josé cid e os transmontanos 10

Transmontanos unidos contra José Cid
21 hrs · Vila Real ·

José Rainho
10 h ·
Carta aberta a um tal de senhor José Cid.

Caro senhor Cid,

Sou conhecedor da sua música desde há muitos anos. Habituei-me a crescer e a escutar temas diversos que os meus pais colecionavam nas antigas cassetes de fita.

Acumulei algum respeito pela sua pessoa pois alguns dos temas de sua autoria, denotavam ter alguma qualidade musical (a despeito de certos outros cujo conteúdo semântico deixam bastante a desejar…), e ainda que sempre o tivesse considerado um tanto ou quanto vaidoso (tiradas como “Se Elton John tivesse nascido na Chamusca, não teria tido tanto êxito como eu”, parecem-me tão hilariantes como pretensiosas), o respeito existia.

Ora, depois de ter escutadoas suas infelizes tiradas, as quais provocaram as suas próprias rizadas, bem como as do apresentador Nuno Markl, (que desde já, fica também ele, arredado das minhas preferências radiofónicas), sou obrigado a tecer alguns comentários, pois, quem não sente não é filho de boa gente.
Como os meus pais, também eles orgulhosos transmontanos, sempre me ensinaram algumas das vicissitudes das minhas gentes, nomeadamente a frontalidade, vamos então tecer alguns comentários às suas declarações.

  1. Musica popular portuguesa vs. musica populosa portuguesa… Cai neve em Nova York, e o macaco gosta de banana… mas entretanto, umas favas com chouriço transmontano, devem mesmo ser o seu prato preferido… Efectivamente, há muralhas que deviam ser construídas, nomeadamente a de não ferir ouvidos sensíveis com tanta alarvidade…
  2. A muralha da China, existia… infelizmente (em certa medida, pois há sempre duas faces da moeda), obras como a A4 ou a A24, vieram permitir que pessoas como o senhor, tivessem acesso facilitado ao nosso paraíso… Essa muralha que diz que devia de existir, iria manter para nós, essa imensa obra que é o Cancioneiro Mirandês, por exemplo… Duvido que saiba o que é… Mas se tiver interesse, pode tentar escutar o álbum “Traz os Montes” de Né Ladeiras.
    Por outro lado, podia ser que dificultasse o acesso da sua obra às nossas gentes.

  3. “Vêm excursões de pessoas que nunca viram o mar”… Que dizer disto senhor Cid? Sim, efectivamente há pessoas que nunca o viram. Isso porque, durante toda a vida, desde a infância, estavam a trabalhar de sol a sol, a guardar o gado, a tratar da terra, de sol a sol, com chuva e frio, ou debaixo de um calor abrasador… Pessoas com o rosto maltratado pelas intempéries, pessoas que não tiveram infância, que não foram à escola, pois o sustento a isso obrigava. Pessoas que, passaram por dificuldades tais que não consegue sequer ter uma pálida ideia… Fazendo minhas as suas próprias palavras, Se o senhor Cid tivesse nascido em Trás-os-Montes, não teria o mesmo êxito que eles…”
    Mas sabe o que é curioso? Também vêm, diariamente, imensas excursões para o “nosso” lado da montanha… E não são todos tão bonitos como o senhor Cid…

  4. “Pessoas medonhas e desdentadas”… Para comentar isto, vou ter mesmo que descer ao seu nível… Tire o seu boné e os óculos escuros senhor Cid… Agora remova a peruca e o seu olho de vidro… Quem é mais medonho? A resposta reside na sua mente poluída e obstipada por um mundo de aparências. A sua mente senhor Cid, é das coisas mais medonhas e imundas que alguma vez tive o desprazer de conhecer…

  5. “Isso não é Portugal”. Não senhor Cid… Isso são as raízes mais profundas de Portugal… Um povo desgastado por imensas dificuldades, mas que mesmo assim sabe dar o que tem de melhor quando recebem quem vem de fora… O senhor Cid é que não é Portugal… O senhor é fútil, superficial, vaidoso e não merecedor dos admiradores que têm (embora, hoje, sejam certamente menos do que ontem…)… Talvez esta infeliz (mas acredito que sincera) tirada, possa mostrar mais um pouquinho do que o senhor é e daquilo que vale… O português (e naturalmente o transmontano) é atento…

  6. “Prefiro que não gostem”… Esteja descansado… somos tão bons a receber que não nos vamos esquecer destas palavras amáveis que teve connosco… Cá o esperamos em Alfândega da Fé… Vai poder provar e comprovar toda a hospitalidade das pessoas feias e medonhas que tanto disse apreciar…

Para terminar, resta-me dizer que, para cá do Marão, mandam os que cá estão… Lamento imenso que o senhor Cid nunca tenha passeado descalço no alto de uma serra, e a sentir a pureza do seu ar, escutar o chilrear dos pássaros ou beber água de uma nascente. Que nunca tenha falado com uma criança que guarda atrás de si um rebanho, enquanto que, os pais sulcam a terra com ar cansado mas com um sorriso de bem vindo no olhar… Lamento que nunca tenha observado com os olhos de quem vê, o Reino Maravilhoso que Miguel Torga canta como ninguém…

Talvez mais logo, enquanto degustar um vinho do Porto, feito à custa do trabalho da minha gente, tenha oportunidade de reflectir sobre as suas atrozes palavras, e quem sabe, um pedido de desculpa sentido possa ter eco por cima da muralha que gostava de ver edificada… O transmontano não esquece, mas sabe perdoar quem tal o merece…

Deste orgulhoso transmontano,

José Rainho

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