açorianidades Carlos Reis

in mundo açoriano

Sobre a pertença açoriana

Cultura
Sobre a pertença açoriana
Sempre tive algumas dúvidas relativamente à pertinência de conceitos como açorianidade ou literatura açoriana. As razões são várias, mas agora não vêm ao caso. O que vem ao caso é ter-me eu dado conta, nos últimos anos (ou mais do que isso…), de um certo sentimento de pertença, diretamente estimulado pela minha condição de açoriano. Vivendo fora das ilhas há décadas, a ausência e a distância muito têm contribuído, paradoxalmente, para agudizar aquele sentimento, que leva em si memórias várias: das cores da paisagem, do movimento do mar, da música, da culinária, até mesmo do sotaque e das peculiaridades dialetais que distinguem quem nasceu e aprendeu a falar nos Açores. E também quem os conheceu nos dias da rádio, ou seja, antes da chegada da televisão.

Não vai nisto qualquer nostalgia, coisa a que sou pouco propenso, menos ainda a vivência de membro da diáspora açoriana, que só obliquamente posso ser. Há não muito tempo, entretanto, tive uma experiência académica que confirmou em mim a crença de que a diáspora açoriana ajuda a acentuar aquilo a que chameipertençaaçoriana.

Já falarei disso, mas antes vale a pena lembrar o que é sabido: que o motivo da diáspora, no universo literário, que é aquele em que me situo, elabora-se de modos distintos. Menciono dois deles: por um lado, a experiência pessoal do escritor que parte, muitas vezes como exilado, experiência essa que frequentemente se projeta sobre os mundos ficcionais, sobre a sua conformação e sobre as personagens que os povoam; por outro lado, a consciência da diáspora convoca temas literários propriamente ditos. Neste caso, a sua representação completa-se com a expressão de sentidos precisos: o exílio, a emigração, a comunidade, a saudade, a distância, o regresso.

A partir do significado primeiro de diáspora, com suporte no sentido nuclear do vocábulo grego e na ideia de dispersão do povo judeu, deduz-se a noção translata a que me vinculo. Uma tal noção afasta-se do “conceito fechado de diáspora” a que se alude num ensaio clássico de Stuart Hall, autor capital nesta matéria, recentemente desaparecido. Alargando o alcance operatório da noção de diáspora, Hall fala ainda em “lugares de passagem” e em “significados que são posicionais e relacionais, sempre em deslize ao longo de um espetro sem começo nem fim”.

Entretanto, as representações da diáspora vão além da literatura e do trajeto de vida dos escritores que nela disseminam os temas que a estruturam como atitude existencial e como visão do mundo. Concorda com isto o facto de uma reunião científica sobre a diáspora portuguesa se poder apresentar como interdisciplinar e comparativa: refiro-me à conferência internacional “Exploring the Portuguese Diaspora in Interdisciplinary and Comparative Perspectives”, que teve lugar em Indianápolis, em julho passado.

Não foi um colóquio estritamente acerca da diáspora saída dos Açores. E contudo, nele foi por várias vezes sentida, expressa ou tacitamente, a presença disso a que já se chamou literatura luso-americana, que compreende escritores originários da diáspora açoriana como Alfred Lewis (nascido Alfredo Luís, na ilha das Flores), Francisco Cota Fagundes, Frank Gaspar ou Katherine Vaz. Ao mesmo tempo, a participação direta de Irene Maria F. Blayer, de Dulce Maria Scott (organizadoras da conferência), do já citado Francisco Cota Fagundes, de Richard Simas, de Frank Sousa e de Pedro Bicudo (certamente entre outros que me não vêm à memória) reforçou em mim aquela pertença de que falei – e que é uma outra forma de ser açoriano fora dos Açores.

CARLOS REIS
Professor da Universidade de Coimbra
Natural da Terceira, residente em Coimbra
28-03-2014
Please follow and like us:
error

Publicado por

chrys chrystello

Chrys Chrystello presidente da direção e da comissão executiva da AICL