Tomás Quental · Presença açoriana em Florianópolis: injustiça e indelicadeza para com João Gago da Câmara

Tomás Quental
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Presença açoriana em Florianópolis: injustiça e indelicadeza para com João Gago da Câmara

É óbvio que o meu amigo e antigo colega jornalista João Francisco de Andrade Gago da Câmara – João Câmara no Facebook – não precisa de advogados, nem eu tenho vocação para tal. De qualquer modo, por um dever de consciência e também numa manifestação de amizade, quero expressar publicamente a minha indignação e tristeza por ele não ter sido convidado a participar e a intervir no “Congresso Internacional dos 270 Anos da Presença Açoriana em Santa Catarina”, que decorrerá nos dias 18, 19 e 20 deste mês de Abril, na cidade brasileira de Florianópolis.
Pelos vistos, é necessário recordar às memórias curtas de lá – e, se calhar, também de cá… – que ele é autor, com muito mérito, da obra “Dos Vulcões ao Desterro”, que tem a marca do jornalista dedicado, experimentado e competente que ele é.
“Dos Vulcões ao Desterro” é um livro que resulta de uma reportagem em dois momentos que o João realizou há vários anos a Santa Catarina, no Brasil, tendo desenvolvido um trabalho pioneiro e muito valioso de recolha de depoimentos junto de descendentes dos açorianos – ou “açoritas”, como dizem com graça os brasileiros – que emigraram, em condições muito difíceis, para o sul do país irmão, então uma colónia portuguesa, há 270 anos, deixando um legado cultural ainda muito vivo.
Já havia bibliografia diversa sobre esta emigração açoriana para a ilha de Santa Catarina – a “décima ilha açoriana”, como é por muitos considerada -, mas a verdade é que quem quiser conhecer e estudar esse fluxo emigratório, as suas causas e influências na sociedade local tem de forçosamente ler ou consultar o livro “Dos Vulcões ao Desterro”, porque é, de facto, um documento histórico: estão aqui trinta entrevistas com descendentes de açorianos, que descrevem as experiências que os seus antepassados açorianos viveram, uma informação que foi passando de geração em geração. Se o João não tivesse recolhido e gravado esses depoimentos, acabaria por se perder um enorme manancial de rica informação, até porque alguns dos entrevistados já faleceram, o que confirma o que acabei de dizer.
Esta obra tão rica de informação enquadra-nos nas muitas dificuldades que esses emigrantes açorianos enfrentaram ao partirem para o sul do Brasil, em viagens que duravam cerca de noventa dias, em navios à vela sem quaisquer condições para transportarem pessoas, que passaram muitas necessidades de toda a ordem e muitos morreram pelo caminho, sendo os cadáveres lançados ao mar, a única solução possível…
Como diz numa entrevista publicada no livro um historiador descendente dos emigrantes açorianos, foi um misto de “bravura” e de “loucura” essa emigração de cerca de seis mil açorianos para Santa Catarina, entre 1748 e 1756. Já tinham ocorrido emigrações açorianas para o Brasil, como também ocorreram emigrações posteriores, mas a emigração para Santa Catarina – principalmente para a localidade de Nossa Senhora do Desterro, actual cidade de Florianópolis, capital da ilha e do estado de Santa Catarina – foi a maior e a mais localizada.
O legado açoriano em Santa Catarina, passados 270 anos, mantém-se com influências na expressão linguística, na literatura, na religiosidade (exemplo das festas em honra do Divino Espírito Santo), na arquitectura civil e religiosa, no folclore, na gastronomia (exemplo da massa sovada), nos bordados e em outras manifestações artísticas e de diversão, como a farra do boi, que é uma adaptação da tourada à corda, tão característica da ilha Terceira.
Com esta obra “Dos Vulcões ao Desterro”, o João prestou um relevante serviço à História e à Cultura destas duas “irmandades”, como ele muito bem diz, precisamente Santa Catarina e os Açores, proporcionando-nos um livro amadurecido, bem organizado, com 50 capítulos e 215 páginas.
No entanto, no preciso momento em que se comemoram os 270 anos da presença açoriana em Santa Catarina, a organização do Congresso Internacional “esqueceu-se” de o convidar, como era de toda a justiça. Lamento profundamente a injustiça e também a indelicadeza! E mais lamento ainda se houve “mão” açoriana nessa desconsideração, a todos os títulos imerecida. Não podia deixar de dizer isto!