A história insólita do arquivo português sobre Timor-Leste

Lusa – Dias das Independências

A história insólita do arquivo português sobre Timor-Leste

Por António Sampaio

Díli, 29 nov (Lusa) – O grosso do Arquivo Nacional de Timor-Leste, no bairro de Caicoli, em Díli, é formado por um extenso arquivo que sobreviveu desde a administração portuguesa e que viveu escondido até 1999, coberto de pó, sobre os administradores indonésios.

Esteve, desde 1975, no sótão do principal edifício da administração em Timor-Leste, que foi sede do Governo colonial, depois dos ocupantes indonésios, da administração transitória da ONU e, desde aí, dos seis Governos constitucionais timorense.

Depois de quase 24 anos ‘desaparecido’, foi ‘descoberto’ por uma reportagem da Lusa em março de 1999, durante uma conversa no Palácio das Repartições em Díli, então centro da administração indonésia e, outrora, núcleo do governo português da Província de Timor.

O guia da descoberta foi um funcionário, servente de 1ª classe da administração portuguesa e em 1999, últimos meses da ocupação indonésia, “funcionário da secretaria” do governador nomeado por Jacarta, Abílio Osório Soares.

Antes de mostrar o passado de todos, mostrou o seu.

Um longo processo relativo dos três anos que trabalhou para o estado português. Todos os requerimentos – incluindo das férias recusadas, “impossibilitadas dada a visita de um ministro” – as notas de promoção e as recomendações para pagamento de ajudas de custos.

O repórter, que acompanha Timor-Leste há quase uma década, aproveita a conversa para satisfazer uma curiosidade antiga: o que teria acontecido ao arquivo da administração portuguesa da “Colónia de Timor”.

Desde a invasão indonésia, em 1975, que os próprios timorenses diziam que os arquivos não existiam, que tinham desaparecido.

“Há qualquer coisa lá em cima. Lá em cima, atrás desse móvel”. Convida-nos para subir, advertindo-nos para o calor e para o pó “que é muito”. “Ninguém aí vai. Para quê?”.

Encolhe-se a barriga para passar entre o corrimão e um móvel metálico e percebe-se uma pequena porta quase escondida e os degraus de uma estreita escada de madeira.

No topo, abre-se apenas a escuridão. A espessa poeira da própria escada denota que este é um sítio pouco visitado. Cada degrau poderia corresponder a um ano, numa viagem de tempo para um passado que se dizia nunca ser possível voltar a visitar.

A única luz vem de seis pequenas janelas, sem vidros, por onde entra uma pequena claridade. O sótão de teto baixo, paredes de um branco amarelecido pelo tempo e pelo pouco uso. Um cheiro a bafio, e muitas teias de aranha, construções de décadas sob montes de papéis, livros e documentos que há muito não são mexidos.

Caminha-se sobre a história e sobre estórias. Retratos poeirentos, processos de gente esquecida, arquivos que se diziam perdidos desde a invasão indonésia. Orçamentos, recibos, relatórios, requerimentos, processos.

Sou o primeiro português que aqui vem, em 24 anos. As marcas que ficam vincadas na poeira confirmam ser porventura uma das poucas pessoas que aqui subiu, independentemente da nacionalidade que lhe seja atribuída num outro arquivo mais bem organizado do que este.

Os montes de livros e documentos estão espalhados como se ali tivessem sido colocados à pressa, mas aparentando um qualquer ordenamento, esquecido com as estações e o pó. Matéria para estudos sem fim, detalhes em documentos bolorentos, roídos por ratos, a confirmar o que as memórias humanas vão esquecendo.

Escondido e encostado ao canto esquerdo, na parte onde o sótão já só permite caminhar vergado, está o maior monte. Tanta poeira e tão pouca luz que apurar a sua natureza é para já impossível.

O “guia” traz nas mãos um livro grande e encadernado, assopra a poeira da capa e, apesar do amarelecido, ainda nela se lê “III Plano de Fomento – Timor-Leste 1971”.

“Não sei se há mais coisas do que estas por aí espalhadas. Timor-Leste ainda tem muitos segredos”, diz o nosso guia, brilho nos olhos e pingos de suor a formar-se na testa.

Vasculha entre o pó, limpa o suor da testa, que rapidamente fica negra, e vai trazendo mais e mais documentos, pastas, livrinhos, mapas e relatórios de contas. No chão, cresce um novo monte, na desorganização deste sótão de arquivo.

Um pequeno livrinho de capa verde deslavada chama a atenção.

Sob o escudo português, e a nomenclatura habitual de “República Portuguesa – Província de Timor”, surge em letras grandes a notificação de que se trata de um documento do “Serviço Meteorológico”, mais propriamente o “Calendário, Eclipses, Horas do nascimento e ocaso do sol e da lua em Díli para 1970”. Escrito no ano anterior, o pequeno livro de 25 páginas é assinado pelo chefe de serviço substituto: José António Fialho da Cruz Macedo.

Continua a passear-se pela história. Mapas da construção do porto de Díli – com lugar para atracarem “lanchas fundas” – requerimentos de bilhetes de identidade, declarações para o imposto de defesa.

Um dos documentos mais antigos que se encontra nesta viagem rápida entre a poeira data de 1950. Refere-se à “circunscrição civil” dos sucos (povoações) da “Colónia de Timor”.

Amarelecidas, as páginas deixam ver os pagamentos de impostos pela venda de “búfalo, cabrito, carneiro, porcos” ou então pela organização de “corridas de cavalos, lutas de galos e bailes ou festividades”.

Pagava-se imposto pela “queima de fogos (por cada festa)”, por cada “estilo” – a memória vasculha à procura de um significado mais moderno – e ainda mais surpreendentemente por “toques retumbantes” dados “por cada noite”.

Um dos recibos é bem claro. Emitido em 17 de agosto de 1950, ao senhor “Mau Bere” do suco de Saluqui, povoação de Maniehat, cobra a módica quantia de “uma pataca e cinquenta avos” por ter vendido 20 garrafas de Tua-Sabo, um poderoso ‘cocktail’ alcoólico feito das folhas das abundantes palmeiras de Timor-Leste.

Um dos documentos que também chama a atenção é dominado por muitos carimbos e assinaturas e ainda mais por um carimbo roxo da “Polícia Internacional e de Defesa de Estado – Subdelegação de Timor”.

Assinado pelo chefe da 3ª secção e datado de 02 de maio de 1964, o documento corresponde a uma “folha de ajudas de custo” para dois funcionários da PIDE, um inspetor que já recebeu 300$00, por duas diárias, e um “condutor de automóveis de 1ª classe”, que pelo mesmo período recebeu apenas metade.

A ele agrafado está a correspondente “guia de marcha”, vista “por sua excelência, o governador” e que confirma a saída dos dois “funcionários” de Díli para “Vila-Salazar – Baucau”.

“Na conformidade do itinerário à margem indicado” – partida “para Vila-Salazar às 7H00” saem de Díli “a fim de proceder a averiguações de carácter reservado”.

O chefe da subdelegação termina com um apelo “rogo a todas as autoridades que, a bem do serviço público, lhe prestem o seu auxílio” e “no caso de se recusarem devem declarar por escrito, neste guia, o motivo”.

Estaria o relatório da viagem a Vila-Salazar algures também naquele sótão?

Maria C. Delcourt

Técnico Superior

Divisão de Ação Cultural Externa

Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, IP

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Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL