eram estes os meus votos para 2020

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E DEPOIS DO NATAL – CRÓNICA 306 – 26.12.19

 

Agora que o natal acabou já podemos voltar a andar à lambada, sem beijos, abraços e prendinhas. Já não preciso fingir ser simpático para a tia Gertrudes que sempre foi uma grande vaca, ou para a vizinha Desidéria que é uma cusca sempre à janela a dizer mal dos outros. Não preciso fingir que somos amigos, nem mesmo daquele grandessíssimo filho da mãe que me tramou e eu, durante anos, a pensar que era o melhor amigo… Não preciso fingir que gosto de toda a gente, pois obviamente não gosto. Não precisam de disfarçar que são amigos de peito quando somos “amigos” no Facebook, e aí a palavra amigo significa no máximo “conhecido de vista (tenho uma vaga e indistinta ideia)”, embora até não conheça grande parte, nem esteja interessado. Isto faz lembrar a história do senhor que era tão popular que nem podia ter mais amigos nas redes sociais, mas no enterro só tinha o coveiro e o da casa funerária. Agora que deitamos fora a máscara da hipocrisia que tal uma promessa de ano novo, das que todos os anos repetimos para nunca serem cumpridas, mais ou menos como “para o ano vou deixar de fumar “…Eu há muito que cumpro a promessa de não fazer fretes a ninguém, nada faço que me incomode ou amofine, mas tento ter a cortesia suficiente para continuar a viver em sociedade, nada mais. Cresci em ambientes de fingimento e de faz-de-conta que, como sabemos, constituem a espinha dorsal da hipocrisia da sociedade contemporânea. Ao abdicar das regras passei a ser “persona non-grata” ou meramente antipática, se bem que bastante mais coerente do que fui em tempos idos. E como disse Antoine de Saint-Exupéry “Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior com planícies invioláveis, vales de silêncio e paraísos secretos”. Espero, se a tanto me ajudar o engenho e arte, 2020 assista à produção de mais poesia pois é ela que comanda a minha vida ainda entremeada de utopias.