Prémio Igrejas Caeiro distingue radialista José Manuel Nunes -nota do editor o Zé Manel Nunes foi o meu primeiro chefe em 1967…

Source: Prémio Igrejas Caeiro distingue radialista José Manuel Nunes – Atualidade – SAPO 24

o Zé Manel Nunes foi o meu primeiro chefe em 1967 como se pode ler algures no livro ChronicAçores 7.4. volume 1
7.4. JORNALISMO, UM APRENDIZ DE FEITICEIRO
Em 1967 começara JC a sua longa carreira de jornalista da forma mais casual possível ao fazer a reportagem do Circuito Internacional de Vila Real e da Fórmula 3. Vendera um exclusivo à Rádio Renascença para quem haveria de trabalhar até sair de Portugal em 1973. A história começa duma forma bem mais prosaica. Estava convidado em Vila Real pelo seu tio que era à data Diretor Clínico do Hospital e responsável médico pela prova.
Calmamente assistiam na bancada principal às provas quando se deu um grande acidente com um corredor chamado Tim Cash, segundo a reminiscência que guarda do incidente. Como falava bem inglês, fora chamado para servir de intérprete. Acabara a entrevistar o acidentado, gravando tudo no seu portátil que já o acompanhava nesses dias para toda a parte. Quando saíra do hospital era lógico que todos queriam saber o que se passava (o homem salvou-se) e limitara-se a ver quem lhe oferecia mais pela fita (naqueles tempos ainda não havia cassetes). Ganhou a alta soma de 500$00 pelo feito.
Mais tarde cingira-se a escrever para a Rádio Renascença numa clara demonstração de saber aproveitar as oportunidades. Oferecera-se para colaborar com eles em futuras provas. A RR achara que o jovem JC tinha pinta e dignaram-se aceitá-lo como colaborador de automobilismo para a Zona Norte. Foi trabalhar com o célebre e popular programa Página 1 de José Manuel Nunes, com colaboradores como Joaquim Amaral Marques, Adelino Gomes, Pedro Castelo. Era o programa de rádio mais ouvido e logo à primeira tentativa tinha entrado. Viriam a ser notáveis as coberturas que fariam dos eventos desportivos a norte do país.
Curiosamente, uma das notícias mais importantes que transmitira fora a morte de Otis Redding, num desastre de aviação em 10 de Dezembro de 1967. Isto porque não se usavam frequentemente telexes (quem se lembra deles hoje?) e JC passava a vida a ouvir estações piratas como a Rádio Caroline, Rádio Luxemburg, onde tinham acabado de dar a notícia. Nessa altura as notícias do mundo demoravam dias a chegar às redações dos jornais e das rádios. Não só nessa época. Mais tarde, em plena década de 1990, ainda enviava os seus despachos para a agência Lusa, para a Rádio Macau (TDM/RTP) e, mais tarde, para o jornal Público através de telex. Tinha de o ir enviar à baixa de Sidney. Chegava a Lisboa e ao jornal, provavelmente, com mais de um dia e meio de atraso.
O sistema de reportagem foi-o desenvolvendo e melhorando ao longo dos tempos, sem lições de ninguém porque nunca fora feito antes. Inicialmente não lhe pagavam nada, depois começaram a pagar as despesas, gasolina, telefones e alimentação. Por fim, já tinha uma avença e pagava aos seus colaboradores em cada prova. Era um dos dois maiores sonhos da sua juventude: ser advogado e seguir a carreira diplomática ou ser jornalista. Desde os 12 ou 13 anos que sonhava com essas profissões. Este já cá cantava, da outra desistiria. Viria a não diplomaticamente acabar por dar muitas voltas ao mundo sem ser advogado.
Numa primeira fase fazia a cobertura de eventos motorizados com o seu melhor amigo e piloto de competição em ralis, o Taka e ocasionalmente um primo ou um amigo juntava-se a eles. Iam ver as classificativas cronometradas mais importantes e seguiam em busca dum telefone para dar os tempos desse troço cronometrado. A seguir começaram a ter mais de um carro para fazer a cobertura e podiam ter várias equipas a transmitir os dados à medida que os concorrentes iam percorrendo os vários troços. Era a verdadeira cobertura em direto e ao vivo. Já nessa época se vivia com muita intensidade a febre dos Ralis em Portugal. Havia gente em todos os montes e serras, fosse a que hora fosse. Por mais ermo e deserto que fosse o local havia lá gente.
Nos primeiros anos o que os identificava perante os polícias era um cartão retangular prensado com a palavra PRESS a branco sobre fundo vermelho. Depois mandaram imprimir autocolantes com a identificação da estação emissora e do programa. Havia um gravador portátil de cassetes e um par de auscultadores de estúdio para as entrevistas, à partida e à chegada, com uns fios esquisitos que serviam para transmitir o som através do telefone. Reportagem na hora com meios improvisados e inventados por jovens como ele. Uma vida excitante para um adolescente que lhe permitia não só contactar com todos os pilotos, como com os organizadores, equipas de assistência, e com as jovens que eram atraídas para este tipo de eventos. Que mais podia desejar? Isto tudo e ainda lhe pagavam para ouvir a sua voz na rádio.
Foram, anos e anos sempre a correr, vividos intensamente entre ralis e treinos num velho Opel Kapitän 1958 ou num Volvo “Marreca” PV 544 de 1959 percorrendo tudo o que era estrada municipal ou caminhos de cabras. Uma vez numa florestal, perto de Gondarém (à saída de Viana do Castelo), saíra uma manada de vacas à sua frente e quase que embatiam num pelourinho. Raramente saíram da estrada. Exceção feita ao primeiro rali de iniciados que fizeram em que depois de partirem de Santa Luzia (Viana do Castelo, de novo) embateram fortemente com um penedo. O motor ficou no lugar do pendura e a roda sobressalente veio para o seu lugar. O carro ficou com a frente desfeita. JC teve umas equimoses e hematomas nas costas, os quais depois de devidamente tratados no hospital de Viana nunca viriam a ser do conhecimento de ninguém. Tão abalado ficara com o acidente que saíra do carro a correr a cantarolar, sem razão aparente, “Corre Nina” do Paulo de Carvalho, para logo a seguir voltar para tentar desligar o corta-corrente com medo de que deflagrasse um incêndio.
O seu pai desesperava quando ia sair com o Taka de carro, e recusava deitar-se até JC chegar. Pois bem, se na maior parte das vezes, a noitada não excedia as duas da manhã, muitas vezes houve em que quase chegavam ao amanhecer. O pai ficava na salinha da televisão, a ler, ou a dormitar, fumando cigarro atrás de cigarro, incapaz de adormecer sem ter a certeza de que o filho chegava são e salvo. Bem deve ter passado as passas do Algarve enquanto JC estava nesta fase difícil. Muitas vezes quando tentava meter a chave na fechadura já lá estava o pai vindo do escuro a abrir a porta e a ralhar-lhe. Foram anos e anos assim, não estudava o suficiente e só se dedicava a carros e a namoricos.
Ao longo dos cinco anos seguintes percorreram Portugal (mais de um milhão de quilómetros era a estimativa da época) por estradas que nunca nenhum cristão visitara. Numa das vezes entraram numa aldeia cujo nome foi esquecido (algures entre Vimioso e Miranda, talvez Outeiro) onde nunca viatura motorizada alguma entrara até então pela porta do seu castelo. A população veio toda à rua aplaudir e fazer perguntas. Muitos nunca tinham visto um carro em toda a sua vida pois jamais haviam saído de lá. Estava-se nos anos 60 e era como se estivessem em plena Idade Média. Nas estradas mais recônditas de Trás-os-Montes raramente se encontrava movimento, para além de uma ou outra viatura pachorrenta com a sua carga ou um trator dos que começaram a surgir em Portugal por essa década. Muitas vezes iam para sítios em que nem um café existia. Noutros não havia telefones públicos. Ainda se não tinham inventado os telemóveis e a rede dos TLP, futura Telecom, era ainda incipiente nas zonas mais remotas de Portugal.
O perigo maior nessas estradas transmontanas, beirãs ou minhotas, eram os burros, as carroças ou os carros de bois e pouco mais. Ainda havia simpáticos cantoneiros a acenarem nas estradas e a cortarem as ervas das bermas. Até hoje muitas dessas estradas jamais viram outro cantoneiro e as casas dos cantoneiros estão infelizmente destruídas, desabitadas e em ruínas. Podiam até ter sido aproveitadas para pequenas unidades de turismo se alguém quisesse ou tivesse visão, mas isso era pedir muito aos portugueses. É um verdadeiro sacrilégio ver o abandono a que foram votados tantos ícones numa era em que o que existia e funcionava bem foi substituído por outras estruturas mais modernas mas que não funcionam. O desbaratar de riquezas sempre foi apanágio deste país que viveu sempre à custa dos outros, primeiro das especiarias, dos escravos, do ouro do Brasil e mais recentemente dos subsídios de Bruxelas. É uma dor de alma viajar em pleno começo do século XXI e ver pombais abandonados, casas de cantoneiros, estações da velha C.P. destruídas, com um valioso espólio, incluindo azulejos maravilhosos, ao abandono com as velhas pontes (algumas delas notáveis obras de arquitetura) e os ramais dos caminhos-de-ferro servindo para criar mato. É criminoso perderem-se as vias de pequena bitola onde dantes circulavam ronceiros os comboios que estabeleciam o contacto entre o Portugal profundo e os centros de poder. Ignóbil Estado este que assim delapida património da Humanidade!
Hoje as estradas, municipais e secundárias, estão em bem pior estado do que estavam naquela época. JC fizera centenas de milhares de quilómetros, entre 1996 e 2005, por estradas secundárias que percorrera na década de sessenta. Vira-as definharem sem melhoramentos de espécie alguma, com um ou outro remendo de alcatrão, a maior parte delas esburacada e sem manutenção de qualquer espécie, enquanto as juntas de freguesia locais e o novo IEP (Instituto de Estradas de Portugal) se digladiam a ver de quem é a competência de limpeza das mesmas.
Voltando à Rádio Renascença e ao automobilismo, JC e amigos iam acompanhando ralis e outras provas de velocidade. As últimas, em cuja cobertura estivera, foram nos Circuitos de Vila Real e de Vila do Conde onde, com o Pedro Roriz, ajudaram o já falecido José Fialho Gouveia na reportagem para a RTP. Ali tiveram o, também já falecido, Adriano Cerqueira a ajudar a contar as voltas ao circuito. Sim, porque naquele tempo ainda não se usavam computadores para contar as voltas. Havia cronómetros para calcular os tempos pois a organização ainda não dispunha de meios para facultar tais dados durante a prova. O Adriano havia acabado de regressar de África onde fizera o serviço militar e estava desejoso de se meter no automobilismo. Mais tarde seria ele, durante décadas, a face do automobilismo na RTP. JC teria a oportunidade de voltar a trabalhar com ele no Circuito de Macau em 1981 e 1982.
Cenas a registar deste período de automobilismo, para além das provas em que entrara com o seu grande amigo “Taka”, aliás de seu cognome completo “Takatakata” (Ludgero Carvalho de Abreu) quer no seu BMC Míni 1000 e num Cooper S 1275 cc, ou no seu Ford Escort Cosworth Lótus 1600, existem muitas. Convirá aqui referir que Joel Azara era o autor dos desenhos animados ou banda desenhada maravilhosa do piloto kamikaze Takatakata. Um piloto de óculos, desajeitado, desafortunado e persistente sempre nas suas missões kamikaze, tal como o seu amigo em treinos de ralis. Uma das primeiras provas em que entraram com o Lotus fora no campeonato nacional de iniciados 1971 organizado pelo clube Estrela e Vigorosa Sport, dirigido por Matos Chaves e Luiz Canedo (falecido em 2005). Boas recordações dos perigos que corriam naquela época. Uma noite, num reconhecimento ao pé de Entre-os-Rios, ficaram com o carro suspenso numa curva. Só se ouvia o som das águas lá em baixo. Quando a manhã surgiu viram onde estavam. Foram salvos (humilhação das humilhações!) por um carro de bois que os retirou do precipício. Chegaram a casa pelas oito da manhã quando todas as famílias já tinham corrido os hospitais e a polícia a saber deles.
Outra vez, no Minho, na região da Serra da Cabreira quando tentava pedir a alguém que o deixasse utilizar o telefone fixo (ainda não havia telemóveis naqueles dias) foram recebidos com uma carga de tiros de caçadeira que mal lhes deu tempo de correrem para o carro e pôr-se em fuga. Isso viria a dar-lhe a luminosa ideia de passarem a ter telefones de campanha instalados nas provas cronometradas (no início e fim dos troços) o que foi feito pela primeira vez nos ralis e provas de velocidade. Passavam a ter um ascendente enorme sobre os restantes repórteres com o envio em tempo real dos resultados dos troços cronometrados. Fora a primeira vez, no mundo, que se procedera assim. Ainda neste período (talvez em 1971) no velho Estádio das Antas puseram, pela primeira vez, um microfone dentro do carro, enquanto o então campeão nacional (Francisco “Xico” Santos) dava as suas voltas à oval do estádio. Foi também a primeira vez no mundo que se utilizou um meio de transmissão radiofónica dum carro em prova, coisa que hoje é banal com as câmaras de vídeo e imagem a serem colocadas em todos os pontos das pistas e nos carros. Talvez tenha sido a coisa mais inovadora que JC fez em toda a vida.
Era comum faltar às aulas na universidade e ir acordar o Taka para tomarem café a Guimarães, almoçarem em Valença e dar um salto ao Gerês. Convém lembrar que nessa altura era nas velhinhas estradas nacionais, estreitas e cheias de curvas, passando por tudo que era aldeia e lugarejo, que se faziam as viagens. Uma média superior a 30 km/h não era nada má. Uma viagem do Porto a Vila Real fazia-se num tempo recorde de duas horas (eles fizeram-no em 92 minutos) para pouco mais de cem quilómetros. Uma ida do Porto a Lisboa, antes da autoestrada, era uma proeza para mais de três horas e meia (fizeram-no em duas horas e dez minutos). Os condutores “normais” chegavam a demorar cinco horas ou mais. Arrepiava-se hoje de pensar nessas viagens. Outras vezes aproveitavam feriados como o do 1º de Dezembro (princípio dos nevões de inverno) para irem dar uma volta maior. Normalmente era até ao Gerês para verem o espetáculo das primeiras neves do ano, ou até ao Alvão e Marão. Outras vezes iam mais longe.
Assim aconteceu em 1970 quando levara o Taka e um primo a Trás-os-Montes passando por Vila Real, Bragança, Vimioso, Azinhoso, seguindo depois até à Serra da Estrela. Dessa vez ficaram a dormir no Azinhoso, depois de terem passado a reta de Vale da Madre (antes de chegar a Mogadouro) a mais de 120 km/h no Austin Cooper S já debaixo dum forte nevão. Na Serra da Estrela, sem terem correntes para os pneus, a tarefa de chegar às Penhas foi difícil e envolveu um auto atropelamento. Um deles ficava na curva a dizer se o Taka podia tentar subir. Como o gelo era muito, o seu primo foi apanhado pelo capô do Mini e foi a deslizar estrada abaixo durante vários metros. Lá chegaram ao cume perante o ar incrédulo de todos os outros automobilistas devidamente equipados para aquele clima. O pior foi que não conseguiram dormir em sítio nenhum pois não havia vagas. Nem a sua canção do bandido a uma empregada de mesa serviu para dar direito a um teto num quarto de pensão. Foram para o alto da gélida cidade da Covilhã junto ao cemitério, e tentaram dormir alguma coisa sem morrerem de frio. De duas em duas horas tinham de ligar a chauffage do carro para se aquecerem minimamente pois não tinham levado roupa especial. Uma noite inesquecível da qual se lembrava sempre que passava pela Covilhã. Ali estivera em Maio 1969 com o Teatro Universitário na estreia da peça de Lope de Vega “Fuenteovejuna”.
Embora as suas notas de admissão à Faculdade fossem excelentes, a mudança de tipo de ensino foi (de novo) traumatizante pois custou-lhe imenso a adaptar ao novo ritmo e às exigências de trabalho. Sentia que era apenas mais um número e não uma pessoa como estava habituado a ser tratado no liceu. Aqui cada um era deixado à sua sorte e que se desenrascasse. Começara com atividades extracurriculares tais como o Teatro, do qual tinha já dois anos de experiência liceal.
A sua estreia pelo TUP (Teatro Universitário do Porto) ocorreu a 22 de Abril de 1969 sem a presença dos seus pais que jamais o incentivaram em qualquer das suas atividades extracurriculares. Tiveram, depois, uma digressão à Covilhã e outra a Coimbra onde presenciaram os incidentes estudantis com a PIDE a abater um estudante e o chefe da PIDE (um tal Figueiredo) na primeira fila a ver se eram todos subversivos (só alguns, diria JC dissimulando-se na sombra para não ser descoberto).
Nesse período tivera o prazer de ouvir o Mário Viegas dizer poemas seus numa sessão no TUP, depois dos ensaios (daquelas em que tomavam parte o Zeca Afonso, o Manuel Freire, e outros). Foi uma grande honra pois pressentia-se que o Mário Viegas iria longe (faleceu em 1996) na sua arte de declamação que o levou a altos voos, vários discos, programas na rádio e TV. Um dos textos que ele lera constava do primeiro volume de poesia de JC publicado em livro (edição de autor, Crónica do Quotidiano Inútil, Maio 1972). Fora também nesta fase da vida que começara a saber melhor o que custa trabalhar pois empregara-se em “part-time” na Crediverbo. Vendera Enciclopédias Verbo e outros livros entre Novembro 1970 e Março 1971, com algum sucesso financeiro.

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