PAULA SOUSA LIMA E O SEXISMO NAS PALAVRAS

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AMIGOS, aqui vai a crónica deste sábado, à consideração da vossa inteligência e sensatez:
Acerca das palavras XXXVII – sexismo linguístico
É na e pela linguagem que se manifesta a forma de pensar e de agir de uma comunidade, os seus valores, os seus padrões comportamentais, ou seja, a nossa forma de usar a língua diz-nos o que somos enquanto sociedade. E seremos uma sociedade sexista?
Está consignado na gramática da língua portuguesa que o plural masculino engloba tanto seres do sexo masculino como do feminino. Pode ser uma regra sexista – porém, não nos devemos sentir incomodados por ela. Se lemos “caros leitores” e somos do sexo feminino, só por teimosia nos podemos sentir excluídas. Quem quiser arredar completamente o suposto sexismo da linguagem pode cair em excessos como o que passamos a exemplificar: “Caros/as e diletos/as alunos/as, sejam bem-vindos/as. Espero que todos/as os/as alunos/as estejam empenhados/as e animados/as para dar início ao ano letivo.” Pesadíssimo. Cansa, como cansa!
Mas há casos, leitores, que me incomodam. Assim, conquanto eu me situe numa posição comedida em relação a estas questões do sexismo, não posso deixar de notar algumas curiosas expressões do mais gritante sexismo que subsistem nos hábitos linguísticos. De facto, palavras há que desmerecem o sexo feminino, retirando-lhe dignidade.
Notem-se os adjetivos “sério”, “honrado”, “honesto”. Estão no masculino e classificam homens cujas qualidades são as de, por ordem, ter uma atitude correta e fiável no domínio social e moral, ser cumpridor dos seus compromissos e da sua palavra, apresentar hábitos que não lesam o património alheio. Repare-se que estes adjetivos, no masculino, têm uma abrangência social, moral, ética. Agora vamos pensar nos mesmos adjetivos, mas na forma feminina. Na aceção quotidiana, uma mulher séria é aquela cuja conduta moral jamais ferirá os laços matrimoniais. Assim se pensa também, quase sempre, quando se fala de uma mulher como honrada ou mesmo honesta. Não terá a mulher direito a ser uma cidadã de pleno direito – correta, fiável, cumpridora dos seus compromissos, com atitudes e hábitos socialmente adequados? Há de valorizar-se a mulher apenas de acordo com o seu comportamento perante o homem? A posição ancilar da mulher relativamente ao homem já devia ter sido banida dos valores ocidentais, ditos igualitários. Devia…
Curioso é também notar a quantidade de palavras que existem para referir a dita mais velha profissão do mundo. Uma mulher que ganha a vida vendendo o corpo pode ser chamada prostituta, rameira, meretriz, marafona, puta… O homem que toma igual opção é simplesmente designado com a elegância da palavra gigolô. Mas mais curioso ainda é ter em atenção que a mulher adúltera toma todos os epítetos da que vende o corpo, acrescidos de uma série de criações metafóricas animais, como cabra, vaca, cadela. Alguém se lembrará de apelidar o homem que comete adultério com a palavra cão ou boi? Também temos a palavra “perdida”, que é das mais curiosas para designar uma mulher cujo comportamento sexual não é exemplar. E o homem “perdido” não há? Apetece-me citar uma frase muito batida, mas inteira de significado: “Um homem com muitas aventuras sexuais tem currículo, uma mulher tem cadastro.”
A nossa linguagem trai-nos, somos todos muito pela igualdade, mas… O sexismo linguístico revela preconceitos semiocultos, mas que subsistem, não sendo em nada dignificantes para as mulheres.
Telmo R. Nunes and 9 others
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