os doentes do Pico e o hospital da Horta, outra forma de discriminação que nunca acaba

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Pierre Sousa Lima to Açores Global

O Hospital da Horta não sai da cepa torta

E foi hoje mais uma vez.
Gente do Pico, viajando, como habitualmente, em jejum, logo pelas 8h00 da manhã, rumo ao nosso querido e muito prestável hospital da Horta. Iam fazer exames para os quais tinham sido antecipadamente convocados. Chegaram, cada qual pelos meios que lhe foi possível. Tiraram senha e aguardaram vez. Foram normalmente atendidos na recepção e deram entrada para os exames previstos. Eram vários, como aquela senhora de Santa Luzia, que bem conheço, com 82 anos de idade, viajando em cadeira de rodas, acompanhada pelo genro, e que ia para fazer uma TAC.
Na sala de espera, esperaram. O tempo a passar e o jejum a apertar, com o estômago a dar horas, a medicação do dia por tomar, já que o caso assim o exigia. E esperaram, esperaram, esperaram… A falta de alimento a fazer sentir-se mais ainda com a travessia do Canal que, por sinal, não foi má. As faltas de medicação diária também a fazerem sentir-se… Ninguém que desse uma explicação ou ao menos um “xi porco”, como, por vezes, se diz. Nada…
Era meio-dia e meia (12h30) quando finalmente chegou a informação de que não haveria exames para ninguém. O pessoal técnico para fazer os tais exames encontrava-se de greve.
E lá foi o pessoal do Pico, finalmente, quais cordeirinhos mansos em qualquer deserto de presépio cuja gruta se encontrava abandonada de humanas figuras, subjugado a toda esta normal e habitual desconsideração, matar o jejum e tratar da medicação indispensável trazida de casa. Mais uns trocos dispendidos… Depois foi aguardar o barco das 14h15, já que não havia outro antes, a fim de regressarem ao Pico com mais esta frustração. E mais uns trocos para enganar o estômago com um almoço de fingir… Agora esperar-se-á, pacientemente, por outra oportunidade que, poderá ou não, ser eficaz em termos de concretização dos exames pedidos.
Ao hospital da Horta nada disto interessa ou importuna. Nem que os doentes se tenham levantado, com todas as dificuldades e inconvenientes, às quatro, cinco, seis da manhã para viajarem, atravessarem o Canal em jejum… Nem que, em vão, tenham perdido tempo e dinheiro, bem como os seus acompanhantes… Nem que sejam doentes e humanos, com sentimentos e necessidades elementares acrescidos… Nem mesmo em vésperas de Natal. Enfim, foram, quais pastores e romeiros do dever e do sacrifício, e encontraram um presépio completamente deserto de humanidade. A manjedoura vazia, os reis ausentes e as restantes figuras escondidas atrás das cortinas… Só os animais se mantiveram naquele reduto desprezível, alheios e alienados de tudo o que se passava à volta…
Já se diz até que o administrador do hospital da
Horta só se dá com animais aos quais trata bem melhor do que às pessoas…
Oh! Senhores! Que modos, que comportamentos são estes?
Será que os técnicos entraram em greve, sem pré-aviso, exatamente às 12h30 de hoje?
Como explicam o facto de terem deixado doentes, idosos, toda a manhã em jejum, aguardando uma chamada que (sabiam) não ia acontecer?
Agora já começo a acreditar que sim, fazem-no de propósito para, sem dó nem piedade, obrigarem os doentes do Pico a mais uns gastozinhos por lá. Além do sofrimento, é claro.
Então não tinham avisado esta gente a tempo? Ou, no mínimo, porque não informaram de maneira a que os doentes pudessem regressar a suas casas na segunda viagem da manhã?
Já somos todos bichos?
Antes que todas as estrelas e estrelinhas deixem de brilhar neste firmamento cada vez mais conturbado.
Bom Natal!

Terra Garcia – Pico, 19 de Dezembro de 2018

(Diário dos Açores de 23/12/2018)

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Sobre chrys chrystello

Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL
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1 Response to os doentes do Pico e o hospital da Horta, outra forma de discriminação que nunca acaba

  1. recebi de um médico amigo o seguinte comentário
    Gravíssimo. Repetitivo. Sem intervenção adequada ( como há muito se justificava da parte de quem governa ). Só se compreende à Luz de políticas regionais que não só não se adaptaram à evolução imparavel dos Sistemas de Saúde e Sociais, como a um cúmplice fechar de olhos que dia após dia, permite jogos de política de saúde de alcance mesquinho e valor duvidosos, mas avultadamente pagos, prejudicando e fazendo regredir minuto a minuto a população do Pico de forma achincalhante.

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