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crónica 370 VOTOS SAZONAIS dez 2020
Desde o início do ministério público de Jesus, fariseus e adeptos de Herodes, sacerdotes e escribas, mancomunaram-se para matá-lo. Por causa da expulsão de demónios, perdão dos pecados, curas ao sábado, interpretação dos preceitos de pureza da Lei, familiaridade com publicanos e pecadores públicos, Jesus pareceu a uns mal-intencionados, suspeito de possessão demoníaca. É acusado de blasfémia e de falso profetismo, crimes que a Lei punia com a pena de morte por apedrejamento. Nos templos, cheios de vendilhões, diz o poeta António Aleixo in “Este Livro que Vos Deixo…”):
Os Vendilhões do Templo
Deus disse: faz todo o bem
Neste mundo, e, se puderes,
Acode a toda a desgraça
E não faças a ninguém
Aquilo que tu não queres
Que, por mal, alguém te faça.
Fazer bem não é só dar
Pão aos que dele carecem
E à caridade o imploram,
É também aliviar
As mágoas dos que padecem,
Dos que sofrem, dos que choram.
E o mundo só pode ser
Menos mau, menos atroz,
Se conseguirmos fazer
Mais p’los outros que por nós.
Quem desmente, por exemplo,
Tudo o que Cristo ensinou.
São os vendilhões do templo
Que do templo ele expulsou.
E o povo nada conhece…
Obedece ao seu vigário,
Porque julga que obedece
A Cristo – o bom doutrinário.
Hoje há muitos que mereciam serem apedrejados e continuam à solta com as mordomias que o povo ignorante e manipulável lhes concede em troca do voto quadrienal com que os enganam, enquanto distribuem futebol, fado e falácias em ambiente circense de telenovela em tempo real, para que se preocupem com as inutilidades dos outros sem cuidarem da sua.
Aos iluminados desejo esperança, são a elite minoritária que teima em não se calar, em WikiLeaks ou outros, a desmascarar a globalizada corrupção que detém os cordelinhos dos dirigentes em folias mandatadas pela banca, embora se arrisquem a ter um processo e serem desacreditados perante os ingénuos e analfabetos.
Cada vez mais, o otimismo é visto como o verdadeiro realismo: espécie de objetividade emocional, que através da perceção positiva nos ajuda a ver a vida com outros olhos, e a construir uma vida melhor: “Os otimistas são os que acham que a vida vale a pena ser vivida”.
A todos desejo, nesta estação como no resto dos anos que virão, por entre crises, guerras, fomes, catástrofes naturais e humanas, os melhores votos, na certeza de que cada um constrói o berço de palhinhas em que se deita e não adianta ficar à espera, porque os Reis Magos não andam de camelo e o GPS deles não vos localiza. Por outro lado, à volta estão Pilatos e Herodes e na cruz já não estão o bom e o mau ladrão, que andam ocupados em coisas da governação e não têm paciência para fazer companhia ao Cristo.
Dito isto e face à crise que vem por anos (ou décadas), sorria, sinta-se melhor e lembre-se dos milhões que estão pior, os que não têm (ou já não têm) liberdade de escrever o que pensam e sentem, os que não têm água ou comida, ou não têm teto, ou não têm saúde ou trabalho, os escravizados e que estão bem pior do que nós.
Dizem que a idade amolece os espíritos, mesmo os empedernidos como o meu, e os faz reviver momentos passados. Sinto nostalgia pelo que passou e energia e tempo desperdiçados na voragem da vida, com sonhos e desilusões, acalentando a esperança infinitamente vã de ser mais feliz ou menos infeliz. Assim repito votos inúteis de paz, felicidade e amor, por entre ruínas das guerras e catástrofes que o homem causa mas que não o incomodam enquanto afivela o sorriso de Boas-Festas.
Quanto mais os anos passam, mais o esqueleto se recusa ver a imagem que o cérebro gravou e que não é a mesma que se reflete no espelho. É sempre difícil aceitar a degenerescência e envelhecimento, por mais graciosos que os queiramos. Cumpre fazer o balanço do deve e do haver de cada um, sabendo dar graças, a quem quer que seja, por termos resistido a tudo que se nos colocou como obstáculo e que conseguimos ultrapassar. Alguns assemelham-se a brincadeira de criança, embora, na época em que ocorreram, mais se assemelhassem a catástrofes gigantescas. Não sei envelhecer sentimentos e desejos, continuo um eterno adolescente cheio de fulgor mental, de sonhos, ambições, insatisfeito por não almejar mais. Não nego que me interrogo sobre a razão pela qual temos de andar neste vale de lágrimas, como diriam os mais crentes, mas dou graças por ter conseguido o que já alcancei.
O ano foi pleno de crises, dificuldades e doenças com a pandemia do medo e a do SARS-COV2, confinamentos, restrições à liberdade, desrespeito à constituição em nome da saúde, e o ano a findar com uma mudança de liderança nos Açores ao fim de 24 anos de PS no poder, desgastado, sem ideias, com tiques autoritários e arrogantes, substituído por uma caranguejola (mistura de caranguejo e santola) antinatura a prometer mudanças enquanto o arquipélago se afunda nas estatísticas do ensino, da economia, da violência doméstica e outros indicadores. O desemprego ao virar da esquina, a economia lânguida sem turismo e a enorme incógnita sobre como serão os anos que se seguem, em que nem eu me arrisco a fazer previsões ou votos, sejam quais forem. O otimismo irei mantê-lo custe o que custar, pois sei que poderíamos estar bem pior do que estamos
Com efeito, nunca me canso de agradecer não ser do Afeganistão, Coreia do Norte, Nigéria, Mali, Paquistão, Bangladeche, Irian Jaya (Papua Ocidental sob ocupação indonésia desde 1962), Iémen, Iraque, Irão, Caxemira, (na ainda ilegal) República Sarauí, República do Congo, Chade, República Democrática do Congo, República Centro-Africana, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Ruanda, Burundi, Quénia, Uganda, Somália, Etiópia, Sudão, Líbia, Síria, Egito, Eritreia, Camboja, Birmânia (Myanmar), Chechénia, ou na maioria dos países da América Central, Latina ou do Sul, México, Albânia, Hungria, países balcânicos e da ex-União Soviética, Ucrânia, Crimeia e países terminados em “tão” (Turquemenistão, Tajiquistão, etc.) num total de 151 atualmente em guerra…
O otimismo irei mantê-lo custe o que custar, pois sei que poderíamos estar bem pior do que estamos e para mim estar nos Açores é viver no Éden apesar das traiçoeiras maçãs e serpentes que aqui plantaram junto com as Evas.
Chrys Chrystello, Jornalista, Membro
Honorário Vitalício nº 297713 [Australian Journalists’ Association] MEEA] para [Diário dos Açores (desde 2018), Diário de Trás-os-Montes (desde 2005) e Tribuna das Ilhas (desde 2019)]
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Honorário Vitalício nº 297713 [Australian Journalists’ Association] MEEA] para [Diário dos Açores (desde 2018), Diário de Trás-os-Montes (desde 2005) e Tribuna das Ilhas (desde 2019)]