dias sombrios Pedro Gomes

DIAS SOMBRIOS

1. Os últimos tempos têm sido férteis em sinais da crise em que o Ocidente está mergulhado, que abala os valores partilhados por um vasto espaço geopolítico e os fundamentos dos regimes democráticos, com projecção na União Europeia e nas suas relações com os Estados Unidos, contaminando, também, o papel desempenhado por este país, enquanto superpotência de vocação internacional.
A nova ordem internacional instituída após a II Guerra Mundial, assente em larga medida no processo de integração europeia que permitiu a construção de um espaço de liberdade, desenvolvimento e paz, por mais de cinquenta anos, na velha Europa, na parceria transatlântica com os Estados Unidos da América, no multilateralismo, no respeito pelo Direito Internacional, na economia de mercado, na defesa e protecção das liberdades individuais e dos direitos fundamentais, sofre uma perturbação inimaginável, a que não é alheia a crise de dois países vencedores da II Guerra Mundial e cuja actuação na cena internacional e no quadro da União Europeia contribuíram para a manutenção desta ordem internacional: os Estados Unidos da América e o Reino Unido. Cada um destes países, a seu modo, atravessa um período de turbulência e de enormes incertezas. No caso dos Estados Unidos, é o resultado da presidência de Donald Trump, que assume uma política de unilateralismo nas relações internacionais, em ruptura com umas das constantes da política externa norte-americana das últimas décadas, como se confirmou em Paris, nas celebrações do centenário da primeira Guerra Mundial; por seu lado, o Reino Unido vive um momento dramático com o processo do “Brexit” (que foi uma derrota geopolítica de Londres) na antecipação de consequências imprevisíveis para o futuro, especialmente pela dureza da solução que a União Europeia impôs para a saída do Reino Unido e pelo previsível isolamento político, económico e comercial a que ficará votado nos tempos mais imediatos.
2. No coração da Europa, as democracias são abaladas com novas formas de ditadura que avançam desde o leste europeu, ainda que formalmente travestidas de regimes democráticos. O rasto de destruição económica que a última crise económica que assolou o Ocidente deixou foi um terreno propício para a emergência de fenómenos de populismo, de caudilhismo, que lideram a oposição às elites europeias, a “Bruxelas”, como dizem, e oferecem aos cidadãos o que a democracia de tipo liberal não consegue oferecer: progresso, emprego, desenvolvimento económico, segurança e nacionalismo. Este discurso seduz os eleitores, que estão martirizados pela falência do modelo capitalista e causticados pelo desemprego, levando-os a escolhas políticas que escondem o seu verdadeiro objectivo: a destruição da democracia e dos seus valores, substituindo-a por um modelo de governação autoritário, baseado no uso da força para reprimir a livre opinião, que ignora os direitos, liberdade e garantias dos cidadãos. A ideia de que “os nossos sonhos não cabem nas vossas urnas”, como gritavam os jovens espanhóis do Movimento dos Indignados, em 2011, torna-se atraente, pois contém um apelo implícito a uma mudança política, a que os partidos tradicionais ainda não souberam dar resposta.
Como escreveu Alexis de Tocqueville, é preciso pedir à “liberdade algo mais do que a própria liberdade”.
(Publicado a 21 de Novembro de 2018, no Açoriano Oriental)

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