O GRANDE LÍDER NORTE-COREANO REAPARECE MAS EM FOTOGRAFIA…

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SUMÁRIO EXECUTIVO

A EPIDEMIA ABALA A COREIA DO NORTE

No auge da mobilização de emergência da Coreia do Norte contra a epidemia de Covid-19 o líder supremo Kim Jong Un deixou de fazer aparições públicas e mais um factor de incerteza passou a baralhar os cálculos da política internacional.
Kim foi visto em público pela última vez a 11 de Abril, presidindo a uma reunião da Comissão Política do Partido dos Trabalhadores da Coreia, e rompeu com o cerimonial estabelecido desde a ascensão ao poder em 2011.
Quatro dias mais tarde, Kim falhou a celebração do Dia do Sol, aniversário do nascimento do avô, Kim Il Sung, fundador e presidente eterno da República Democrática.

Saúde e desconforto

A ausência de Kim gerou rumores sobre eventuais problemas graves de saúde divulgados por círculos próximos de desertores e refugiados na Coreia do Sul, mas a propaganda de Pyongyang não avançou com desmentidos, denúncias de conspirações hostis ao regime e tão pouco divulgou qualquer imagem ou gravação de voz do líder supremo.
Noutro período de ausência prolongada, durante seis semanas em Setembro e Outubro de 2016, a propaganda referira, ao fim de 23 dias, que Kim tinha um «problema de desconforto físico», mostrando um filme em que o líder, então com 31 anos, coxeava no decurso da visita a uma fábrica.
Por motivos desconhecidos, mas, provavelmente, devido a questões de saúde, Kim Jong Il não está, de novo, em condições para aparecer em público numa conjuntura particularmente crítica.

Emergência nacional

A Coreia do Norte, sem reconhecer qualquer caso de infecção, declarou mobilização total e selou o país a 30 de Janeiro quando a Organização Mundial de Saúde declarou a epidemia de Covid-19 «emergência de saúde pública de âmbito internacional».
O encerramento da fronteira com a China e Rússia, as restrições internacionais bloqueando redes de contrabando e tráfico institucionais e de particulares, bem como confinamentos obrigatórios impedindo o comércio, geram condições para um agravamento agudo da subsistência quotidiana para a maioria dos 25 milhões de norte-coreanos.
A prolongarem-se condições desfavoráveis à produção e comercialização de produtos alimentares por privados, componente essencial da expansão do “sector cinzento” tolerado pelo Estado nas últimas duas décadas e
que ronda actualmente entre 30% a 50% do PIB, aumenta o risco de fome em regiões mais desfavorecidas.
Secas na Primavera e Verão e o tufão Lingling em Setembro do ano passado redundaram em más colheitas e levaram à redução das rações alimentares, situação recorrente e eco assustador da fome generalizada que entre 1996 e 1999 causou 500 mil a 600 mil mortes.
Na ausência de quaisquer dados fidedignos é impossível avaliar o impacto da pandemia no país com um sistema rudimentar de saúde pública, más condições sanitárias e onde cerca de metade da população sofre de subnutrição.
A China enviou, entretanto, um número não-especificado de testes de despistagem e a Cruz Vermelha tem vindo a fornecer ajuda médica, segundo adiantou segunda-feira o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês.
Geng Shuan, contudo, escusou-se a comentar a presença na
Coreia do Norte, desde 23 de Abril, de uma missão médica da República Popular liderada por Song Tao, chefe do departamento de relações internacionais do Partido Comunista, principal responsável pelos contactos entre Pequim e Pyongyang.

Fugir ao pesadelo

Em Seul, Tóquio e Washington proliferam comentários oficiais
desvalorizando notícias infundadas acerca da saúde de Kim, enquanto em Pequim e Moscovo se evita abordar o assunto.
A ausência de movimentações militares ou de aparições públicas fora dos padrões habituais de hierarcas como o vice-marechal Choe Ryong Hae, formalmente o número dois do regime, ou de Kim Yo Jong, membro da Comissão Política, irmã do líder supremo, são razões aventadas para afastar temores acerca de paralisia institucional ou de lutas de poder destabilizadoras.
A posição do herdeiro de Kim Jong Il, consolidada nas purgas que levaram ao fuzilamento do seu tio Kim Jong Chol, em 2013, não estaria assim em causa.
Sanções e impasse diplomática são a precária normalidade que interessa manter ainda que pela quarta vez este ano Pyongyang tenha realizado este mês disparos de mísseis de curto alcance.
Kim Jong Un nunca perdeu de vista a lição do pai de que só a posse de armas nucleares pode evitar que os Estados Unidos voltem a considerar a possibilidade do uso de bombas atómicas contra o regime e nada indica que a curto prazo Pyongyang altere a sua política.
O general Douglas MacArthur face ao avanço das tropas norte-coreanas e chinesas durante a guerra iniciada em 1950 por Kim Il-sung propôs o recurso a bombas atómicas.
O presidente Harry Truman recusou e acabou por demitir o herói da Guerra do Pacífico em Abril de 1951, mas este momento marcou a dinastia Kim.
A ameaça nuclear de MacArthur, o bombardeamento arrasador do Norte da península, a manipulação das divergências entre os patronos chineses e soviéticos, acentuaram a beligerância de Pyongyang e tiveram um papel
essencial no desenvolvimento de um projecto militar nuclear, com cumplicidade da rede clandestina do paquistanês Abdul Khan.
O primeiro teste de uma bomba norte-coreana ocorreu em 2006 e seguiu-se nova explosão em 2009.

O eclipse

Kim Jong Il prosseguiu a via aberta pelo pai com quatro testes
nucleares, confirmando a invulnerabilidade da Coreia do Norte a
ameaças militares.
A capacidade de ataque e/ou retaliação contra a Coreia do Sul e o Japão, eventualmente Hawaii e costa do Pacífico norte-americana, ultrapassa a diminuta dimensão do arsenal nuclear dada a sua potencial e insuportável capacidade destrutiva.
Os riscos de destabilização da Coreia do Norte devido a lutas internas pelo poder ou de colapso económico são de tal maneira elevados que num mundo em crise e no quadro de afrontamento entre Washington e Pequim não é de surpreender que o eclipse de Kim Jong Il perturbe e atormente.

barradas.joaocarlos@gmail.com
Jornal de Negócios, 28 Abril 2020

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Comments
  • João Barradas Kim attends the completion of a fertiliser plant, together with his younger sister Kim Yo Jong, in a region north of the capital, Pyongyang, in this image released by Korean Central News Agency on Saturday.