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O Senhor Morto
O Senhor Morto estava dentro de uma caixa de vidro. Para que todos pudéssemos ver que estava ali e que estava morto.
Era a imagem que mais me impressionava, na Igreja da Matriz. Todas as outras estátuas tinham os olhos abertos e estavam de pé. Anjos com asas e santos com cajados para se aguentarem melhor nos altares, Santa Cecília com uma harpa, para lembrar ser a padroeira da Música. Só o Senhor Morto estava deitado, com os olhos fechados.
Muito estranho, para uma criança, ver um Senhor que estava morto, na base do terceiro altar a contar da entrada, e ver o mesmo Senhor vivo noutros altares.
Ainda mais estranho na Páscoa. O Senhor Morto ia dar um passeio à Sexta-Feira, num cortejo chamado procissão. Depois voltava para a sua caixa de vidro. Mas eu esperava que ele ressuscitasse no Domingo. Era assim que estava previsto, que estava nos livros da catequese e nos sermões do padre.
A igreja inteira a cantar “ressuscitou, ressuscitou” e eu a vê-lo morto ao meu lado.
Depois meti na cabeça: aquele Senhor podia estar vivo e morto ao mesmo tempo. Por isso é que se chamava Nosso Senhor. Estava por todo o lado, quer estivesse vivo, quer estivesse morto.
Pai: que saudades desse tempo dos calções curtos, a entrar na igreja pela tua mão. Foste-te fez há pouco vinte anos, por isso tenho de te contar como as coisas andam por aqui.
Estou trancado em casa há um mês, pai. Por causa de um vírus chamado corona, que começou num mercado de uma cidade chinesa o ano passado. Sempre desconfiei de malta que come ratos e baratas. Desta vez parece que foram morcegos.
Claro que eles poderão desconfiar de nós, que comemos lapas. Mas eu cá acho que é muito diferente. A lapa é um animal limpinho, sempre ali na água, até se mama com o mar a escorrer da casca, se for mansa e apanhada no calhau. Já uma barata é coisa bem diferente. Fico arrepiado com aquele estalo que dão quando lhes meto o pé em cima, nem quero imaginar o que seria trancar uma pela goela abaixo, mesmo que fosse frita.
Mas pronto, a doença começou ali, e toda a malta esperava que por ali ficasse. Víamos as notícias que chegavam de lá e pensávamos que aquilo era coisa dos chineses. O médico que denunciou morreu a ficámos mais assustados. Um rapaz novo, médico ainda por cima, morrer de um vírus, era mais sério do que julgávamos.
Não ficou pela China. Foi para Itália e depois para todo o Mundo. E chegou à ilha.
Havia o rumor de que um terceirense tinha regressado de Itália e era suspeito. Na primeira aula da manhã um aluno confirmou. Disse de que freguesia era e que tinha andado a ver bailinhos no salão da mesma. Na segunda aula da manhã uma aluna disse que era o primo dela. Ficámos à espera do teste. Deu negativo. Respirámos fundo.
Mas por poucos dias. Ao primeiro caso positivo, entrámos em alerta, depois em contingência, depois em emergência. A escola já tinha fechado logo no alerta.
Meti-me logo em casa. Por ter pisado muitos riscos ao longo da vida, pertenço ao grupo de risco. E aqui estou, faz hoje precisamente um mês. Em todos os canais os mortos sobem no Mundo, ainda mais os infectados.
Espero a fase de mitigação numa casa à beira-mar. Sou um privilegiado por poder apanhar sol no alpendre. Não sei o que significará ficar em casa para quem partilha o mesmo quarto com mais oito pessoas em Bombaim. Como não imagino o que quer dizer ficar em casa para um sem-abrigo em Lisboa. Apesar de o primeiro a morrer em Portugal tenha sido o maior do banco onde guardo alguns cêntimos…
Estamos todos mortos, pai, só que não tínhamos reparado. Como o Senhor Morto, parecendo vivo num lado, morto dentro de uma caixa de vidro no outro. O grande José viu-nos todos cegos, no seu Ensaio. O que não escreveria hoje? Afinal não estamos apenas todos cegos. Estamos mortos.
Talvez ressuscitemos. Talvez saiamos da caixa de vidro. Mas que tenhamos aprendido a lição. É só o que peço. E espero.
António Bulcão