SUICÍDIOS NOS AÇORES, Quanto vale uma vida? , CARMEN VENTURA

Por Cármen Ventura
Quanto vale uma vida?
Quantas vidas foram interrompidas nos últimos dois ou três anos nos Açores?
Dez? Vinte? Trinta?
Só nos últimos dias, foram mais duas vidas.
O sobressalto começa a deixar de ser isso mesmo, sobressalto, para passar a ser considerado “mais um”.
As vidas interrompidas, as que se vão sabendo, porque muitas outras não são do conhecimento público e nem engrossam as estatísticas, começam a criar uma angústia difícil de descrever.
Se, na verdade, cada um sabe de si e dos motivos que poderão levar alguém, jovem, a pôr termo à vida, a verdade é que não podemos ficar indiferentes.
Alguma coisa não vai bem …e não vai bem desde há muito tempo. Não basta dizer que o suícido tem muito de imitação… não basta dizer que é preciso “vedar a ponte”… não basta dizer que a depressão é a doença do século XXI… não basta dizer que se vai estudar o assunto.
Nos Açores, e desde há muito, vive-se a várias velocidades.
Há os que não precisam fazer contas à vida.
Há os que vivem de subsídios e os gerem conforme lhes dá na real gana, na certeza de que, dificilmente, passarão fome.
Há os reformados que vivem de pensões e reformas miseráveis.
Há os que vivem decidindo, mês a mês, se compram comida e pagam as contas ou se vão à farmácia.
Há os que não sabem como arranjar trabalho.
Há os que estudam, mas não sabem bem para quê.
Outros, e começam a ser muitos, que simplesmente cansaram-se de viver. Os motivos??? Deverão ser muitos, ou talvez nem por isso.
O certo é que há uma franja larga de açorianos que parece dissociada da sociedade em que vive e, para esta, o discurso político há muito que não existe.
Uma sociedade em que, é rara a semana, não tem alguém a pôr termo à vida, é uma sociedade doente. E pior que doente é ver que a notícia e a revolta, ou até mesmo comentários de alguma leviandade, apenas enchem as páginas das redes sociais.
Parece normal, mas não é nem pode ser quando se lê, sem apelo nem agravo “matou-se”, “atirou-se”… como se estivessemos a falar de qualquer coisa que não uma vida humana.
Hoje, discute-se a eutanásia, a mudança de sexo aos 16 anos de idade, a entrada de animais nos restaurantes, e tanta outra tolice.
A vida humana, essa parece que perdeu valor.
Não faz qualquer sentido anunciar que se vai fazer estudos sobre a depressão, quando, para uma primeira consulta de psiquiatria, a lista de espera é, no mínimo, de dois anos; quando milhares de açorianos não têm médico de família; quando milhares de açorianos não têm, simplesmente, dinheiro para irem a uma consulta na privada.
“A depressão é uma doença silenciosa”, é a desculpa para não se discutir o problema.
As tentativas de suicídio que têm chegado, quase diariamente, ao Hospital de Ponta Delgada não são invenção jornalística. As “tentativas” que, mesmo em contexto de internamento, têm sido tentadas, são preocupantes e devem merecer reflexão e alerta.
O silêncio, sobre este assunto difícil e complexo, é sepulcral. E assustador é o discurso político a que assistimos no dia a dia, porque completamente dissociado dos reais e verdadeiros problemas da vida que vivemos todos os dias.
Nos Açores, o discurso político vive de modas: “protecção da criança”, mas engrossam os números das que são alvo de “agressão” vária; “combate à violência doméstica”, mas amiúde os jornais continuam a publicitar testemunhos de que ela existe e não se resolve com seminários e conferências; “protecção ao idoso”, mas só quem nunca precisou de colocar um parente num lar é que desconhece o problema; campanhas e estudos e planos de combate ao alcoolismo, mas há mais de dois meses que largas centenas de doentes não têm qualquer medicação e os efeitos já só se contam à “vizinha” e nos “consultórios”.
Sobre o “suicídio”, urge que se faça qualquer coisa. Não é normal, que os números cresçam a olhos vistos. Não é normal que seja perpetrado por pessoas com idades entre os 30 e pouco mais de 50 anos. Não é normal que família, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, ninguém perceba os sinais ou ninguém queira saber. Tornamo-nos todos egoístas? Vivemos todos enebriados nas “bolhas” que criamos onde só existe o “eu”?
A Educação e a Saúde precisam ser as verdadeiras prioridades dos Governos.
Menos festa e mais preocupação, verdadeira preocupação, com o que realmente interessa à vida de todos nós é o que os açorianos precisam. (Carmen Ventura)

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Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL
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