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A tempestade Kristin deixou o rasto habitual: casas inundadas, árvores tombadas, milhares de pessoas sem eletricidade e o discurso de sempre. Nas redes sociais, a coreografia repetiu-se. Uns culpam o Estado por tudo. Outros invocam o clima como destino incontornável. No fim, nada muda, porque ambos os discursos servem para evitar a única conversa que interessa.
O problema não é apenas meteorológico. Tempestades intensas existem há séculos neste território e hoje tendem a ser mais frequentes e violentas. O que mudou de forma decisiva foi a forma como ocupámos o solo. Durante décadas, construímos como se essas tempestades não existissem. Ocupámos leitos de cheia, autorizámos loteamentos em zonas de risco, canalizámos ribeiras, impermeabilizámos solos e chamámos a isso progresso. Cada decisão camarária, cada licença concedida, cada plano diretor aprovado foi uma aposta de que a sorte duraria para sempre. Kristin limitou-se a cobrar a fatura.
Invocar responsabilidade individual parece sensato, mas é insuficiente e muitas vezes enganador. Quando alguém constrói em zona inundável com licença municipal, quem falhou? Quando um município aprova loteamentos sem salvaguardar linhas de água, onde termina a escolha privada e começa a falha pública? A assimetria é evidente. Cidadãos decidem dentro das regras que o poder público define, tolera ou ignora. Fingir uma simetria perfeita entre responsabilidades é conveniente, mas falso.
Isso não absolve tudo nem todos. Há municípios que decidiram melhor do que outros. Houve pressão de proprietários, promotores e interesses locais para forçar más opções. Houve cumplicidades e silêncio conveniente. O problema não é um Estado abstrato, é um sistema concreto de decisões políticas, técnicas e económicas que privilegiou crescimento rápido sobre risco conhecido.
Os seguros são outro exemplo de falsa simplicidade. Tratá-los como mera opção individual ignora que vastas franjas da população não têm margem financeira para coberturas adequadas. Ignora também que o próprio mercado segurador recusa ou encarece drasticamente seguros em zonas de risco elevado, criando áreas onde a solução privada simplesmente não existe. Dizer “deviam ter seguro” a quem perdeu tudo numa casa licenciada pelo próprio Estado não é análise fria, é crueldade disfarçada de pragmatismo.
A verdade inconveniente é esta: resolver o problema implica custos políticos que poucos querem pagar. Implica dizer não a construções que prometem emprego e receita fiscal. Implica recusar licenças, rever planos diretores, relocar famílias, expropriar terrenos e restringir usos do solo. Implica conflito aberto com proprietários, promotores e autarcas. Implica aceitar que decisões legais no passado não são automaticamente legítimas à luz do risco que hoje conhecemos.
Implica também abandonar a ilusão de que crescimento económico e ocupação territorial desregulada são a mesma coisa. Portugal tem população em queda, mas áreas urbanas em expansão. Construímos mais onde precisamos menos e, muitas vezes, nos sítios errados. Cada nova catástrofe confirma que o modelo falha, mas a inércia continua a vencer.
Kristin foi violenta, mas não foi surpresa. As próximas tempestades também não serão. Entre agora e a seguinte, faremos estudos, anunciaremos planos, alocaremos fundos a projetos que ficarão na gaveta. Quando a próxima chegar, repetiremos o ritual: uns culparão o Estado, outros o clima, todos evitarão a conclusão óbvia.
Sabemos o que é preciso fazer. Sabemos que passa por menos exceções, mais recusas e mais conflitos antes da próxima tempestade. Falta apenas decidir se estamos dispostos a pagar esse preço, em vez de continuar a pagá-lo em cada inundação.