Poupem-nos, por favor… crónica de Osvaldo Cabral

Poupem-nos, por favor…

 

Há espectáculos tristes na política actual que vão marcar várias gerações.

Já nem falo do plano nacional, onde o número de casos nasce todos os dias tão certo como o sol nasce todas as manhãs.

Há políticos que têm o condão de deixar tudo minado por onde passam, descredibilizando todo o resto, até os bens intencionados, que também os há, mas mais raros.

O caso da lista dos candidatos do PSD dos Açores à Assembleia da República é um destes exemplos.

Já toda a gente percebeu que Passos Coelho não vai com a cara de Mota Amaral e quer Berta Cabral a substiuí-lo na liderança dos candidatos às eleições para o parlamento nacional.

O PSD local, em vez de se afirmar e resolver o assunto de uma penada, prefere arrastá-lo em lume brando, submetendo Mota Amaral a um vexame público de quase pedir “pelo amor de Deus” para continuar na lista e Berta Cabral a dar a imagem de que também quer empurrar o seu antigo mentor pela borda fora…

Há espectáculos tristes que não têm explicação, mas este é de puro amadorismo político dos sociais-democratas açorianos, que empurrando o problema com a barriga para a frente julgam que tudo se resolverá por si mesmo.

Quando Duarte Freitas diz que a decisão só será tomada depois de conhecida a estratégia que o partido tomará a nível nacional, o que é que isto tem a ver com a escolha do cabeça de lista pelos Açores?

Seja qual for a estratégia a adoptar, com coligação ou sem coligação, é sempre ao PSD-Açores que caberá escolher o cabeça de lista, pelo que este assunto já deveria estar decidido há muito.

A hesitação só demonstra que há uma deriva para o partido nos Açores se curvar aos órgãos dirigentes de Lisboa, os mesmos que não tiveram vergonha de propor acções disciplinares a Mota Amaral por ter votado contra as propostas orçamentais que Passos propôs para os Açores.

A retaliação é própria de gente fraca e seja qual for a posição, agora, do PSD-Açores – mesmo que não venha a escolher nem um nem outro – será sempre vista como uma posição fraca.

A paz podre que reinou à volta deste assunto no congresso do passado fim de semana é aflitiva para muita gente e só o bom senso – e uma estratégica laringite – não terá levado alguns congressistas a cerrar fileiras.

Se Passos quer ver Berta Cabral no parlamento já devia tê-la convidado a concorrer por um círculo continental qualquer, à semelhança do que fez com Costa Neves.

Submeter tanta gente a este espectáculo é revelador do carácter que se vive no interior dos partidos.

Não está em causa – atenção – o lugar de ninguém, porque eles não são vitalícios e a renovação é um desejo de cada geração, mas sim o modo como se age em política para as pequenas vingançazinhas pessoais ou políticas.

O PSD vai perder as eleições nos Açores, como de resto no todo nacional, mas se quer uma derrota de outra dimensão e desonrosa, pois então que se alie a Artur Lima ou apresente uma lista que não moleste a nomenclatura lisboeta.

Sim, porque uma derrota de 4 contra 1 não é inédita nos Açores.

Aconteceu em 1991, com o PS, e toda gente se recordará do que aconteceu a seguir ao seu líder regional…

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Outro espectáculo a que nos deviam poupar são as permanentes declarações de Sérgio Ávila sobre o “paraíso” em que vivemos.

O Vice-Presidente do Governo Regional pode ser um técnico reputadíssimo, insubstituível nas Finanças, mas como político esbarra sempre contra a realidade.

As suas leituras sobre as estatísticas do desemprego, da situação económica e das finanças públicas não batem certo com aquilo que os açorianos sentem no dia a dia.

É um pouco à semelhança de Passos Coelho.

Quem ouve Sérgio Ávila fica quase convencido de que também temos os “cofres cheios”.

E no entanto, depois do descalabro da SATA, com o governo a dever várias dezenas de milhões de euros, mais as da Atlânticoline, e agora, ao que se sabe, as da famigerada ATA (mais 14 milhões por pagar), percebemos bem (ou talvez nem tanto) a verdadeira dimensão do buraco em que estamos mergulhados com as empresas públicas regionais…

Pico da Pedra, Março 2015

Osvaldo Cabral

(Correio ds Açores; Diário Insular; Multimedia RTP-A; Portuguese Times EUA; Lusopress Montreal)

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Publicado por

chrys chrystello

Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL