ilha de Santa Maria e os foguetes: crónica de Paulo Ramalho · MALBUSCA – A ESTRATÉGIA DA ARANHA

Paulo Ramalho
2 hrs ·
MALBUSCA – A ESTRATÉGIA DA ARANHA

“Os cientistas descobriram como as aranhas conseguem atrair as suas presas. Os fios que entram na confecção da teia têm a mesma aparência de certas flores bem cheirosas.”

Apesar de só no início deste ano a população de Santa Maria ter ouvido falar na bizarra ideia de um porto espacial na Malbusca, a verdade é que o projecto andava a ser cozinhado em lume brando há bastante tempo. As primeiras referências na comunicação social à necessidade de substituir parcialmente a Guiana por uma base de lançamentos no espaço europeu – sedeada preferencialmente na pequena e pouco povoada ilha de Santa Maria – datam de 2004, e o projecto parece ter sido sugerido à ESA pelo então Ministro da Ciência, Maria da Graça Carvalho. Seguiu-se um longo período de pousio, em que o assunto esteve a marinar na penumbra dos gabinetes, e em 26 de Junho e 20 de Setembro de 2016 o semanário Expresso faz menção ao Azores International Research Center (Air Center), um “porto de ciência que atraia negócios e investimentos”. Os foguetões seriam, nesta versão, lançados a partir do aeroporto das Lajes.
A partir de 5 de Novembro as notícias sobre o projecto sucedem-se e o Air Centrer é apresentado como um “grande centro de investigação internacional que pretende atrair investimento estrangeiro para o espaço, energia, oceanos e clima”. A localização do porto espacial continua, no entanto, por definir. Terceira ou Santa Maria? “Está tudo em aberto e a palavra é dos investidores”, adianta o presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, “mas tem de ser um local remoto, por causa da segurança das populações”. E os ditos investidores começam a estender a sua teia e realizar as suas prospecções. É deste modo que a Airbus-Safran Lauchers – a maior empresa de lançadores de satélites do mundo – chega a Santa Maria para proceder a contactos (confidenciais, evidentemente) com entidades locais e “estudos de viabilidade” na zona da Malbusca. Entretanto, Nelson Simões, Director Regional da Ciência e Tecnologia confirma que decorrem há já algum tempo negociações entre o Governo Regional, o Governo da República e a empresa francesa.
Estas manobras de bastidores, envoltas no secretismo dos assuntos melindrosos, tiveram a virtude de alertar um número crescente de cidadãos para o carácter sub-reptício do desígnio (transformar Santa Maria no banco mau onde se depositam os activos tóxicos do projecto Air Center) e os impactos negativos associados a tal ideia. A noção de que o tempo urgia e de que era preciso actuar imediatamente para evitar que a Malbusca se transformasse num desmesurado aleijão tecnológico – buraco negro encaixado no triângulo turístico entre a Praia Formosa, Santo Espírito e a Maia – levou um grupo de cidadãos a organizar um abaixo-assinado dirigido ao Governo Regional e à Câmara Municipal de Vila do Porto, onde se solicitava informação sobre a propalada intenção de construir um porto espacial na ilha. Em resposta, o executivo camarário assegura que ”nunca apoiará qualquer decisão que vá contra a vontade da maioria dos habitantes da nossa terra” – mas esquece-se de indicar o modo como pretende aferir essa vontade. Quanto ao governo regional, mantém até à data o seu ensurdecedor silêncio oficial.
O discurso dos decisores políticos é uma espécie de mantra repetido até à exaustão: “Ninguém deve falar sobre o assunto, porque por enquanto não há nada de concreto para discutir”. Mas acontece que é agora, enquanto a aranha ainda não completou a teia, que se deve discutir, porque mais tarde pode ser demasiado tarde. A reserva mental de uma atitude dilatória deste tipo faz lembrar a história da rã que se mete numa panela com água fria. Se fosse água a escaldar, a rã saltava logo fora, mas como a temperatura é aumentada grau a grau, o animal deixa-se cozer sem protestar. De facto, só se apercebe que está em maus lençóis quando já nada pode fazer.
Nos dias 20 e 21 de Abril a reunião internacional “Atlantic Interactions”, realizada na Praia da Vitória, encarregou-se de esclarecer algumas dúvidas sobre o meritório projecto Air Centar, mas em contrapartida deixou o porto espacial da Malbusca envolto na habitual penumbra sigilosa. Ainda assim, é possível tirar algumas conclusões interessantes – e porventura inesperadas – do encontro.
1) A sede do Centro – que pretende potenciar as infraestruturas tecnológicas e científicas da região, de modo a criar emprego e promover a cooperação científica internacional nas áreas do espaço, clima, oceanos e energias renováveis – é um assunto em aberto. Sabe-se, no entanto, que os americanos já manifestaram reservas em relação à acomodação de “potências estrangeiras” na base das Lajes.
2) Todas as decisões sobre o Air Center (incluindo a localização de um eventual porto espacial) deverão estar tomadas até ao final de 2017, de modo a que a sua instalação possa estar concluída no final de 2018.
3) O grande motor do centro internacional de investigação deveria ser a construção de uma base espacial lowcost de lançamento de pequenos satélites. No entanto, a ideia suscita reservas em diversas esferas (ESA, por exemplo), os investidores estão relutantes em abrir os cordões à bolsa e ninguém com algum juízo quer a fatia do bolo-rei com a fava para si. Por isso, Manuel Heitor, Ministro da Ciência já vai dizendo, à cautela: “A criação da base espacial tem que ser estudada, mas o arranque do Air Center não depende da sua existência”.
Dependa ou não da sua existência, a verdade é que Santa Maria não merece ser levada ao altar sacrificial, como um cordeiro, para ser imolada em nome dos superiores interesses da região e do país. Têm-se referido, com toda a pertinência, as muitas questões de saúde e de segurança e os impactos ambientais associados a um projecto destas dimensões num pequeno território insulado. Mas a questão é mais ampla do que isso: o que está em causa é também a identidade da ilha e a imagem que ela pretende dar de si própria no momento em que os Açores se afirmam como um destino verde, sustentável, harmonioso, associado ao turismo de natureza. Pretende Santa Maria divergir das restantes ilhas açorianas, vestir a fatiota de serventuário que outros recusam e acolher o parque de máquinas da indústria aero-espacial, ainda que a troco de alguns empregos (sempre menos que os prometidos)? Estará a alma de Santa Maria à venda por dez dinheiros? Se esta ideia insensata fosse para a frente, com que cara se iriam rever os marienses no espelho da sua terra natal, daqui por alguns anos?
Elenquemos tudo quanto se situa no interior do suposto perímetro de segurança de dois quilómetros e que por isso – como um braço arrancado ao corpo – a ilha teria de prescindir para “oferecer” em sacrifício no altar do inefável porto espacial:
– Um dos mais importantes e bem preservados conjuntos de casa rurais marienses (sessenta delas habitadas em permanência; mais de cento e vinte pessoas).
– O belíssimo monumento geológico (classificado e integrado no Parque Geológico de Santa Maria) da ribeira de Maloás.
– Um importante segmento de trilho pedestre incluído na Grande Rota de Santa Maria.
– Duas notáveis jazidas fósseis (Malbusca 1 – gruta dos icnofósseis – e Malbusca 2) que fazem parte da Rota dos Fósseis.
– Todas as actividades ao longo de 4 km de costa (mergulho, pesca, passeios de barco).
– Um sem número de boas terras de pasto.
Detenhamo-nos agora por momentos, a tentar imaginar as consequências que o space port teria no emergente sector do turismo. Alguém imagina muitos clientes dispostos a virem mergulhar com jamantas na ilha dos foguetões? E quanto a trilhos pedestres ao lado de estradas vedadas, por onde circula o combustível sólido dos propulsores? E turismo rural paredes meias com o estrondo dos foguetões? Ou fruição da natureza com uma ferida de fogo a cruzar o céu…? Haverá praia capaz de sobreviver à debandada dos veraneantes, em busca de paz e sossego? Se o porto espacial – e o mais que ainda não foi dito – fosse construído, Santa Maria descolaria irremediavelmente da realidade açoriana e torna-se-ia um couto triste da indústria aeroespacial. Venderia a sua essência a troco de um determinado número de contrapartidas e depois sentar-se-ia sobre as consequências do erro, com uma grilheta de chumbo nos pés.
Eu sei, a ilha tem perdido habitantes, dinamismo económico, empregos, e vive numa espécie de letargia económica desde que o aeroporto entrou em decadência. Mas então concentremo-nos na revitalização da zona aeroportuária, em vez de andar a construir um novo elefante branco na Malbusca. Santa Maria possui condições privilegiadas para – excluído o porto espacial – acolher as várias valências do projecto Air Center que os americanos não querem ver instaladas na base das Lajes. Compete às autoridades apresentar propostas nesse sentido. E compete aos investidores provar que os milhões do projecto Air Center não são apenas a renda que eles se dispõem a pagar para estenderem a sua teia sobre a Malbusca.
Paulo Ramalho (artigo publicado no jornal O Baluarte, de 25/5/2017)

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