Tomás Quental as velhas

3 mins · As “velhas” choravam muito! Celebram-se este fim-de-semana as festas em honra de Nossa Senhora da Piedade, na freguesia de Ponta Garça, na ilha de São Miguel, a que acorrem sempre centenas de pessoas, nomeadamente muitos emigrantes, que aproveitam esta altura para visitarem a terra natal, num reencontro de saudade e de emoção. A casa do meus avós maternos, Maria Gabriela Pacheco e João de Medeiros Quental, situava-se mesmo em frente da imponente e bela Igreja Paroquial, onde hoje existe o Edifício Polivalente e o Largo Professor João Quental, em homenagem precisamente ao meu avô, que dedicou a sua vida à Instrução Primária, tendo também sido por cerca de vinte anos presidente da Junta de Freguesia e responsável do Posto Local do Registo Civil, entretanto extinto. Assisti em criança e em jovem várias vezes a estas festas religiosas, em que a população manifestava grande fervor religioso, bem patente na longa e muito participada procissão: um ano para “cima” e um ano para “baixo”, porque a Igreja Paroquial situa-se ao meio da freguesia e é impossível que o cortejo percorra de uma vez a grande freguesia, uma das maiores dos Açores. Ponta Garça é maior do que alguns concelhos açorianos. As arrematações de bens oferecidos à Igreja Paroquial eram também impressionantes, pela quantidade, qualidade e variedade de animais e produtos. Bezerros, galinhas, coelhos, abóboras, milho, batatas, era um nunca mais acabar de arrematações, sempre pelo melhor preço, claro está. Como era “para Nossa Senhora”, quem comprava não se importava de pagar acima do valor normal. O pároco na altura era o saudoso padre Gil Soares da Costa Amaral, natural da vila de Água de Pau. Homem alto, sempre impecavelmente cuidado, possuía uma voz forte e falava bem, revelando bom domínio da língua portuguesa e bom conhecimento também, obviamente, dos assuntos respeitantes à religião católica. Tanto quanto me recordo, quando a procissão recolhia à Igreja Paroquial, o padre Gil subia ao balcão da casa dos meus avós para se dirigir à população, enfatizando o seu profundo sentido religioso e solicitando a “bênção” precisamente de Nossa Senhora da Piedade para todos. Homem fluente e eloquente, o padre Gil era, sem dúvida, um grande orador. Não tinha um discurso piegas, não manifestava uma religiosidade fechada e não tinha uma visão conservadora da vida. Ele revelava abertura e optimismo, naquele seu discurso magnânimo, realçando os valores da religiosidade popular. E o que era curioso, pelo menos para mim, era que quanto mais ele se empolgava nas palavras e mais realçava os sentimentos do bom povo de Ponta Garça mais as “velhas” – perdoem-me a expressão – choravam, muitas de terço na mão e de negro vestidas. Choravam mesmo! E muito! Tenho saudades de Ponta Garça, dos meus avós, de muitas pessoas conhecidas e também dessas lágrimas, expressão de beleza sentimental e de pureza humana.TOMÁS QUENTAL