Urbano Bettencourt sobre Garcia Monteiro

Pois, como costumava dizer o meu amigo Ernesto Gregório (citando, aliás, Ferlinghetti), os lugares passam, o currículo continua.

GARCIA MONTEIRO – AUTÓGRAFOS E ALGO MAIS

 (breve apontamento que publiquei no «Boletim do Núcleo Cultural da Horta», nº de 2014; não incluo os poemas que lá complementavam o meu texto)

Em 1996, Carlos Jorge Pereira preparou uma pequena antologia  de poemas do poeta faialense Garcia Monteiro, destinada a assinalar o centenário das Rimas de Ironia Alegre, publicadas em Boston em 1896. O volume saiu em Maio de 1997, sob  responsabilidade editorial da Livraria Civilização e da Contexto, em formato quase idêntico ao do original, donde provinha, aliás,  a maior parte dos poemas selecionados por Carlos Jorge Pereira. 
No elucidativo e muito bem informado prefácio que escreveu, o organizador da edição, investigador do Centro de Estudos Americanos da Universidade Aberta, começava por referir a dificuldade de encontrar exemplares do livro de  Garcia Monteiro.  Em Portugal, registara apenas três, todos na Biblioteca Nacional, em Lisboa, tendo um deles pertencido à biblioteca de Fialho de Almeida, a quem fora dedicado pelo autor (com assinatura  e data  de  23/IX/1896, em Boston).
Compreende-se o gesto de Garcia Monteiro, se se tiver presente que Fialho terá sido o único grande intelectual  português a «reparar»  no poeta açoriano; fê-lo no Correio da Manhã, a 4 de Maio de 1885, a pretexto do volume Versos (Horta,1884) e acompanhando o seu texto com os poemas «Na miséria» e «Pai da Pátria», segundo informação que Pedro da Silveira me forneceu em carta particular dos anos 90 do século passado. O texto de Fialho de Almeida,  recolhido por Henrique das Neves no seu Individualidades (Lisboa, 1910) e incluído por Carlos Lobão na miscelânea de poesia e prosa de Garcia Monteiro, A Trança (Horta, 1989), não se circunscreve a questões poéticas, mas  adianta um conjunto de informações de natureza física, psicológica e comportamental do poeta, que resultarão do convívio com Garcia Monteiro nos anos  em que este viveu em Lisboa (1881-1883); Fialho revela ainda estar a par do  projecto do poeta, já então nos Estados Unidos, de formar-se em Medicina, curso que  viria efectivamente  a concluir em Boston,  em meados de Abril de 1890 (como  informa George Monteiro em preciosa nota publicada no Boletim do Núcleo Cultural da Horta, 2011, 205-207). Também segundo Pedro da Silveira, o escritor continental já antes se tinha ocupado de Garcia Monteiro na secção Kaleidoscópio, do Diário da Manhã, a 16 de Novembro de 1883; e os termos da  dedicatória a Fialho, transcrita por Carlos Jorge Pereira, atestam isso mesmo, essa relação de proximidade entre os dois  – «o seu admirador e velho amigo», escreve Garcia Monteiro.  
Por altura da  edição de 1997, uma pesquisa rápida permitiu-me localizar  mais dois exemplares de Rimas de Ironia Alegre: um na Biblioteca da Universidade dos Açores e outro na Biblioteca Pública de Ponta Delgada e integrando a «livraria»  de Teófilo Braga, também autografado, mas num registo seco e  formal que contrasta com o tom da dedicatória a Fialho: «Ao Exmo Snr./ Dr Theophilo Braga/ off./ o auctor/» (1-X-1896).
Talvez uma busca mais alargada permitisse  descobrir novos exemplares, embora uma pesquisa online na Biblioteca de Angra se tenha  revelado infrutífera. Ficavam, assim, devidamente referenciados cinco exemplares do livro de Garcia Monteiro, pelo menos em espaço tradicional, pois uma busca através do Google atestava a existência de um ou outro exemplar à venda em sistema online (na sua mencionada  nota, George Monteiro refere a existência de Rimas de Ironia Alegre em quatro bibliotecas norte-americanas). Mais recentemente, por  informação particular,  Carlos Lobão  referia-me o registo de  três exemplares do «livro americano» de Garcia Monteiro na Biblioteca Pública João José da Graça, da Horta. 
Em Setembro do ano passado, exactamente no último  dia do mês, uma mensagem de Ruy Ventura dava-me conta de que encontrara  à venda em Azeitão um exemplar da edição original das Rimas,  e indagava  do meu interesse em ficar com ele. Adquiri-o. Tratava-se, afinal, de um  exemplar que viera de uma biblioteca de Arruda dos Vinhos  e  pertencera ao político  Luciano Cordeiro, a quem o autor o dedicara a 2-X-1896 e no  tom lacónico utilizado no dia anterior para com Teófilo Braga: «Ao Exmo Snr/ Luciano Cordeiro/ off./ o auctor». 
Mais tarde, Ruy Ventura anunciava-me que encontrara novo exemplar das Rimas  à venda em  Lisboa e que o tinha comprado via internet. A dedicatória deste, sem data, é  mais familiar, mesmo que relativamente singela: «À sua boa irmã/ Adelaide,/ Manoel/ E. Boston». 
A notícia fica assim em jeito de registo pontual, sem cuidar das voltas que estes livros terão dado  pelo mundo até nos chegarem às mãos mais de cem anos depois. Mas gostaria de deixar dois ou três apontamentos suscitados pelas indicações paratextuais fornecidas pelo autor e que, prendendo-se com o processo de produção  do livro, reflectem de algum modo a   condição  do próprio escritor.  
Uma NOTA deste  esclarece que cerca de doze anos antes tinha preparado  uma colectânea de versos que alguém se oferecera para publicar em Portugal, uma promessa não cumprida, afinal. Tendo recuperado a custo os  manuscritos, graças à intervenção de um amigo, eles ficaram guardados à  espera de melhor ocasião, dadas as exigências do curso de Medicina que passara a frequentar.
Só depois de acabado o curso, e quando as «preoccupações  do struggle for life se tornaram menos penosas»,  Garcia Monteiro   aproveitou a  sua experiência de antigo tipógrafo no Faial e nos Estados Unidos  e se lançou ao trabalho de compor e imprimir o livro na  própria casa  (186 Webster Street, East Boston, Mass),  tendo-o concluído a 8 de Setembro de 1896  – duas informações minuciosas sobre a história editorial. 
A verdade é que durante esse tempo de espera os rumos literários  tinham-se alterado em Portugal, como o poeta reconhece: a «antiga  esthetica do verso» fora destruída e os novos poetas seguiam a bandeira da moderna escola, ou seja, as tendências do fim de século, entre elas o decadentismo e o simbolismo; o  primeiro deles é explicitamente visado no soneto  «Pose» e, quanto ao segundo, não deixa de ser irónico que as suas primeiras manifestações insulares tenham ocorrido n’O Açoriano, o jornal que Garcia Monteiro fundara na  Horta, antes de emigrar. O poeta faialense, reconhecidamente, mantivera-se fiel ao rigor poético do parnasianismo, aos seus códigos narrativizantes e pusera tudo isso ao serviço de uma visão satírica do mundo. 
Alguns dos poemas de Rimas de Ironia Alegre foram escritos cerca de  vinte anos antes da sua publicação no livro, ou seja, são textos da Horta,  e de Lisboa também,  outros trazem  já a indicação de Boston como o lugar da sua génese. E este é talvez um dos aspetos mais peculiares da poesia de Garcia Monteiro, pois,  mesmo vivendo na costa leste dos Estados Unidos,  o seu quadro de referência social, cultural, continuou  a ser o do abreviado mundo insular, com as suas pequenas  vaidades e aspirações de ascensão social a qualquer preço, a miséria do funcionalismo, os sonhos    românticos como contraponto à mediocridade quotidiana;     «Pela boca», um sonetilho escrito em Boston, é um exemplo notável de tudo isso, como é também uma notável peça poética, pelo equilíbrio formal e lógico, pela excelente  capacidade de contenção e pelo  sentido  crítico que tanto abrange comprador como vendido (neste caso, um jornalista). É apenas um exemplo de uma obra poética que levou Carlos Jorge Pereira a considerar Garcia Monteiro o mais completo poeta satírico entre, de um lado,  Tolentino e Bocage, no século XVIII,  e, do outro, Alexandre O’Neill, no século XX. Não é pouco. 

Urbano Bettencourt
Urbano Bettencourt GARCIA MONTEIRO – AUTÓGRAFOS E ALGO MAIS

 

(breve apontamento que publiquei no «Boletim do Núcleo Cultural da Horta», nº de 2014; não incluo os poemas que lá complementavam o meu texto)

Em 1996, Carlos Jorge Pereira preparou uma pequena antologia de poemas do poeta faialense Garcia Monteiro, destinada a assinalar o centenário das Rimas de Ironia Alegre, publicadas em Boston em 1896. O volume saiu em Maio de 1997, sob responsabilidade editorial da Livraria Civilização e da Contexto, em formato quase idêntico ao do original, donde provinha, aliás, a maior parte dos poemas selecionados por Carlos Jorge Pereira.
No elucidativo e muito bem informado prefácio que escreveu, o organizador da edição, investigador do Centro de Estudos Americanos da Universidade Aberta, começava por referir a dificuldade de encontrar exemplares do livro de Garcia Monteiro. Em Portugal, registara apenas três, todos na Biblioteca Nacional, em Lisboa, tendo um deles pertencido à biblioteca de Fialho de Almeida, a quem fora dedicado pelo autor (com assinatura e data de 23/IX/1896, em Boston).
Compreende-se o gesto de Garcia Monteiro, se se tiver presente que Fialho terá sido o único grande intelectual português a «reparar» no poeta açoriano; fê-lo no Correio da Manhã, a 4 de Maio de 1885, a pretexto do volume Versos (Horta,1884) e acompanhando o seu texto com os poemas «Na miséria» e «Pai da Pátria», segundo informação que Pedro da Silveira me forneceu em carta particular dos anos 90 do século passado. O texto de Fialho de Almeida, recolhido por Henrique das Neves no seu Individualidades (Lisboa, 1910) e incluído por Carlos Lobão na miscelânea de poesia e prosa de Garcia Monteiro, A Trança (Horta, 1989), não se circunscreve a questões poéticas, mas adianta um conjunto de informações de natureza física, psicológica e comportamental do poeta, que resultarão do convívio com Garcia Monteiro nos anos em que este viveu em Lisboa (1881-1883); Fialho revela ainda estar a par do projecto do poeta, já então nos Estados Unidos, de formar-se em Medicina, curso que viria efectivamente a concluir em Boston, em meados de Abril de 1890 (como informa George Monteiro em preciosa nota publicada no Boletim do Núcleo Cultural da Horta, 2011, 205-207). Também segundo Pedro da Silveira, o escritor continental já antes se tinha ocupado de Garcia Monteiro na secção Kaleidoscópio, do Diário da Manhã, a 16 de Novembro de 1883; e os termos da dedicatória a Fialho, transcrita por Carlos Jorge Pereira, atestam isso mesmo, essa relação de proximidade entre os dois – «o seu admirador e velho amigo», escreve Garcia Monteiro.
Por altura da edição de 1997, uma pesquisa rápida permitiu-me localizar mais dois exemplares de Rimas de Ironia Alegre: um na Biblioteca da Universidade dos Açores e outro na Biblioteca Pública de Ponta Delgada e integrando a «livraria» de Teófilo Braga, também autografado, mas num registo seco e formal que contrasta com o tom da dedicatória a Fialho: «Ao Exmo Snr./ Dr Theophilo Braga/ off./ o auctor/» (1-X-1896).
Talvez uma busca mais alargada permitisse descobrir novos exemplares, embora uma pesquisa online na Biblioteca de Angra se tenha revelado infrutífera. Ficavam, assim, devidamente referenciados cinco exemplares do livro de Garcia Monteiro, pelo menos em espaço tradicional, pois uma busca através do Google atestava a existência de um ou outro exemplar à venda em sistema online (na sua mencionada nota, George Monteiro refere a existência de Rimas de Ironia Alegre em quatro bibliotecas norte-americanas). Mais recentemente, por informação particular, Carlos Lobão referia-me o registo de três exemplares do «livro americano» de Garcia Monteiro na Biblioteca Pública João José da Graça, da Horta.
Em Setembro do ano passado, exactamente no último dia do mês, uma mensagem de Ruy Ventura dava-me conta de que encontrara à venda em Azeitão um exemplar da edição original das Rimas, e indagava do meu interesse em ficar com ele. Adquiri-o. Tratava-se, afinal, de um exemplar que viera de uma biblioteca de Arruda dos Vinhos e pertencera ao político Luciano Cordeiro, a quem o autor o dedicara a 2-X-1896 e no tom lacónico utilizado no dia anterior para com Teófilo Braga: «Ao Exmo Snr/ Luciano Cordeiro/ off./ o auctor».
Mais tarde, Ruy Ventura anunciava-me que encontrara novo exemplar das Rimas à venda em Lisboa e que o tinha comprado via internet. A dedicatória deste, sem data, é mais familiar, mesmo que relativamente singela: «À sua boa irmã/ Adelaide,/ Manoel/ E. Boston».
A notícia fica assim em jeito de registo pontual, sem cuidar das voltas que estes livros terão dado pelo mundo até nos chegarem às mãos mais de cem anos depois. Mas gostaria de deixar dois ou três apontamentos suscitados pelas indicações paratextuais fornecidas pelo autor e que, prendendo-se com o processo de produção do livro, reflectem de algum modo a condição do próprio escritor.
Uma NOTA deste esclarece que cerca de doze anos antes tinha preparado uma colectânea de versos que alguém se oferecera para publicar em Portugal, uma promessa não cumprida, afinal. Tendo recuperado a custo os manuscritos, graças à intervenção de um amigo, eles ficaram guardados à espera de melhor ocasião, dadas as exigências do curso de Medicina que passara a frequentar.
Só depois de acabado o curso, e quando as «preoccupações do struggle for life se tornaram menos penosas», Garcia Monteiro aproveitou a sua experiência de antigo tipógrafo no Faial e nos Estados Unidos e se lançou ao trabalho de compor e imprimir o livro na própria casa (186 Webster Street, East Boston, Mass), tendo-o concluído a 8 de Setembro de 1896 – duas informações minuciosas sobre a história editorial.
A verdade é que durante esse tempo de espera os rumos literários tinham-se alterado em Portugal, como o poeta reconhece: a «antiga esthetica do verso» fora destruída e os novos poetas seguiam a bandeira da moderna escola, ou seja, as tendências do fim de século, entre elas o decadentismo e o simbolismo; o primeiro deles é explicitamente visado no soneto «Pose» e, quanto ao segundo, não deixa de ser irónico que as suas primeiras manifestações insulares tenham ocorrido n’O Açoriano, o jornal que Garcia Monteiro fundara na Horta, antes de emigrar. O poeta faialense, reconhecidamente, mantivera-se fiel ao rigor poético do parnasianismo, aos seus códigos narrativizantes e pusera tudo isso ao serviço de uma visão satírica do mundo.
Alguns dos poemas de Rimas de Ironia Alegre foram escritos cerca de vinte anos antes da sua publicação no livro, ou seja, são textos da Horta, e de Lisboa também, outros trazem já a indicação de Boston como o lugar da sua génese. E este é talvez um dos aspetos mais peculiares da poesia de Garcia Monteiro, pois, mesmo vivendo na costa leste dos Estados Unidos, o seu quadro de referência social, cultural, continuou a ser o do abreviado mundo insular, com as suas pequenas vaidades e aspirações de ascensão social a qualquer preço, a miséria do funcionalismo, os sonhos românticos como contraponto à mediocridade quotidiana; «Pela boca», um sonetilho escrito em Boston, é um exemplo notável de tudo isso, como é também uma notável peça poética, pelo equilíbrio formal e lógico, pela excelente capacidade de contenção e pelo sentido crítico que tanto abrange comprador como vendido (neste caso, um jornalista). É apenas um exemplo de uma obra poética que levou Carlos Jorge Pereira a considerar Garcia Monteiro o mais completo poeta satírico entre, de um lado, Tolentino e Bocage, no século XVIII, e, do outro, Alexandre O’Neill, no século XX. Não é pouco.

Urbano Bettencourt

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