ataque holandês a Macau 1622

Luis Almeida Pinto
4 hrs ·
24 de Junho de 2017.

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O ataque holandês a Macau

Os holandeses tentaram tomar Macau a 22 junho de 1622, mas apesar da superioridade em homens e navios foram derrotados pela guarnição portuguesa. Não voltaram a tentar conquistar este reduto e foram obrigados a mudar a sua política expansionista no oriente.

O aparecimento de uma armada holandesa ao largo de Macau, no dia 21 de junho de 1622, confirmou os receios portugueses de que os inimigos holandeses tentariam, mais cedo ou mais tarde, apoderar-se da cidade. Era uma poderosa armada de 14 navios, a que se juntaram 2 embarcações inglesas, que tinha partido de Batávia, atual Jakarta, com esse objetivo. O primeiro desembarque teve lugar no dia 22 e destinou-se a fazer o reconhecimento do terreno.

O ataque direto ocorreu apenas no dia 24, com o bombardeamento dos baluartes de Macau e o desembarque de cerca de 800 soldados. Os defensores eram cerca de duas centenas, entre mosqueteiros, moradores da cidade e escravos. O momento decisivo ocorreu quando explodiram os barris de pólvora do campo dos invasores, quando estes marchavam em direção à cidade.

A desorganização e desorientação provocadas pelo incidente motivaram os portugueses à ofensiva, tendo desbaratado os holandeses nos combates que se seguiram. Os invasores recuaram e retiraram-se para os navios, deixando mais de uma centena de mortos.

  • Qual era o interesse dos holandeses em tomar Macau?

A viragem do século XVII assinalou a chegada das armadas holandeses à Ásia, passando a competir com os interesses e as rotas exploradas pelos portugueses em todo o Índico. Essa competição rapidamente se transformou em hostilidade e conflito aberto, com o assalto às armadas e fortalezas portuguesas.

A rota comercial mais rica e importante explorada pelos portugueses era a ligação entre Macau e Nagasaki, no Japão, que permitia lucros fabulosos e suscitava, naturalmente, o interesse e a cobiça holandesas.

A VOC, a poderosa companhia neerlandesa das Índias Orientais, estava solidamente instalada em diversos pontos do Índico, mas faltava-lhe uma posição que permitisse o acesso direto aos mercados chineses. Em 1619, o novo diretor geral da companhia, Jan Pieterzoon Coen, decidiu avançar com a decisão de conquistar Macau, que considerava fácil de tomar por a cidade não dispor de fortificações ou forças defensivas substanciais. O fracasso do ataque de junho de 1622 constituiu, portanto, uma derrota especialmente pesada.

  • Que consequências teve esta derrota?

O fracasso do assalto a Macau obrigou a VOC holandesa a alterar os seus planos de expansão naquela zona do Extremo Oriente. Os projetos de fixação na costa chinesa foram abandonados e os holandeses procuraram alternativas, acabando por se fixar no arquipélago das ilhas Pescadores e, mais tarde, em Taiwan. Macau não voltaria a ser atacada.

Do lado português, a vitória foi celebrada como um enorme feito de armas, tanto mais que o Estado da Índia sofreu uma importante perda nesse mesmo ano, com a queda de Ormuz, no Golfo Pérsico. Um dos efeitos mais importantes do ataque de 1622 foi a integração definitiva de Macau na rede oficial de fortalezas portuguesas.

Depois da retirada holandesa, o Senado da cidade aceitou a nomeação de um governador enviado por Goa, algo que sempre tinha recusado, o que revela a gravidade da ameaça holandesa para a sobrevivência de Macau.

Ouça aqui outros episódios do programa Dias da História

 

O Dia da Cidade e o ataque holandês em 1622.
Na edição de 28.6.1862 do Boletim do Governo de Macau foi publicado um texto sobre o ataque holandês a Macau em 1622…
“No dia 22 de junho de 1622 aportaram á Rada de Macau dezenove navios hollandezes, resolvidos a apoderarem-se da cidade, como já tinham feito a outras tantas colonias de Portugal nesse tempo de desgraças, devido a circumstancias que não convém avivar hoje.
Estavam na Rada tres navios inglezes que iam para Cantão negociar;
a estes pediram os hollandezes coadjuvação, que lhes foi promettida, dando-lhes a saque a cidade, o que o inimigo não acceitou, por ser essa sua mira principal, e pela couvicção que possuia, fiado na sua grande armada e na nossa pequena guarnição, de ter certa a victoria.
Na tarde de 23, rompeu a esquadra do inimigo o fogo sobre o forte de S. Francisco, — que então só possuia a bateria de cima, e não as duas que boje lhe observamos — a fim de irem assim tomando os navios posições favoráveis, encostando-se o possível á terra, para melhor desembarcarem a força destinada a atacar a cidade, e não terem embaraços pelo fogo da nossa artharia dos fortes de S. Francisco, e Bom-Porto, hoje conhecido pelo BomParto.
Aconteceu nesta tarde que, ou pelos nossos tiros, ou por outro incidente, que a historia nos não esclarece convenientemente, um dos navios hollandezes se abrisse de tal forma, que foi a pique sobre as amarras.
Grande, porém, era a consternação da cidade, por haver só nella oitenta portuguezes capazes de pegarem em armas, além dos seus moços ou escravos, mas ainda assim sem capitão que os guiasse, pois o governador Carrasco tinhase retirado para Goa sem que houvesse sido substituído, e o capitão-mór da viagem do Japão também se achava ausente, estando d’este modo o governo da cidade entregue ao Senado.
Raiou, finalmente, o dia 24 de junho, destinado para que Macau alcançasse a famosa victoria, que tão honroso é recordar áquelles que se prezam de ter nascido portuguezes.
Os navios do inimigo, que desde a vespera tomaram posições convenientes, acercando-se da terra quanto possível era, começaram o desembarque na praia de Cacilhas, e em poucas horas, servindo-se de mais de trinta lanchas, escaleres e catraios, favorecidos pelo fogo dos seus navios, saltaram em terra oitocentos homens, capitaneados por Ivornelius Reyerzoon, que commandava a frota.
O inimigo, chegando a terra, deitou por barlavento fogo a um barril de polvora molhada, para, a coberto do fumo que se desenvolveu, fazer o desembarque com mais segurança.
Observando isto Antonio Cavallinho, que morava numa casa de campo, num outeiro fronteiro á fortaleza de S. Paulo do Monte, sahiu com cinco portuguezes e seus moços para lhes impedir o desembarque — tal era o seu valor; reconhecendo, porém, a impossibilidade de fazer frente a tão poderoso inimigo, occultou-se com a sua gente entre as enormes pedras que guarneciam aquelle outeiro.
Os hollandezes avançaram em pé de guerra até o plano por baixo da Guia, onde fizeram alto, por causa de dois tiros que sobre elles foram disparados da fortaleza do Monte, com uma bombarda, que á pressa,se assestára por aquelle lado, sendo estes tiros feitos pelos padres da Companhia de Jesus, que áquella cidadella se tinham recolhido, abandonando o seu convento de S. Paulo ás religiosas de Santa Clara, senhoras è filhas dos moradores da cidade, que para maior segurança se tinham ido abrigar narquelle templo.
Estes tiros foram dirigidos com tanto acerto, que um d’elles foi insultar a reserva, onde vinha a polvora de sobresalente, e breve houve lima explosão nalguns barris, matando bastantes hollandezes.
Precisavam os invasores, para entrar na cidade, de passar ao lado de um espesso bambual, que lhes ficava á sua direita, e perto da porta do campo, bambual de que hoje nãò restam vestígios, porque sendo destruído, em 1791, por Filippe Lourenço de Mattos, foi depois amanhado em horta, a qual pertenceu primeiro a D. Rita Ragmond, e passando em seguida por novas tranformações, e novos donos, está hoje aquelle terreno cheio de casas chinas, propriedade de Francisco Volong, china naturalizado portuguez.
Tendo, pois, o inimigo de passar ao lado d’este bambual, temeu alguma emboscada pelo facto de não haver pessoa alguma a estar soffréndo não só os tiros do Monte, como também descargas successivas do lado da Guia;
assim mudou de plano e diligenciou subir ao alto do outeiro, sobre o qual já existia uma ermida, mas esta subida lhes foi embaraçada não só pelo fogo com que Cavallinho os atacava, como também pelo que do alto da ermida lhes fazia Rodrigo Ferreira, que naouelle logar se achava com oito português, vinte filhos do paiz e seus creados.
Cessando o fogo nos navios hollandezes e reconhecendo os capitães que commandavam os fortes de S. Francisco e Bom-Parto, que o inimigo desembarcava, e vinha por terra atacar a cidade, enviaram a toda a pressa João Soares Vivas com cincoenta mosqueteiros a defender a entrada, chegando este soccorro ao campo no momento em que o inimigo tentava tomar o outeiro da Guia;
uniu-se a este auxilio Lopes Sarmento de Carvalho, encarregado da porta da cidade, e com tal furor acommetteram os hollandezes, que os puzeram em confusão, e ainda que o chefe d’estes soldados tentasse fazer frente aos nossos, essa ousadia lhe custou a morte, sendo o inimigo carregado até Cacilhas.
A morte de Kornelius causou tal desordem entre os hollandezes, que estes só procuraram fugir, deixando pelo caminho, armas, correames, tambores e bagagens, e apezar de terem ficado em Cacilhas duas companhia! de reserva, estas se apoderaram do mesmo medo e terror de que os seus camaradas vinham possuídos, e sem pensarem na defeza, trataram apenas de salvar a vida, chegando muitos a atirarem-se ao mar, para a nado se escaparem, tumulto este de que resultou virar-se um dos escaleres e morrerem bastantes afogados.
A’ sombra dos portuguezes, corria desenfreado o povo sobre ,os fugitivos, sem lhes dar quartel, e conla-se que era tal o furor, que até um cafre matou muitos dos inimigos com um grande espeto, ainda què outros affirmam ter sido com uma alabarda, apanhada no campo.
Os hollandezes perderam entre mortos e prisioneiros, quinhentos homens, oito bandeiras, uma peça e muitas armas e bagagens.
Estas armas existiram, até irem para Gôa os jesuítas, e o seu convento; depois ignora-se o destino que tiveram.
Do nosso lado perdemos quatro portuguezes, dois hespanhoes e alguns escravos, tendo vinte feridos.
A Hollanda tomou tal horror a Macau, e tanto medo ao nosso ferro, que apezar de se ter apoderado de quasi todo o sul e de estar Gôa bem distante, d’onde só podiam vir soccorros mais promptos, não voltou a investila, ainda que alguém ha que affirma ter sido enviada outra esquadra a atacar a cidade, porém que apanhando um tufão ao entrar nos mares da China, todos os navios que a compunham se perderam.
Às maravilhas praticadas por este punhado de homens, principalmente aquelles que nunca abandonaram o seu entrincheiramento, são altamente reconhecidas.
Esta victoria das nossas armas deu logar a um voto feito pelos moradores de então, que prometteram ir todos os annos, com o corpo do Senado, á Sé Cathedral render graças a Deus na vespera de S. João, de cujo voto existe termo no archivo da Camara.
Todos os annos se realisa a procissão na tarde de 23 e a festa solemne em 24, na Sé.
O vice-rei de Cantão, assim que soube d’esta victoria, dizem que mandára quatrocentos picos de arroz para os moços que tanto ajudaram a defeza da cidade, os quaes já estavam forros, porqae seus amos antes da peleja lhes tinham dado alforria.
in Blog Macau Antigo de Joao Botas, em 24 de Junho de 2017.
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