A net é a arma de uma nova revolução africana

2012-11-24 12:11:00
O discurso dos media sobre a África em mudança foi analisado numa conferência internacional na Fundação Gulbenkian

“Use sempre a palavra ‘África’, ‘Escuridão’ ou ‘Safari’ no título.

Os subtítulos devem incluir as palavras ‘Zanzibar’, ‘Masai’, ‘Zulu’, ‘Congo’ (…). Há outras palavras úteis como ‘Guerrilhas’, ‘Primordial’ e ‘Tribal’. Note que ‘Povo’ significa africanos que não são brancos enquanto ‘O Povo’ significa africanos negros (…). Uma AK-47, costelas salientes, seios nus: use-os. Se tiver de incluir um africano na capa do seu livro certifique-se que veste roupa Masai, Zulu ou Dogon. No texto, trate a África como se fosse um país”.

Esta é a forma como o escritor e jornalista queniano Binyavanga Wainaina lança “Como escrever sobre África” (Granta 92). É uma ironia sobre a forma como os não africanos, nomeadamente europeus, escrevem sobre o continente. Faz um retrato claro do tipo de expectativas que os ocidentais têm em matéria da narrativa sobre África.

Comparada com os media, a literatura tem um papel “recatado”. Daí que “O Tratamento dado à Informação sobre África nos Media” tenha sido o tema escolhido para a 3.ª edição do Observatório de África e da América Latina, organizado pela ACEP, que hoje decorre na Fundação Gulbenkian no âmbito do Próximo Futuro.

Wainaina ganhou o Prémio Caine para escrita africana, mas o valor da identificação das “instruções” que publicou na “Granta” (92), são inspiradoras para quem quer que pense no discurso que decorre do olhar sobre o outro.

É isso mesmo que se propõe fazer Lola Huete Machado, a participante (com António Pinto Ribeiro, Elísio Macamo, Fátima Proença, José Gonçalves e Sofiane Hadjeadj) do seminário de hoje, que cita o texto do escritor queniano na apresentação do seu blogue “África no es un país” (http://blogs.elpais.com/africa-no-es-un-pais/), com lugar cativo no sítio do diário espanhol “El País”.

Distância e ignorância

“Perguntar aos nigerianos se falam suaíli é o mesmo que perguntar aos portugueses se falam russo”, disse ao Expresso a jornalista, entrevistada a partir de Espanha, referindo-se às duas principais dificuldades em escrever sobre África: a distância cultural e a ignorância.

Lola Huete propôs que no seu blogue se escrevesse sobre a diversidade do continente para “começar a contrariar” a tendência do cliché. Lembra que Espanha, ao contrário de Portugal, nunca teve colónias na África subsariana e que este continente vibrante de diversidade continua preso à expectativa de que se fale “de fomes e desgraças”.

Em “África no es un país”, Lola Huete e outros autores tentam fazer o contrário: “Para evitar falar de África em geral, havia que falar dos países em concreto. O continente é ainda visto como imaginário porque o que se passa num lugar é muito diferente do que se passa noutro e tudo isso é África!”.

A tendência é temperar as “desgraças” com “histórias positivas”. E a maneira de o fazer de forma mais rica é através da mistura com a informação produzida naqueles 54 países. Daí que os blogues como este sejam catalisadores dessa “informação impressionante que está a ser produzida pelos africanos”.

Política, economia, questões sociais, sim, mas também música, teatro, literatura, saúde, ideias…

“Temos obrigação de mudar essa pretensão que os brancos têm de que há que ajudar, mesmo sabendo que as mentalidades não mudam de um dia para o outro”, disse Lola Huete.

Sem discriminação

Até que o discurso sobre África venha a ser normal, sem discriminação negativa nem positiva, “deixe-se que a internet, as redes sociais e os telemóveis continuem a fazer a sua revolução”.

A jornalista e bloguista do “El País” gostaria que o seminário de hoje fosse “normal” e que decorresse na mesma linha daquela com que informamos sobre outros assuntos. “Somos deste continente Europa, mas a África está aqui mesmo ao lado. Gostaria que fosse possível informar sobre África com a mesma naturalidade com que o fazemos sobre França ou os Estados Unidos”.

http://www.gulbenkian.pt/section49langId1.html

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Publicado por

chrys chrystello

Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL