Carlos Fino
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VENEZUELA – UMA TRAGÉDIA EM CÂMARA LENTA
por Carlos Fino
Foto: Carlos Garcia Rawlins/Reuters

A consulta popular deste domingo, promovida pela Oposição ao presidente Maduro, confirmou, como se esperava, a mais ampla rejeição ao regime chavista da Venezuela.
Apesar do seu carácter pacífico e eminentemente simbólico, uma vez que a consulta não tinha carácter vinculativo, o plebiscito informal não passou sem violência – pelo menos uma pessoa morreu e quatro ficaram feridas em confrontos com grupos paramilitares do regime, os mesmos que há dias assaltaram o Parlamento, controlado pelos partidos de oposição.
Elevam-se assim a quase uma centena as vítimas dos choques entre partidários e adversários de Maduro registados só nos últimos quatro meses de protestos consecutivos.
O regime desqualificou à partida o resultado das urnas – que não foi devidamente controlado – e não será a confirmação da popularidade dos seus opositores que fará Maduro mudar de ideias e desistir de convocar uma Assembleia Nacional Constituinte, através da qual pretende desembaraçar-se dos constrangimentos legais que ainda contrariam ou limitam, de alguma forma, o seu poder.
Com a economia em frangalhos – a inflação atinge os mil por cento ao ano e há escassez aguda de alimentos e medicamentos – tudo se encaminha – dada a completa ausência de diálogo entre os dois campos – para o consecutivo agravamento da situação.
No contexto de tragédia anunciada a que assistimos, com episódios diários de violência, só uma intervenção política externa poderia, eventualmente, evitar o pior.
O problema é que nenhum dos atores estatais em presença – dentro ou fora da região – parece ter vontade ou capacidade para liderar esse processo.
Os Estados Unidos, que em 2002 apoiaram e falharam o golpe contra Chavez, mantêm-se, para já, distantes. Trump ainda não deu a volta que queria no Departamento de Estado e o seu interesse pela América Latina não parece ir além do México e Cuba…
Por outro lado, as companhias de petróleo do Texas e da Louisiana que processam o crude venezuelano e foram criadas para isso, não querem prescindir do negócio.
Além disso, boicotar a Venezuela faria certamente subir o preço do petróleo, o que poderia acabar por reforçar o regime…
Por seu turno, a China e a Rússia, que tem créditos de milhões a serem pagos em crude, também não estão interessadas em pressionar Maduro.
Por outro lado, as tentativas de mediação da UNASUL falharam e o mesmo aconteceu com a recente condenação do regime tentada pela OEA, a Organização dos Estados Americanos, tradicional instrumento da política externa de Washington.
Conversações em tempos promovidas pelo Vaticano terminaram num impasse e agora é a própria Oposição venezuelana que não quer voltar à mesa das conversações, argumentando que Maduro apenas pretende dessa forma ganhar tempo para se consolidar no poder.
Brasil e Colômbia seriam teoricamente os países mais diretamente interessados numa resolução da crise. Já hoje, milhares de refugiados venezuelanos vivem no Estado de Roraima e muitos mais poderão ainda surgir se a situação se agravar.
Mas, a braços com os seus próprios problemas internos, nem Brasília nem Bogotá parecem particularmente inclinadas a intervir ativamente na busca de uma solução negociada, que implicaria sempre alguma forma de pressão sobre o vizinho.
O círculo, portanto, fecha-se, sem que se vislumbre uma saída.
Aquele que já foi, durante décadas, um dos países de maior estabilidade democrática da América do Sul, continua dessa forma a viver uma tragédia em câmara lenta sem que ninguém se mostre capaz de evitar o pior.