crónica de António Bulcão Enredo carnavalesco

António Bulcão
42 mins ·
Enredo carnavalesco

-Papá, o bebé quer ser engenheiro, quando for grande…
– Bebé, isso não vai ser possível. O papá tem outros planos para ti.
– Ai ai ai, o bebé vai chorar. E bater o pé. Quer ser engenheiro ou economista.
– Fazes malcriações e levas, para chorares com razão. O papá já disse e não vai repetir. Quando cresceres não vais estudar mais que o 12º ano. A escolaridade obrigatória e mai nada…
– O bebé fica triste e pode até fazer greve da fome. Rejeitar mamilos e tetinas até definhar…
– Ponho-te a soro até te voltar a vontade de mamar. Tens de treinar a mama desde o berço.
– O papá é mau. Se o bebé não pode seguir a sua vocação, e repare-se que sou precoce ao ponto de saber palavras bem difíceis ainda antes de gatinhar, se não posso seguir a minha vocação, repito, como vou ganhar a vida?
– Ah com isso não te preocupes, meu filho. Já assegurei o teu futuro. Quando tiveres estudado o mínimo dos mínimos que o Estado impõe, vais ser deputado e tens a vida feita.
– Deputado, papá? Que profissão é essa?
– Não é bem uma profissão, bebé. Mas ganha-se mais que a trabalhar, despesas pagas, viagens, sem horários nem grandes obrigações…
– Mas, papá, não é o povo que decide quem o vai representar? Note-se mais uma vez o quão adiantado estou, agora não apenas no léxico, mas também em noções básicas de Ciência Política, “in casu” (e que fique para a posteridade que domino o latim) o princípio da democracia indirecta?
– Claro que o povo é quem mais ordena. Mas há maneiras de tornear essa questão. Olha o exemplo do papá. Aos anos que anda nisto. Diz lá: tenho-me dado mal? Já vos faltou alguma coisa em casa?
– Não, papá. Pelo contrário, temos uma rica vida. Mas não vai dar mau aspecto? O Papá arranja cargos para a família toda, o titi, a mamã, a prima, a mulher do titi, não vai parecer estranho que também o filho siga os mesmos passos, estudos básicos e toca para a política?
– Não dá mau aspecto nenhum, meu lindo rebento. Pelo contrário, asseguramos uma dinastia. O povo adora a monarquia. Gosta de reis. O dia da implantação da República é apenas mais um feriado para ficar em casa. Mas do que a malta gosta é de se rever em figuras como eu sou e tu vais ser e, se tiveres juízo, os teus filhos e netos hão-de também conseguir….
– Ó papá, começo a gostar da ideia. Mas vamos a coisas práticas. Por exemplo quando for visitar uma escola. Tenho um discurso a incentivar as crianças e jovens a apostarem na sua formação, a prosseguirem estudos, a serem o mais qualificados possível, e se me salta algum a perguntar por que é que eu não fiz isso, se é tão bom?
– Respondes com a velha máxima de eles fazerem o que dizes e não o que tu fazes.
– Mas a mulher de César não tem de parecer além de ser?
– Onde é que foste buscar agora isso? Tenho de arranjar maneira de não teres acesso a certos canais de televisão. E ficas proibido de andar a navegar na net.
– Ó papá, tens de concordar que é muito estranho eu aparecer a defender os trabalhadores sem nunca ter trabalhado… Não poderá haver um ou outro que me mande trabalhar? Ou, até, que me chame malandro?
– Aí só tens de perguntar onde trabalha o filho dele. Quase de certeza que trabalha para nós, numa Secretaria, numa Direcção, numa Câmara, numa empresa pública, num programa. Se não trabalhar para nós depende de certeza do rendimento mínimo. Vais ver que se cala logo, o trabalhador insolente.
– Papá, papá, estou convencido. Quero ser político. Deputado, importante como tu, aparecer na televisão todos os dias a dizer coisas…
– Boa, bebé. Assim é que eu gosto. Vou-te oferecer um telemóvel de uma geração que ainda não foi inventada. E agora põe-te de costas para eu ver se tens cocó e te mudar a fralda.
António Bulcão
(publicado hoje, no Diário Insular)

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