CARTA AO AR, ANTº BULCÃO

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Carta ao ar
Ó ar, como eu gosto de ti.
Comecei a dar-te valor ainda em criança, quando uma asma violenta te parava com um sinal de sentido proibido na boca e no nariz. Eu todo entupido a tentar sorver um milímetro de ti e nada. Começava então a ver estrelas por todo o lado.
Não havia as bombas que hoje há. Nem socorros de ventilan nas urgências do hospital. Havia pomadas aquecidas em banho-maria num boião de vidro, depois barradas em algodão e trancadas nas costas onde quase juro já me cresciam asas, num tempo em que era ainda anjo. Tudo para te ver entrar em mim de novo e apagar as estrelas para onde me sentia voar…
Depois passou-me. Aos dezasseis anos tive o último ataque. Não sei se por ter fumado daqueles cigarros castanhos que não eram cigarros e que caíam de uma árvore, ou cabelo de milho amassado na casca seca do mesmo, mas a asma foi-se embora.
Apesar de livre do suplício, o meu amor por ti não cessou, meu querido ar. Pelo contrário. Vi-te em correntes, vi-te condicionado, vi pessoas cheias de ti.
Em março deste ano chegou a covid que vinha rotulada como sendo do ano passado. E um dos sintomas assustou-me de morte. Falta de ti. Ventiladores a substituir-te em vão em milhares de cuidados intensivos.
Por ter pisado muitos riscos ao longo da vida, sou doente de risco, dizem. Por isso meti-me logo em casa, rezando para o bicharoco não se lembrar de mim, pois se se lembrasse rapava-me logo. Moro em cima do mar, por isso nunca me faltaste num quintal grande.
Só me faltas de novo, agora que as aulas presenciais regressaram. Ainda bem que regressaram, ensino é presença, como escrevi e mantenho. Mas falar uma hora e meia com uma máscara está a matar-me, meu doce ar. Sobretudo quando a seguir vem mais um tempo de noventa minutos…
Vivo numa ilha onde praticamente não há casos. E sou tratado como se vivesse numa cidade onde surgem casos às centenas todos os dias. Vives no paraíso, dizem os meus amigos continentais. Pois é. Só que viver no paraíso sem usufruir das vantagens do paraíso é um inferno, querido ar. É como se Eva decidisse sair do Éden para ir comprar maçãs ao Purgatório, com as árvores em seu redor carregadas de pecado.
Mas o que mais me dói é ver os políticos e outros que tais a falar sem máscara. Aconselham o uso da mesma sem ela nas fuças. Para falar dez minutos aos jornalistas, tiram a máscara. Mas um professor para falar noventa minutos tem de a ter. Quem me dera fosses como o sol, querido ar, que quando nasce é para todos. Dizem…
Por que será que os políticos se sentem no direito que nos negam? Será pela consciência de que privar os banais cidadãos da sua beleza física seria mais traumatizante que ficarem os mesmos contribuintes infectados? Ou é pela sensação de que a lei é igual para todos, menos para os que a fizeram?
Não vou faltar aos meus deveres escolares. Não quero prejudicar os meus alunos e meter baixa far-me-ia perder um rendimento essencial, pois vivo do meu trabalho. Assim sendo, vou continuar, dia após dia, a respirar dióxido de carbono. Sem nenhum conhecimento do mal que tal fará ao meu corpo, para além das tonturas.
Continuarei a ver os que mandam a mandar bitaites na televisão. A senhora que dizia que o bicho ruim não saía da China e, depois, que o uso de máscara não era aconselhável. Essa sim, devia usá-la até para dormir, para esconder a vergonha. O 1º ministro. O presidente do governo. O director regional da saúde. Todos os que aconselham andemos mascarados mas depois tiram a máscara para dar esse conselho.
E se um dia morrer a dar uma aula, morrerei no meu posto. Talvez nesse dia estas linhas façam mais sentido e imponham outro pensamento para futuro. Porque há poucas injustiças maiores que tratar de forma igual situações diferentes. Nem que seja no Corvo, onde não houve nenhum caso desde o princípio deste martírio, destapem as crianças e os seus professores.
Até esse dia, em que me faltes de vez, adeus, meu doce ar.
António Bulcão
(publicada hoje, no Diário Insular)