açorianismos J.m. Soares de Barcelos

Curiosidades sobre a linguagem dos Açores

“Embarcar de calhau” é uma expressão antiga que significava embarcar clandestinamente nos barcos baleeiros americanos, geralmente rapazes novos, para fugir ao serviço militar e tentar a sorte nas terras da América; também se dizia “embarcar, ir ou fugir de salto”. Mais uma vez, citando a ‘Raiz Comovida’ de Cristóvão de Aguiar: “[…] segue-se que foram em cata da sua ventura, embarcaram de calhau naquele mar excomungado das Capelas, raivoso que eu sei lá […]”.
Por extensão, a expressão também pode significar sair-se bem de uma empresa arrojada ou difícil.

O termo “embuziado”, com o significado de mal-encarado é muito frequente em certas ilhas e derivará certamente de búzio. Voltando a citar Cristóvão de Aguiar (Raiz Comovida): “Mestre Oliveira […] estava estrenoitado e deprimido. Ao vir de dentro da Avenida, onde ficava a regedoria, sentia-se embuziado“.
Existe também o verbo “embuziar”, com o significado de embezerrar, fazer-se macambúzio. O mesmo autor escreve em ‘Relação de Bordo’: “Tempo acabrunhado. Serve para embuziar quem anda em sintonia com os ilhéus […]”.
E o acto de embuziar chama-se “embuziamento”. Mais um exemplo do mesmo escritor, do seu romance, ‘Marilha’: “Mas, ultimamente, nenhuma razão de queixa tem havido, nem sequer entre nós existe amuo ou embuziamento”.

“É-me”, é a estropiação de «É homem», provavelmente com a seguinte evolução: É homem→É home→É-me. É muito usada por todo o arquipélago: – “É-me, ´tás vendo bem o quem estás fazendo?”; “– É-me, anda com a gente ao peixe e vás ver o qu’ é pescar!”

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