poema de Borja da Costa e outros timorenses

FRANCISCO BORJA DA COSTA POEMA UM MINUTO DE...
Daniel Braga 14 August 15:29

FRANCISCO BORJA DA COSTA

 

POEMA

UM MINUTO DE SILÊNCIO

 

Calai

 

Montes

 

Vales e fontes

 

Regatos e ribeiros

 

Pedras dos caminhos

 

E ervas do chão,

 

Calai

 

 

 

Calai

 

Pássaros do ar

 

E ondas do mar

 

Ventos que sopram

 

Nas praias que sobram

 

De terras de ninguém,

 

Calai

 

 

 

Calai

 

Canas e bambus

 

Árvores e “ai-rús”

 

Palmeiras e capim

 

Na verdura sem fim

 

Do pequeno Timor,

 

Calai

 

 

 

Calai

 

Calai-vos e calemo-nos

 

POR UM MINUTO

 

É tempo de silêncio

 

No silêncio do tempo

 

Ao tempo de vida

 

Dos que perderam a vida

 

Pela Pátria

 

Pela Nação

 

Pelo Povo

 

Pela Nossa

 

Libertação

 

Calai – um minuto de silêncio…

 

 

NOTA: Borja da Costa, poeta timorense e compositor do Hino Nacional de Timor Leste, foi morto a 7 de Dezembro de 1975, assassinado pelas forças indonésias que invadiram Timor.

Luís Cardoso (“Takas”) – poeta e escritor timorenseLuís Cardoso de Noronha é um dos mais importantes escritores timorenses. Nasceu em Cailaco, vila do interior de Timor-Leste.Estudou nos colégios missionários de Soibada, Fuiloro e no Seminário de Dare. Quando se deu a revolução do 25 de Abril de 1974 em Portugal frequentava o Liceu Dr. Francisco Machado em Díli, vindo posteriormente a prosseguir os seus estudos em Portugal.
Não esteve presente na guerra civil e na posterior invasão indonésia, tendo concluído os seus estudos, no exílio. Formou-se em Silvicultura pelo Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, onde tomou conhecimento das obras científicas e poéticas de Ruy Cinatti que o ajudaram a fazer a viagem de regresso ao mundo físico e sobrenatural de Timor-Leste.
Desempenhou as funções de representante do Conselho Nacional da Resistência Maubere, entre outras actividades como as de contador de histórias timorenses, cronista da revista Fórum Estudante e professor de Tétum e Língua Portuguesa nos cursos de formação especial para timorenses.

As suas obras literárias de maior vulto são:

Crónica de uma travessia – A época do ai-dik-funam (1997)
Olhos de Coruja, Olhos de Gato Bravo (2001)
A última morte do Coronel Santiago (2003)
Requiem para o navegador solitário (2007)

Retirado da Vikipédia, a enciclopédia livre.

14 August 15:12
POEMAS DE XANANA GUSMÃOPÁTRIA

Pátria é, pois, o sol que deu o ser
Drama, poema, tempo e o espaço,
Das gerações, que passam, forte laço
E as verdades que estamos a viver.

Pátria… é sepultura… é sofrer
De quem marca, co’a vida, um novo passo
Ao povo – uma Pátria – é, num traço
simples… Independência até morrer!

Do trabalho o berço, paz tormento,
Pátria é a vida, orgulho, a aliança
Da alegria, do amor do sentimento.

Pátria… é tradições, passado e herança!
O som da bala é… Pátria, de momento!
Pátria… é do futuro a esperança!

OH! LIBERDADE!

Se eu pudesse
pelas frias manhãs
acordar tiritando
fustigado pela ventania
que me abre a cortina do céu
e ver, do cimo dos meus montes,
o quadro roxo,
de um perturbado nascer do sol
a leste de Timor

Se eu pudesse
pelos tórridos sóis
cavalgar embevecido
de encontro a mim mesmo
nas serenas planícies do capim
e sentir o cheiro de animais
bebendo das nascentes
que murmurariam no ar
lendas de Timor

Se eu pudesse
pelas tardes de calma
sentir o cansaço
da natureza sensual
espreguiçando-se no seu suor
e ouvir contar as canseiras
sob os risos
das crianças nuas e descalças
de todo o Timor

Se eu pudesse
ao entardecer das ondas
caminhar pela areia
entregue a mim mesmo
no enlevo molhado da brisa
e tocar a imensidão do mar
num sopro da alma
que permita meditar o futuro
da ilha de Timor

Se eu pudesse
ao cantar dos grilos
falar para a lua
pelas janelas da noite
e contar-lhes romances do povo
a união inviolável dos corpos
para criar filhos
e ensinar-lhes a crescer e a amar
a Pátria Timor!

(Cipinang, 8 de Outubro de 1995)

GERAÇÕES

Nomes sem rosto
corações esfaqueados
de lembranças
nas lágrimas de crianças
chorando pelos pais…

Mais do que a morte
que os fez calar
em cada gota de lágrima
a cena cruel

…uma mãe que gemia
sem forças seu corpo desenhava
marcas da angústia
esgotada

Os farrapos que a cobriam
Rasgados
no ruído da sua própria carne
sob o selvático escárnio
dos soldados indonésios
em cima dela, um por um

Já inerte, o corpo da mulher
se tornou cadáver
insensível à justiça do punhal
que a libertara da vida

enquanto…
golpes de coronhadas
se repercutiam
nas gotas de lágrimas que iam caindo
da mesma face das crianças

Um pai se ofendera
no último não da sua vida
a mulher violada
assassinada sob os seus olhos

O cheiro da pólvora
vinha de muitos furos
daquele corpo
que já não era corpo
estendido
sem forma de morte

e…

As lágrimas secaram
nas lembranças das crianças
veio o suor da luta
porque as crianças cresceram

Quando os jovens seios
estremecem sob o choque eléctrico
e as vaginas
queimadas com pontas de cigarro
quando testículos de jovens
estremecem sob o choque eléctrico
e os seus corpos
rasgados com lâminas
eles lembram-se, eles lembram-se sempre:

A luta continuará sem tréguas!

(Cipinang, 5 de Novembro de 1995)

POVO SEM VOZ

Nosso grito é o silêncio

Na passagem do tempo

E o tempo é o sangue

No silêncio do mundo!

– Ouvi, mundos!

Ouvi , gentes da política!

Invadistes a nossa Pátria com o Suharto,

Isolastes Timor-Leste na guerra fria

e torturasses-nos com a indiferença

e matastes-nos com a cumplicidade.

– Ouvi, ouvi as vossas culpas!

Desengajastes a nossa causa com Jacarta,

Minimizastes o nosso direito na ONU

e prendestes-nos com iénes

e massacrastes-nos com dólares.

Nosso tempo é o silêncio

Nas mudanças do mundo

e o sangue é o preço

nos mundos do silêncio!

– Ouvi, mundos!

Ouvi, gentes do poder!

Abençoastes a mortandade com Catedrais,

Enterrastes a tragédia nos investimentos

e desafiastes a nossa consciência

e reprimistes os nossos anseios.

– Ouvi, ouvi as vossas culpas!

Atraiçoastes os vossos próprios princípios,

Manipulastes as vossas próprias normas

e encarcerastes-nos na realpolitik

e matastes-nos como os direitos humanos.

… Somos POVO SEM VOZ

alma sem fronteira com a dor

corpo na escravidão aberto ao tempo

Pátria – um cemitério de interesses!

A nossa luta…

é a história

do poder do silêncio!

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