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AMIGOS, aqui segue a crónica deste sábado:
Acerca das palavras LI – em defesa de Saramago
Sinto-me, confesso, algo constrangida e até ridícula por sair em defesa de um autor que foi Prémio Nobel, que está traduzido em imensíssimas línguas, que foi, e é, aplaudido por muitos dos maiores, que faz parte dos curricula escolares, enfim, cujo reconhecimento fala do valor da sua obra. Talvez porque temos nós, filhos da lusa nação, tendência para não apreciar condignamente o que é nosso, vejo muitos, alguns menos letrados, outros bastante letrados, a acusar o Nobel de não usar pontuação ou de não a saber usar. Equívoco, grande, grande equívoco. Já fui defendendo o autor de Memorial do Convento quando oportuno, mas também fui notando que não demovo as gentes das suas convicções. Tentarei, aqui, demonstrar que Saramago pontuou os seus romances e fê-lo com toda a correção.
Tomarei como corpus, pois basta, o Memorial do Convento, obra (re)conhecidíssima. Devo, antes, dizer que, mostrou-mo a experiência, já longa, não há bom escritor que não seja bom cultor da sua língua, que não a domine bem, que não a manobre eximiamente. Assim foi Camões, assim foi Vieira, assim foi Eça, assim foi Pessoa, assim foi Saramago. Não se pense que a obra de Saramago, como a dos seus pares, é grande pela imaginação, pela evidência de grande cultura, pelo vetor crítico, mas não o é pela escrita – falhasse esta e tudo o mais perderia o fôlego que faz um escritor grande. Nem se pense a inovação linguística, presente na obra de todos os bons escritores, implica ou permite desprezo pelas regras; diria, até, que é necessário manobrar a língua com muita destreza para arriscar a sua inovação.
Ora quanto à pontuação, que, de facto, diferencia a obra saramaguiana, basta ler com atenção qualquer dos seus romances para nos certificarmos de que não há desprezo pelo uso desta – acontece é que o Nobel usa, tendencialmente, frases longas, onde, por vezes, se sucedem narração, descrição, reflexão e diálogo, e, assim, sendo menor o uso de ponto, é avultado o uso de vírgulas, usadas com toda a correção e desenvoltura.
Atentemos no início de Memorial do Convento: “D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca (…)”. Aqui temos a presença de ponto, a demarcar duas frases, e abundante uso da vírgula. Na primeira frase (ou período), a vírgula demarca dois modificadores apositivos (antigo aposto), respeitantes a “D. João” e a “sua mulher” e uma oração subordinada adjetiva relativa explicativa (“que chegou… “). Na segunda frase, a vírgula demarca um modificador do predicado (antigo complemento circunstancial) e um advérbio de frase. Nada mais correto, nada mais respeitador das regras. Estão convencidos, caros maldizentes de Saramago?
Usa, porém, o Nobel, a vírgula noutras condições, estas menos vulgares, como se pode notar no seguinte excerto: “… e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, (…) Baltazar Mateus, também me chamam Sete-Sóis.” Aqui, para além de vírgulas “vulgares”, nomeadamente a demarcar a oração gerundiva, temos as vírgulas “criativas”, aquelas que Saramago usa para demarcar o discurso direto. Não é erro, é opção estética, novidade consistentemente usada, que em nada configura erro.
Bem, caríssimos censuradores do nosso Nobel, sei que muitos de vós não ficarão convencidos, mas fiz o que senti como meu dever. E sugiro que, quando se aproximarem de uma obra de Saramago, percam um tempinho a observar bem a escrita, talvez, até, a contar as vírgulas e a constatar como estão todas usadas com a maior correção.
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- Susana Goulart CostaÉ isso mesmo, Paula! Não saberia descrever ou justificar tão bem como faz. Por isso, subscrevo as suas palavras.
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