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Quem tem medo da lusofonia?

Walter Filipe, que também se apresenta como Jamba Kaji, é um jovem angolano que estuda em Portugal. Ele e mais outros jovens, oito no total, acabam de editar um livro de poemas com o título Um Abraço Quente da Lusofonia. Segundo o organizador do livro, o objectivo é congregar, «numa só obra, poesia, sentimentos e a abordagem de vários países que fazem a lusofonia, mas com a sua diversidade própria». Como jovem empreendedor, viajou para Luanda com 50, certamente em bagagem de mão, dos 500 exemplares produzidos. Outros tantos foram levados a Maputo por outra integrante do projecto, Tânia Tomé, apresentada na sessão de lançamento pelo poeta Eduardo White, como «um poema, um poema vivo que canta e encanta». Anunciava-se na altura que o livro seria igualmente lançado em Cabo Verde, Guiné—Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor e Brasil.
O lançamento deste livro, nos moldes em que se anuncia, é um facto importante. Esta compilação de poemas não foi patrocinada pelo Instituto Camões. Não podemos portanto dizer que por detrás dela haja qualquer intenção de proteger a língua portuguesa. Este trabalho colectivo resulta do esforço de sete jovens que vivem e estudam em Portugal, e que têm em comum, entre outras coisas, o uso da língua portuguesa.
Não é de todo acidental que estes jovens se encontrem em Portugal. Portugal é o único sítio onde se pode pensar a língua portuguesa, ou o conjunto de países de língua portuguesa como um todo. E isso justifica-se, por exemplo, por já haver aí uma genealogia de ideias semelhantes. Há mais de 50 anos, Mário Pinto de Andrade, na altura estudante de Filologia em Lisboa, reuniu os poemas de companheiros seus, entre os quais Francisco José Tenreiro, Noémia de Sousa, Agostinho Neto, num livro a que chamou Antologia Poética de Expressão Portuguesa. A inspiração vinha de Paris, onde, quatro anos antes, em 1949, Léopold Sédar Senghor tinha editado em França a primeira antologia de poetas negros.
Não é necessário explicar as intenções do gesto de Mário de Andrade. Por trás da poesia havia um projecto político para a formação de movimentos políticos que conduziriam à independência das colónias portuguesas. Desde esta altura, Lisboa tem-se mantido o centro da identidade lusófona. Antes pela exaltação do império, agora pela celebração da lusofonia. É inegável que existe em Lisboa uma aproximação natural dos falantes da língua portuguesa, que não portugueses, mesmo quando não partilham a mesma raça e cultura. As diferenças nacionais diluem-se em virtude da discriminação a que todos estão submetidos. E faz todo o sentido pensar nesta diluição como necessidade de resistência à discriminação, no sentido em que a metrópole torna homogéneos todos os ex-colonizados, arrumando-os nas categorias de “pretos”, “negros”, “imigrantes”.
Tornei-me sensível a isso pela minha experiência pessoal. Foi em Lisboa que me assumi como negro e africano, algo que até à altura em que deixara Luanda me tinha preocupado muito pouco. Na residência do Lumiar, com estudantes de outras proveniências (santomenses, caboverdianos, guineenses e moçambicanos), vivi momentos de fraternidade, digamos, lusófona. Nas festas dançávamos todos kizomba, e nos saraus, cantávamos Apili, Dju di Galinha, Eliza Gomara Saia, Sodade. Foi pois com espanto que, anos mais tarde, ao viajar por Cabo Verde e pela Guiné-Bissau, em recolha de material para escrever O Fazedor de Utopias, não me tenha sentido particularmente acarinhado por falar a mesma língua – quando encontrava, claro, pessoas que a falavam à-vontade.
No entanto, o discurso por detrás da lusofonia alimenta-se da ficção de que o simples facto de haver uma língua comum entre os povos que outrora formavam as colónias portuguesas potencia um sentimento de fraternidade. Esta ideia é capaz de ter vindo da antropologia contemporânea à época colonial, mais especificamente do que ficou conhecido por hipótese Sapir-Whorf: a sistemática relação entre as categorias de gramática da língua que uma pessoa fala e o modo como esta pessoa entende e interage com o mundo.
Este princípio encontra-se igualmente imbuído na obra de Gilberto Freyre, antropólogo brasileiro, instruído em várias universidades americanas, entre as quais a de Columbia, com Frantz Boas e Ruth Benedict. No seu livro Casa Grande e Sanzala, obra-prima tanto das ciências sociais como da imaginação brasileira, Freyre explica que o povo brasileiro resulta do cruzamento entre o português, o africano e, em menor grau, o índio. A mestiçagem é celebrada, apesar da violência inerente a todo o processo, como um encontro fraterno entre povos de três continentes nos trópicos brasileiros. Salazar, que era um homem de cultura e erudição, interessou-se logo pelas ideias deste teórico. Eram para si a melhor maneira de explicar o colonialismo português, contrapondo-o ao da França e Inglaterra. Num gesto de propaganda, convida Gilberto Freyre a visitar as colónias portuguesas. Pretendia-se que Freyre chegasse a conclusões semelhantes àquelas a que tinha chegado sobre os portugueses no Brasil. As reflexões saíram em forma de diário no livro Aventura e Rotina.
Mário de Andrade, Amílcar Cabral e outros nacionalistas empenharam-se na desconstrução deste mito, como forma de contestar a dominação colonial. O Estado Novo foi até às últimas para justificar o seu ponto de vista. Para se furtar às críticas da comunidade internacional, cada vez mais tonitruantes, já nem se falava em colónias, mas sim em províncias ultramarinas, apresentadas como verdadeiras sociedades multirraciais. Mas os nacionalistas da África Lusófona perderam a batalha ideológica, uma vez que o grosso do ideário do luso-tropicalismo ainda fermenta o discurso português sobre o passado colonial. A lusofonia foi construída sobre este conceito, celebrando o encontro entre colonizados e ex-colonizados, a mestiçagem, como se no seu subtexto não houvesse também silêncios, consentimento, violência, intolerância, genocídios e o ocaso de muitas culturas.
fotografia de Miguel Seabra Lopes, mindelo fotografia de Miguel Seabra Lopes, mindelo
E enganam-se todos aqueles que pensam que a apropriação de tais discursos está apenas circunscrita aos meios políticos, e que os seus objectivos são facilmente discerníveis na relação entre Portugal e as suas colónias, nomeadamente o de tornar privilegiadas as trocas comerciais. Este discurso já se infiltrou em alguns meios académicos. Boaventura Sousa e Santos surge na tradição do Gilberto Freyre quando, em Entre Próspero e Caliban: Colonialismo, Pós-Colonialismo e Inter-Identidade, resgata alguns aspectos da teoria do mestre brasileiro, filtrando-a no jargão da literatura pós-colonial, para afirmar que só um português, tirando partido da sua qualidade de subalterno na Europa, estaria talhado para realizar nos trópicos uma experiência de aproximação com os povos antigamente dominados.
A colectânea de poemas dos jovens lusófonos vai um pouco nesta linha. Não estamos perante um projecto político, muito menos académico, cujo fim confesso é a reciclagem do passado colonial. Estamos sim perante o esforço singular de um grupo de jovens lusófonos, muito provavelmente fora de qualquer um daqueles circuitos, mas que não deixam de ser indiferentes à dimensão pragmática que a evocação da palavra lusofonia confere, sobretudo num contexto português, fascinado ainda pelo seu passado, e ansioso por ouvir palavras de lisonja da boca dos ex-colonizados.
retirado do livro Poligrafia: das páginas de jornais angolanos, Casa das Ideias
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chrys chrystello

Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL