DIÁSPORA DE IDENTIDADE AÇORIANA o suicídio

“Com o crescente número de suicídios na nossa Região torna-se prioritário construirmos redes sólidas de cuidados em saúde psicológica”

Carla Dias
Atlântico Expresso
Segunda-feira, 18-6-2018

Source: DIÁSPORA DE IDENTIDADE AÇORIANA

 

Manuel Leal shared a link.

“Com o crescente número de suicídios na nossa Região torna-se prioritário construirmos redes sólidas de cuidados em saúde psicológica”

Carla Dias
Atlântico Expresso
Segunda-feira, 18-6-2018

Carolina Ferreira, psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde com Especialidade Avançada em Psicologia Comunitária, fala sobre perturbações depressivas que afectam 1 terço da população açoriana. São mais as mulheres que sofrem destas patologias mas 1 em cada 4 pessoas em todo o mundo sofre ou vai sofrer de depressão. A psicóloga enumera alguns factores que podem desencadear essas perturbações e, tendo em conta o aumento de casos de suicídio na Região, têm de ser criadas “redes sólidas de cuidados em saúde psicológica, onde todos os indivíduos possam beneficiar de programas de prevenção e intervenção, com equipas multidisciplinares, em saúde psicológica”.

Uma das suas áreas de intervenção são as perturbações depressivas. Nos últimos tempos nota que a prevalência destas perturbações tem vindo a aumentar? Dados de 2017 divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), indicam que mais de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão, equivalentes a 4,4% da população mundial. Estando este número a aumentar, particularmente em países de baixo rendimento. O número total estimado de pessoas vivendo com depressão aumentou 18,4% entre 2005 e 2015, reflectindo o crescimento geral da população global. Mais de um quinto dos portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica (22,9%). Portugal posiciona-se em segundo lugar da lista de países da Europa com a prevalência mais elevada de doenças psiquiátricas, sendo apenas ultrapassado pela Irlanda do Norte (23,1%). Entre as perturbações psiquiátricas, as perturbações de ansiedade são as que apresentam uma prevalência mais elevada, seguidas pelas perturbações depressivas. A depressão afecta ao longo da vida cerca de 20% da população portuguesa e é considerada a principal causa de incapacidade e a segunda causa de perda de anos de vida saudáveis. Uma em cada quatro pessoas em todo o mundo sofre, sofreu ou vai sofrer de depressão.

Qual a faixa etária e o sexo em que tal mais acontece? De acordo com a OMS, a depressão, em termos mundiais, é mais prevalente no feminino (5,1%) do que no masculino (3,6%). As taxas de prevalência variam de acordo com a idade, atingindo o pico na idade adulta (acima de 7,5% entre as mulheres com 55-74 anos e acima de 5,5% entre os homens). A depressão também ocorre em crianças e adolescentes com idade inferior a 15 anos, mas com menor incidência comparativamente aos grupos etários mais velhos.

Pode-se considerar que nos Açores esses números são preocupantes? O Relatório Intercalar de Avaliação do Plano Regional de Saúde publicado no final de 2018 revela que um terço da população açoriana (32%), com idade entre os 20 e os 74 anos sofre de alterações psicológicas, não especificando de que tipo. Nos Açores, não existem números actualizados sobre a depressão, sendo extremamente importante fazer um estudo epidemiológico, utilizando os mesmos critérios do estudo feito a nível nacional em 2013. O 1o relatório do Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental, de responsabilidade de investigadores do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, não inclui dados dos Açores, foi editado em 2013.

Quais os primeiros sintomas a ter em atenção? A depressão, ainda é, uma doença muito criticada e com alguns mitos associados, na nossa sociedade. Importa desmitificar e explicar o que é isso de Depressão. Por vezes, ouvimos esta palavra mas não sabemos o que é nem como se manifesta. A depressão não é “fita” nem “falta de força de vontade” ou “fraqueza”. A depressão não se resolve com “pensamento positivo” nem basta a pessoa “reagir””. A depressão é uma doença tal como a diabetes, ou qualquer outra doença do foro físico. Comummente usamos a expressão “estou deprimido quando nos sentimos tristes e muito insatisfeitos com algum aspecto da nossa vida. Mas, normalmente, estes sentimentos passam. É normal sentirmo-nos tristes e infelizes com a perda de algo e/ou alguém (ex: divórcio; desemprego; morte, etc.). Estas reacções emocionais são adequadas à situação que estamos a viver e têm uma duração limitada. Contudo, se estes sentimentos interferirem com a nossa vida e não desaparecerem após duas semanas, ou se estiverem constantemente a voltar, podemos estar deprimidos no sentido clínico do termo. A depressão é uma doença que se manifesta nos nossos sentimentos, pensamentos, comportamentos e no nosso corpo. Podemos sentirmo-nos tristes, desesperados ou vazios; choramos facilmente e isolamo-nos dos outros; temos dificuldade em nos concentrarmos e tomarmos decisões; culpamo-nos sobre tudo e vemos sempre o lado negativo do que acontece; abandonamos actividades que nos davam prazer, evitamos diversas situações e não nos apetece falar com ninguém; temos dificuldade em dormir ou dormimos demasiado, sentimo-nos sem energia e perdemos o apetite/comemos em excesso, consumimos mais tabaco ou álcool do que é habitual. Quando estamos deprimidos tudo se torna mais difícil de fazer e gradualmente podemos deixar de conseguir funcionar, ou seja, “fazer a nossa vida normal”. Na sua forma mais grave, a depressão pode ameaçar a nossa integridade física e fazer-nos ter vontade de desistir de viver (suicídio).

Há factores (sociais, familiares, etc.) que podem desencadear estas perturbações ou a genética é quem determina a maior propensão para estas perturbações? Existem diversos factores que podem concorrer para que se desenvolva uma Perturbação Depressiva. Por um lado podemos falar de factores exógenos, estes pertencem ao ambiente que pertence o sujeito, como por exemplo, circunstâncias adversas: profissionais, familiares, de perda, ruptura. Um acontecimento negativo na vida, como a perda de um ente querido, o desemprego, ou uma doença somática grave – bem como stress grave ou prolongado –, pode desencadear um episódio depressivo, porém, por vezes, a depressão ocorre espontaneamente e na ausência de uma causa evidente. Outros factores em interacção contribuem para o aparecimento e manutenção da depressão, incluindo factores genéticos, alterações dos níveis hormonais, determinadas condições médicas, stress, luto ou circunstâncias difíceis da vida. Qualquer um destes factores combinados pode levar a alterações na fisiologia do cérebro e a dificuldades de adaptação a acontecimentos externos e internos, conduzindo a sinais e sintomas depressivos. Actualmente a partir da pesquisa científica, a depressão tem uma componente genética, apesar de ainda não ter sido identificado um único gene que cause o início de um episódio depressivo. Muitos estudos (incluindo estudos populacionais e estudos com gémeos adoptados) têm vindo a demonstrar que a probabilidade de desenvolver uma depressão triplica em pessoas cujos progenitores ou irmãos apresentam depressão em comparação com pessoas que não têm um familiar deprimido. Por outras palavras: as pessoas de famílias em que a depressão está estabelecida são mais propensas a desenvolver a perturbação. Porém, para que a perturbação se desenvolva, é necessário que outros factores estejam igualmente presentes. É pouco provável que um único factor isolado cause uma depressão. Por conseguinte, a depressão é biopsicossocial e o seu desenvolvimento varia de pessoa para pessoa. Isto significa que, para explicar o desenvolvimento da depressão, é necessário ter em conta a interacção de factores biológicos e psicológicos. Ambos os aspectos constituem os dois lados da mesma moeda. Esta interacção de aspectos psicossociais e neurobiológicos é não só importante no desenvolvimento da depressão como no desenvolvimento de todas as outras perturbações mentais. Estes factores podem interagir ao nível da predisposição ou resiliência, do desencadeamento da perturbação, ou da sua manutenção ou resolução.

Ultimamente temos assistido a algumas situações em que pessoas que aparentemente “tinham tudo” (como se costuma dizer) acabam por cometer actos que quem está à volta muitas vezes não compreende e nem se apercebe. Quem sofre de depressão, sofre muitas vezes “para si”? O que é isto de “ter tudo”? A minha concepção de “tudo” poderá ser diferente da de quem me rodeia. Sendo difícil compreendermos o que o outro pensa, sente e faz. E aí devemos nos centrar no conceito de bem-estar, em que cada indivíduo percebe o seu próprio potencial, lida com as adversidades e é capaz de dar um contributo para a sua comunidade. No entanto, quando vivemos perdas sucessivas, nos sentimos um fracasso, sobrecarregados por problemas económicos ou familiares, ou mesmo sem sabermos bem porquê, podemos ficar presos na nossa dor e acreditar que não existem soluções para os nossos problemas, não conseguindo percepcionar este bem-estar. Sentimo-nos impotentes para mudar a nossa vida e a ideia de morrer, de suicídio, dá-nos a ilusão de algum conforto e controlo sobre a situação. Muitas vezes fala-se de suicídio com uma certa leveza, criando um debate que gira em torno de dois “pólos”, o da cobardia e o da coragem. Ambos inexistentes nesta situação, onde apenas está presente um sofrimento profundo. Os pensamentos e sentimentos suicidas podem ser aterrorizantes. Quando já não conseguimos ver nenhum propósito ou sentido em continuarmos a viver, os nossos sentimentos podem parecer insuportáveis. Podemos odiar-nos e acreditar que somos inúteis, que não fazemos falta a ninguém e que ninguém gosta e se importa realmente connosco. Podemos sentir raiva, vergonha e culpa. Muitas vezes isolamo-nos dos outros e é difícil partilhar com a família e os amigos o quão mal nos sentimos. Às vezes nem para nós próprios é assim tão claro que queremos morrer. Podemos sentir-nos indiferentes, confusos ou ter a esperança que alguém nos compreende e nos ajude. Muitas pessoas experienciam vontade de se suicidar e pensamentos suicidas como parte de um problema de saúde psicológica ou quando experienciam problemas de saúde física graves e dolorosos. Com o crescente número de suicídios na nossa Região, torna-se prioritário, sim, construirmos redes. Redes sólidas de cuidados em saúde psicológica, onde todos os indivíduos possam beneficiar de programas de prevenção e intervenção, com equipas multidisciplinares, em saúde psicológica.

Quem se sente nestas situações, que tipo de ajuda pode procurar? O acesso aos cuidados de Saúde Psicológica é limitado. Em Portugal, 65% das pessoas que sofre de problemas de Saúde Psicológica não recebe ajuda. Apesar das evidências científicas apontarem a existência de Psicólogos e de intervenções psicológicas como estratégias custo-efectivas no tratamento, prevenção e promoção da Saúde Psicológica, existem poucos Psicólogos integrados no Sistema Nacional de Saúde. “Um psicólogo pode ajudar a resolver os seus problemas, a lidar com os seus sentimentos difíceis, a gerir uma crise, a melhorar as suas relações ou a desenvolver formas melhores e mais funcionais de viver a sua vida. Um psicólogo pode ajudá-lo a encontrar uma saída”. Consultando o site www.encontreumasaida.pt, projecto da autoria da Ordem dos Psicólogos Portugueses, poderá pesquisar de acordo com a sua localidade e encontrar os Psicólogos (Geo-referenciados) a exercer nas diferentes entidades e áreas de intervenção. Poderão também dirigir-se ao seu Médico de Família ou a um Médico Psiquiatra.

Antigamente ir a um psicólogo era visto com algum desdém e era escondido por quem procurava esta ajuda profissional. Ainda há esse “estigma” ou sente que as pessoas já procuram cada vez mais ajuda profissional? Gradualmente este estigma tem se vindo a esbater. A criação da Ordem dos Psicólogos Portugueses (2010) contribuiu para a valorização do Papel do Psicólogo e para a divulgação do seu contributo nos diferentes contextos. O Psicólogo procura compreender e melhorar o funcionamento das pessoas, dos seus pensamentos, sentimentos e comportamentos. As pessoas ainda associam muito a intervenção do Psicólogo enquanto clínico desconhecendo que podemos trabalhar em diferentes contextos, como instituições sociais, escolas e universidades, prisões, empresas, lares ou centros de reabilitação, etc. Não é necessário ter um “problema” para procurar a ajuda de um Psicólogo. Um Psicólogo pode ajudar quando queremos construir uma boa auto-estima, alterar traços e características psicológicas em nós próprios ou simplesmente conhecermo-nos melhor. Ou quando temos um sentimento geral de que algo não está bem e queremos descobrir e criar significado para as nossas vidas. É claro que um Psicólogo também pode ajudar a resolver perturbações da saúde mental, como a depressão, a ansiedade, as fobias, a perturbação de pânico, as perturbações alimentares, os problemas relacionados com o stress, os problemas nas relações com os outros, as adições ou as perturbações mentais graves. Um Psicólogo pode ajudar qualquer pessoa – um executivo de uma grande empresa, um estudante ou um desempregado; crianças, adolescentes, adultos ou idosos; pessoas saudáveis ou que sofram de uma doença incapacitante ou até terminal; homens e mulheres de qualquer raça ou religião. Todos nós, por diferentes motivos e em diferentes momentos da nossa vida podemos beneficiar da ajuda de um Psicólogo.

Se sim, deveria haver algum plano regional de combate? Ou se já existe, o que falta fazer para ser mais incisivo? Se não são preocupantes os números, há a possibilidade de virem a ser a este ritmo? A Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos tem vindo a desenvolver esforços para a implementação, na nossa região, do Programa de Prevenção da Depressão, estando a decorrer em modo experimental em algumas Ilhas. Apesar da elevada prevalência dos problemas de saúde psicológica nos Açores, consumo elevado de psico-fármacos, número crescente de suicídios, o número de psicólogos no Sistema Nacional de Saúde é reduzido. Como anteriormente referido, Portugal tem uma das mais elevadas prevalências de doenças mentais da Europa e que uma percentagem importante das pessoas com doenças mentais graves permanece sem acesso a cuidados de saúde mental. Torna-se determinante tomar uma atitude decisiva de modo a considerar a saúde psicológica como uma das prioridades chave, isto implica o fomento de intervenções que envolvam a comunidade e que favoreçam o acesso das pessoas a cuidados de saúde, integrados e transdisciplinares. Sendo fundamental implementar uma política de saúde mental integrada, global e acessível a todos os que necessitem destes cuidados de saúde. Precisamos de uma sociedade mais consciente dos problemas de Saúde Psicológica e de expandir a capacidade de resposta aos problemas de Saúde Psicológica através de intervenções psicológicas eficazes. Embora, às vezes, desvalorizemos a importância dos problemas de Saúde Psicológica, eles podem ser tão maus (ou piores) do que qualquer outro problema. São responsáveis por 40% dos anos de vida saudável que perdemos e são mais debilitantes do que a maior parte dos problemas de saúde física. Interferem com a nossa capacidade de realizar as tarefas do dia-a-dia, de trabalhar, de aproveitar os tempos livres e de manter relações saudáveis com os outros. A Saúde Psicológica é fundamental para aumentar a qualidade de vida e promover o desenvolvimento económico e social. Sem Saúde Psicológica não há Saúde.
Carla Dias

ENCONTREUMASAIDA.PT
Campanha de sensibilização da Psicologia em Portugal

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