o falso pioneirismo de “Dicionário de Palavras Soltas do Povo Trasmontano”.

A M Pires Cabral
1 hr ·
O SEU A SEU DONO | Vamos lá ver se pomos os pontos nos is.

Saiu recentemente uma compilação de alguns milhares de termos, a que foi dado o título de “Dicionário de Palavras Soltas do Povo Trasmontano”.
Não questiono agora a propriedade da designação ‘dicionário’ (poderei fazê-lo noutra ocasião). E saúdo a publicação, que constitui mais um esforço no sentido de preservar o linguajar em vias de extinção de Trás-os-Montes.
Mas não posso deixar de manifestar uma discordância frontal e absoluta em relação ao facto de a referida compilação ter vindo a ser apresentada como sendo o primeiro trabalho do género publicado até hoje. Meios de comunicação social, da rádio à televisão à imprensa escrita, tem acriticamente cantado loas a um pretenso pioneirismo deste ‘dicionário’.
Ora, convém dizer que antes de Cidália Martins, José Pires e Mário Sacramento, já um número considerável de estudiosos (e entre eles alguns filólogos e etnólogos de mérito certificado) procederam a recolhas de dimensão variável do vocabulário trasmontano, desde os tempos heróicos da “Revista Lusitana” (Leite de Vasconcelos, Augusto Moreno, J. Castro Lopo, A. Gomes Pereira, F. Braga Barreiros, Henrique das Neves, José Augusto Tavares, Gonçalves Viana), até ao Abade de Baçal e, em tempos mais próximos, Guilherme Felgueiras, Hirondino Fernandes, Joaquim Manuel Rebelo, Angélica Aragão, Belarmino Afonso, Veloso Martins, Vítor Barros, Rui Guimarães, Adamir Dias, Manuela Tender, Jorge Golias, Jorge Lage, João Rocha, Hélder Rodrigues e tantos outros.
Silenciar o nome e a obra destes pode ser uma boa prática de ‘marketing’, mas é também, seguramente, uma injustiça gritante para quem ‘já cá estava’ antes deste ‘dicionário’ — que se vangloria de ser ‘descomplicado’ e na verdade o é. “A bon entendeur…”

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