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José Manuel Santos Narciso is with Raquel Ochoa.
Nunca comento a morte de figuras “grandes”. Porque me sinto muito pequeno para o fazer. Hoje, ao saber que tinha morrido o antigo presidente e descendente do grande clã Bensaude, Luís, de seu nome, lembrei-me deste livro de Raquel Ochoa que li há mais de seis anos. Uma grande homenagem.
Luís Bensaúde mereceu-a e para mim é uma referência.
“Sem Fim à Vista”
Por gentileza de José Ernesto Resendes, Sócio e Administrador da Publiçor e da Nova Gráfica, tive ocasião de ler o livro “Sem Fim à Vista”, de Raquel Ochoa, ainda antes de ser impresso e apresentado. E apaixonei-me de imediato por ele, de tal forma que, passados alguns meses, – estávamos em Agosto de 2012 – , sinto rigorosamente o mesmo que escrevi então.
Efectivamente, “Sem Fim à Vista” é um dos mais belos romances de viagem que já li na minha vida. Raquel Ochoa deslumbra pelos conhecimentos, cativa pela humanidade e sugestiona pelo suspense. A paisagem corre-nos na leitura como que pelo vidro do combóio; o ar dos mais recônditos lugares perpassa no olhar para fora, no infinito que abarcamos da janela do avião, e a sensação de onda ressalta, como se num grande cruzeiro singrássemos mares desconhecidos.
Mas, acima de tudo, “Sem Fim à Vista” é um romance que internacionaliza os Açores, levando-nos, de muito longe, ao mais recôndito das ilhas, nas festas e nas romarias, no calvário das deslocações a Lisboa, para tratamentos, curas e transplantes, nas sagas dos aeroportos e das viagens, dos atendimentos e desatendimentos.
Raquel Ochoa, neste romance, – nunca lhe tinha lido outro, apesar de saber que em 2009 ganhou o prémio Revelação Augustina Bessa Luís – , é a prova escrita de que há uma juventude madura que muito tem para dar às letras açorianas e deste país, na fluência que eu diria polícroma da narração – como o percebeu Urbano para tão belas ilustrações – que encadeia cenários, mistura mundos, ocidentaliza orientes e universaliza ilhas, na cadência cativante dos diálogos, curtos, claros, humanos e sugestivos, e na sempre misteriosa espera de algo de novo que se desprende do livro, até ao fim das suas mais de trezentas páginas.
É mesmo “Sem Fim à Vista” a sensação que me fica depois de ler este romance que deve ser um orgulho editorial para Letras Lavadas e para a literatura açoriana, se admitirmos que há uma literatura açórica que eu aceito tão mais regional quanto universal e inserida nas correntes do mundo. Raquel Ochoa nasceu em Lisboa, mas no seu livro sente-se o palpitar das ilhas e quase se absorve o cheiro das caldeiras e os tons dos verdes açorianos em diálogos na ilha Norte da Nova Zelândia, nos lagos, nas pastagens nos pássaros e no clima… “como nos Açores”. E daí que me sinta tentado à citação: “ Veio dos Açores para descobrir que o mundo é uma ilha no oceano do universo”.
Não sou ninguém para me atrever a apreciar o livro de Raquel Ochoa, que se vem impondo nas Letras e no Pensamento.
Ao saber-se que a saga narrada no livro é baseada num momento de vida de uma conhecida personalidade da sociedade micaelense que conseguiu o milagre de ultrapassar distâncias e de fazer regressos de imprevistos que poderiam ser fatais, mais apetece ler e reler o livro, de onde sobressai o pensamento que marca: “ Não declares guerras a ti. Há uma mágica quimera, qualquer coisa sublime que ainda terás de atravessar. Não tenho dúvidas de que todas as tuas contradições, estas que trazes no teu semblante, foram a causa para encontrares um sentido benéfico, um caminho para te reergueres. E não te esqueças: a vida não depende só da sabedoria e da sorte, nem sequer do itinerário. A vida depende dos encontros. Tens mil encontros destinados. Só te vais embora depois de os teres concretizado”.
Não se pode falar do livro sem referir as ilustrações de Urbano. Telúricas, fortes, apelativas, são pausa para respirar na leitura e nelas quase se sente o coração palpitar na vida e na cor, já que para além dos dez mil exemplares a preto, foram editados milhar e meio de exemplares a quadricromia, o que mais faz ressaltar a arte de Urbano que, como sempre, não precisa de adjectivos.
Por tudo isto, estamos perante uma obra de grande envergadura que vale a pena ler e que tenho a certeza, está destinada a outros voos, como aconteceu com a “Casa-Combóio”, vencedor do Prémio Augustina Bessa-Luís que foi traduzido e publicado em Itália.
Santos Narciso