fizemos recordarei para sempre. Por exemplo, como posso esquecer o companheiro e saudoso Cáceres Monteiro, na altura o presidente do Sindicato dos Jornalistas, que após eu ter sido injustamente e sem justa causa despedido da RTP, e no desemprego apenas ter encontrado trabalho na montanha russa da Feira Popular, ele e outros companheiros, foram lá para jantar comigo e arranjar-me um emprego no jornalismo. Eu agradeci sensibilizadamente mas resolvi emigrar. Em 1976 já este país não servia para homens honestos, trabalhadores e que não pertencessem à maçonaria ou à opus dei. Hoje, lembrei-me dos colegas de escola, de liceu, dos colégios, do serviço militar, das estações de rádio e de televisão, dos jornais e de tanto lugar. Lembrei-me dos jogadores de futebol meus amigos como o Eusébio, Torres, Humberto Coelho, Juca, Damas, Figueiredo, Vital, Falé, Paixão, José Pedro, Coluna, Matateu, Vicente, Cardona, Jaburu, Di Paola, Di Pace, Costa Pereira, Bastos e Hernâni. Lembrei-me de centenas de jornalistas estrangeiros e de dezenas de pilotos de motas e carros com quem convivi, especialmente da grande amizade mantida com Ayrton Senna desde que corremos no circuito de Macau em provas diferentes. Lembrei-me de tantos profissionais que trabalharam ao meu lado, especialmente do melhor paginador de jornal que conheci, o meu verdadeiro amigo João Paulo Borges. Lembrei-me das centenas de macaenses que se me dirigiam sempre com uma palavra amiga e que nunca me chamaram páraquedista. Lembrei-me dos eficientes pilotos de aviões e das hospedeiras de bordo com quem mantive diálogos interessantes durante as longas viagens e onde, apesar de todo o mal que o meu país me fez, sempre a valorizar e a promover o nome de Portugal. Lembrei-me dos timorenses que sempre viveram na miséria e que ainda hoje tendo o seu país independente e cheio de riqueza continuam na miséria. Lembrei-me de todos os que conviveram comigo e que sempre foram amáveis ou odiondos. Lembrei-me dos familiares que tive e que tenho. E tudo isto, porque alguém não me respondeu a uma missiva que lhe enviei… teria morrido?

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