português é a 3ª língua no fb

Português é a terceira língua mais utilizada no Facebook – Nós na Rede

www.jn.pt

A língua portuguesa é a terceira mais utilizada na maior rede social do planeta. O Facebook conta, neste momento, com cerca de 58,5 milhões de utilizadores a interagir em português.

JUDEUS EM NOVA IORQUE

História dos Judeus portugueses que ajudaram a construir Nova Iorque

Fri, 11/30/12, Sergio Lopes enviou:

UMA BRASILEIRA CONTRA SALAZAR

Uma Brasileira Contra Salazar
A Secretária de Humberto Delgado

2006, 2.ª
Coleção: Extra Coleções
Número de Páginas: 168
Formato: 14 x 21
Encadernação: Brochado
ISBN: 972-24-1402-X
Tema: História
Código: 39053
PVP: 15.14 Euros

Arajaryr Campos, assassinada pela PIDE em 13 de Fevereiro de 1965, é uma heroína esquecida. Poucos portugueses e brasileiros de hoje sabem quem foi essa mulher corajosa que deu a vida pelo ideal da Liberdade. Secretária do General Humberto Delgado no exílio, acompanhou-o no combate contra a ditadura e seguiu fatidicamente os seus últimos passos em direção à morte.
«Uma Brasileira Contra Salazar» é um manuscrito agora revelado a título póstumo, no qual Arajaryr Campos descreve o seu percurso político. Num estilo inconfundivelmente feminino e genuinamente brasileiro, é recriada a perigosa aventura da sua entrada clandestina em Portugal no final do ano de 1961, para uma tentativa de revolta armada contra o regime. A História é completada através de um capítulo adicional, da autoria de Iva Delgado, sobre o assassínio de Arajaryr Campos. Inclui ainda fotografias inéditas do arquivo de família, bem como testemunhos de quem a conheceu pessoalmente. Morta na flor da idade, Arajaryr Campos deixou no mundo uma filha de sete anos, Rosângela, que contribui para o livro de sua mãe com um epílogo.

http://www.livroshorizonte.pt/catalogo_detalhe.php?idLivro=885&catalogo=1&index=0&verTodas=0&letraInicial=

Decreto do governo vai adiar acordo ortográfico para 2016

in diálogos lusófonos

 

Alvo de controvérsia e ressentimento entre os países de língua portuguesa, o novo acordo ortográfico deverá ter a implementação adiada no Brasil por meio de decreto. O assunto foi discutido anteontem (28) na reunião entre representantes do Ministério das Relações Exteriores, Cultura, Educação e Casa Civil, mas a decisão caberá à presidente Dilma Rousseff, que dará a palavra final.

A previsão era a de que a transição entre a norma ortográfica em vigor e a nova fosse concluída em 31 de dezembro de 2012. Mas o governo já admite alterar a implementação do acordo para 1º de janeiro de 2016 –  um tempo extra de três anos. O Itamaraty ficará encarregado de construir o texto do novo decreto.

O cronograma de implementação foi assinado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva em setembro de 2008 na Academia Brasileira de Letras.

Na terça-feira (27), a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, ouviu o apelo por um prazo maior de uma comitiva formada pelos senadores Lídice da Mata (PSB-BA) e Cyro Miranda (PSDB-GO) e pelo professor Ernani Pimentel, idealizador do movimento “Acordar Melhor”, que propõe a simplificação ortográfica.

“Não houve planejamento para que o acordo fosse implementado. Assinaram há quatro anos esse acordo com essa data, mas ninguém se mobilizou para colocá-lo em prática. As coisas foram andando a passo de tartaruga” 
– critica o senador Miranda.

Ele completa: “Imaginem um vestibular sem os alunos saberem as regras”.

Entre outras coisas, o acordo ortográfico suprime o trema –  a exceção fica nos casos de nomes estrangeiros – retira o acento dos ditongos abertos “ei” e “oi” das palavras paroxítonas (como assembleia e ideia), altera as regras do hífen e inclui as letras “k”, “w” e “y” no alfabeto português.

A seu turno, o Ministério da Educação informou que todos os livros didáticos do ano que vem vão respeitar o novo acordo.

Para Pimentel, as autoridades brasileiras estão percebendo que há necessidade de fazer ajustes. “O grande problema desse acordo é que veio fora de época, nasceu velho, o estudante de hoje quer raciocinar para entender, não quer decorar. Como vou ensinar que cor de capim é sem hífen, cor de qualquer coisa é sem hífen, mas cor-de-rosa é com hífen?” – critica.

[Fonte: www.espacovital.com.br]

“Els límits de la meva llengua són els límits del meu món”
Ludwig Wittgenstein (1889-1951)

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Elisa Freixo lança CD gravado na Alemanha

Elisa Freixo lança CD gravado na Alemanha 

Obra será apresentada em concertos aos Órgãos Históricos de Mariana e Tiradentes e em Ouro Preto

 

A organista e cravista Elisa Freixo lança seu 14º álbum, em concertos especiais aos órgãos históricos de Ouro Preto, Mariana e Tiradentes. Os concertos apresentam parte das obras gravadas e acontecem no dia 1º de dezembro, no Museu do Oratório, em Ouro Preto, às 18h30; no dia 2 de dezembro, na Catedral da Sé de Mariana, às 12h15 e; no dia 7 de dezembro, na Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes, às 20h. Os ingressos para as apresentações e os CDs estão à venda nos locais do concerto.

 

Gravado durante o verão europeu de 2010, na Igreja de Waltersdorf, na Alemanha, o CD traz um repertório com músicas do Barroco tardio de tradição ibero-americana. Músicas de Scarlatti, Soler, Anônimos de Chiquitos, Sor Maria Clara, Seixas e Xavier Baptista promovem um intercâmbio cultural no sentido inverso, já que essas obras são quase desconhecidas na Alemanha.

 

Serviço: Lançamento do CD Waltersdorf – Elisa Freixo

Dia 1º de dezembro – Ouro Preto

Horário: 18h30

Local: Museu do Oratório (Adro da Igreja do Carmo, 28, Centro).

Ingressos: R$10,00

 

Dia 2 de dezembro – Mariana

Horário: 12h15

Local: Catedral da Sé (Praça da Sé)

Ingressos: R$ 24,00

 

Dia 7 de dezembro – Tiradentes

Horário: 20h

Local: Matriz de Santo Antônio

Ingressos: R$20,00

A net é a arma de uma nova revolução africana

2012-11-24 12:11:00
O discurso dos media sobre a África em mudança foi analisado numa conferência internacional na Fundação Gulbenkian

“Use sempre a palavra ‘África’, ‘Escuridão’ ou ‘Safari’ no título.

Os subtítulos devem incluir as palavras ‘Zanzibar’, ‘Masai’, ‘Zulu’, ‘Congo’ (…). Há outras palavras úteis como ‘Guerrilhas’, ‘Primordial’ e ‘Tribal’. Note que ‘Povo’ significa africanos que não são brancos enquanto ‘O Povo’ significa africanos negros (…). Uma AK-47, costelas salientes, seios nus: use-os. Se tiver de incluir um africano na capa do seu livro certifique-se que veste roupa Masai, Zulu ou Dogon. No texto, trate a África como se fosse um país”.

Esta é a forma como o escritor e jornalista queniano Binyavanga Wainaina lança “Como escrever sobre África” (Granta 92). É uma ironia sobre a forma como os não africanos, nomeadamente europeus, escrevem sobre o continente. Faz um retrato claro do tipo de expectativas que os ocidentais têm em matéria da narrativa sobre África.

Comparada com os media, a literatura tem um papel “recatado”. Daí que “O Tratamento dado à Informação sobre África nos Media” tenha sido o tema escolhido para a 3.ª edição do Observatório de África e da América Latina, organizado pela ACEP, que hoje decorre na Fundação Gulbenkian no âmbito do Próximo Futuro.

Wainaina ganhou o Prémio Caine para escrita africana, mas o valor da identificação das “instruções” que publicou na “Granta” (92), são inspiradoras para quem quer que pense no discurso que decorre do olhar sobre o outro.

É isso mesmo que se propõe fazer Lola Huete Machado, a participante (com António Pinto Ribeiro, Elísio Macamo, Fátima Proença, José Gonçalves e Sofiane Hadjeadj) do seminário de hoje, que cita o texto do escritor queniano na apresentação do seu blogue “África no es un país” (http://blogs.elpais.com/africa-no-es-un-pais/), com lugar cativo no sítio do diário espanhol “El País”.

Distância e ignorância

“Perguntar aos nigerianos se falam suaíli é o mesmo que perguntar aos portugueses se falam russo”, disse ao Expresso a jornalista, entrevistada a partir de Espanha, referindo-se às duas principais dificuldades em escrever sobre África: a distância cultural e a ignorância.

Lola Huete propôs que no seu blogue se escrevesse sobre a diversidade do continente para “começar a contrariar” a tendência do cliché. Lembra que Espanha, ao contrário de Portugal, nunca teve colónias na África subsariana e que este continente vibrante de diversidade continua preso à expectativa de que se fale “de fomes e desgraças”.

Em “África no es un país”, Lola Huete e outros autores tentam fazer o contrário: “Para evitar falar de África em geral, havia que falar dos países em concreto. O continente é ainda visto como imaginário porque o que se passa num lugar é muito diferente do que se passa noutro e tudo isso é África!”.

A tendência é temperar as “desgraças” com “histórias positivas”. E a maneira de o fazer de forma mais rica é através da mistura com a informação produzida naqueles 54 países. Daí que os blogues como este sejam catalisadores dessa “informação impressionante que está a ser produzida pelos africanos”.

Política, economia, questões sociais, sim, mas também música, teatro, literatura, saúde, ideias…

“Temos obrigação de mudar essa pretensão que os brancos têm de que há que ajudar, mesmo sabendo que as mentalidades não mudam de um dia para o outro”, disse Lola Huete.

Sem discriminação

Até que o discurso sobre África venha a ser normal, sem discriminação negativa nem positiva, “deixe-se que a internet, as redes sociais e os telemóveis continuem a fazer a sua revolução”.

A jornalista e bloguista do “El País” gostaria que o seminário de hoje fosse “normal” e que decorresse na mesma linha daquela com que informamos sobre outros assuntos. “Somos deste continente Europa, mas a África está aqui mesmo ao lado. Gostaria que fosse possível informar sobre África com a mesma naturalidade com que o fazemos sobre França ou os Estados Unidos”.

http://www.gulbenkian.pt/section49langId1.html

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TIMOR LESTE E A CORRUPÇÃO

Quinta-feira, 29 de Novembro de 2012

Timor-Leste: A INDEPENDÊNCIA E A DEMOCRACIA POR UM CANUDO

Ontem (28.11) Timor-Leste comemorou alegadamente mais um ano de independência. A data, em termos históricos, está correta (28 de Novembro) mas em termos práticos, realistas, os timorenses deixaram de estar enfeudados ao colonialismo português e aos ocupantes violentos da Indonésia para na atualidade se encontrarem sob o jugo de uns quantos políticos corruptos e panóplia cúmplice de suas ilhargas. Não são independentes, nem vivem em democracia.
Ainda agora o jornal timorense Tempo Semanal foca o tema, também na vigência do anterior governo de Xanana Gusmão isso mesmo aconteceu com intensidade sem que os resultados no combate à corrupção fosse efetivo mas sim uma branda, contida, comedida e teatral ação de faz-de-conta. Prova disso são os sinais exteriores de riqueza garbosamente exibidos por muitos das seitas próximas aos detentores dos poderes e a gozarem de impunidade. Gente que ainda há poucos anos andava com uma mão atrás e outra à frente, a procurar encobrir vestes remendadas, exibe-se agora com grandes bólides e casas apalaçadas no valor de muitos milhares de dólares ou até de milhões. Enquanto isso os timorenses na sua vasta maioria sobrevive na miséria, muitas vezes com fome, quase sempre carente de serviços de saúde adequados, escolas sem mesas, cadeiras e um minimo de mobiliários que não obrigue crianças a sentarem-se no chão ou em bancos improvisados com tábuas e bambús, etc, etc.
Não. Timor-Leste não é independente, nem democrático (a exemplo de muitos outros países). Sem justiça a democracia ou a independência é uma enorme falácia, como se pode ver no texto que se segue e em muitos outros que, para o caso, dispensamos incluir. Timor-Leste está a ver a independência e a democracia por um canudo, é ficticia, como em tantos outros países. Portugal, por exemplo. Constatando os factos, a realidade, é impossivel endereçar aqui parabenização sem que o recheio a hipocrisia não fedesse. (Redação PG)
Timor sob a ameaça da corrupção
Paulo Morais, vice-presidente da TIAC – Às Claras – blogue no Público – 18 de Maio de 2012
Cavaco Silva visita Timor para a posse do novo chefe de Estado, na sequên­cia dum ato eleitoral em que Ramos Horta, pres­i­dente em exer­cí­cio, saiu der­ro­tado. Este facto, por si só, já é um sin­toma de maturi­dade democrática. Mas a nota de maior ineditismo para um país lusó­fono e tão jovem reside no facto de dois min­istros do atual gov­erno estarem a con­tas com a justiça.
O jul­ga­mento de dois mem­bros de um gov­erno em exer­cí­cio é inédito na comu­nidade lusó­fona. Duvido que tal fosse pos­sível em Por­tu­gal. O Par­la­mento tim­o­rense em nen­hum momento hes­i­tou, sus­pendeu a imu­nidade aos dois gov­er­nantes através duma votação esma­gadora. O Par­la­mento parece querer per­mi­tir que se faça justiça.
A existên­cia de proces­sos judi­ci­ais con­tra dois dos min­istros mais poderosos, envolvi­dos em casos de cor­rupção, pode ter uma dupla inter­pre­tação: a dis­sem­i­nação de práti­cas con­denáveis, mas que estão sob a mira da justiça. Assim, o facto de a min­is­tra da Justiça Lúcia Lobato estar acu­sada de nepo­tismo, abuso de poder e cor­rupção, é pre­ocu­pante. Até porque as acusações estão rela­cionadas com a con­strução de escritórios da Con­ser­vatória do Reg­isto Civil em vários dis­tri­tos de Timor-Leste, estando a líder do PSD acu­sada de favore­cer con­stru­tores que finan­ciavam o seu par­tido. É tam­bém inqui­etante que, ao mesmo tempo, o min­istro da Admin­is­tração Interna, Arcanjo Leite, esteja indi­ci­ado por cor­rupção. Mas caberá agora aos Tri­bunais fazer justiça. Con­vém que as sen­tenças, quais­quer que elas sejam, não deixem qual­quer reserva ou sus­peição de favorec­i­mento ou até de perseguição.
Para além duma justiça aparente­mente atu­ante, tam­bém tem havido um enorme esforço de aumento de transparên­cia por parte das autori­dades tim­o­renses. O novo por­tal da transparên­cia per­mite que os cidadãos con­heçam em cada momento as receitas arrecadadas e as despe­sas efe­t­u­adas pelo seu gov­erno. E a dis­sem­i­nação de toda esta a infor­mação rel­e­vante na inter­net incen­tiva a que académi­cos, políti­cos, empre­sas, gru­pos de cidadãos ou sim­ples curiosos pos­sam em cada momento escruti­nar o modo de gov­er­nação. E isso é clara­mente pos­i­tivo, pois a transparên­cia é uma das vaci­nas para a corrupção.
Mas, por outro lado, temos de estar alerta. Na sua tomada de posse como pres­i­dente da con­fer­ên­cia epis­co­pal tim­o­rense, D. Basílio do Nasci­mento denun­ciou a cor­rupção como um dos grandes males de Timor. É, de facto, estranho que num país com tanta riqueza nat­ural, os mais des­fa­vore­ci­dos con­tin­uem na penúria e na indigên­cia e não se lhes garanta uma per­spetiva mais risonha para as suas vidas. A perceção do bispo de Bau­cau, alicerçada na sua exper­iên­cia no inte­rior do ter­ritório, é acom­pan­hada pelos indi­cadores inter­na­cionais. Em Timor, o CPI (Índice de Perceção da Cor­rupção) apre­senta um score baixís­simo (2,4), colo­cando o país no 143.º lugar da tabela, numa total de 178 países.
Estes são os sinais pre­ocu­pantes. E a leg­is­lação tim­o­rense não ajuda tam­bém. É de inspi­ração e matriz por­tuguesa, os diplo­mas têm pois muitas regras, a leg­is­lação é extensa e com­plexa. Sendo o povo tim­o­rense na sua maio­ria ile­trado, a leg­is­lação torna-se incom­preen­sível. Em sociedades de baixa for­mação, leg­is­lação extensa e com­plexa prej­u­dica os mais des­fa­vore­ci­dos que não con­seguem perce­ber e uti­lizar os instru­men­tos que as leis lhes con­ferem para se defender. E, por outro lado, ben­e­fi­cia os poderosos, que, bem asses­so­ra­dos pelos mel­hores advo­ga­dos, con­seguem fazer valer, mais do que a justiça, os seus inter­esses pessoais.
Em sín­tese, os sinais são con­tra­ditórios em Timor. A cor­rupção tende a instalar-se, mas a sociedade parece dis­por de mecan­is­mos para a com­bater. É pois o momento para uma forte mil­itân­cia anti-corrupção neste jovem país lusó­fono. Esta dev­e­ria ser a prin­ci­pal men­sagem para Cavaco Silva levar con­sigo. Para que a jovem nação que é Timor não repita, na próx­ima ger­ação, os erros que o Estado por­tuguês tem cometido nos últi­mos anos. Basta que o Pres­i­dente da República con­vença os líderes tim­o­renses a não pactuar com a cor­rupção. Mas quem é Cavaco Silva para dar con­sel­hos nesta matéria?

avaliação de professores

Educação Professores recusam avaliar colegas
As escolas arriscam-se a não ter avaliadores porque muitos professores estão a rejeitar fazê-lo, defendendo que não receberam formação. O alerta é lançado, esta quinta-feira no Diário de Notícias (DN), pelos directores de Agrupamentos de Escolas e sindicatos do sector que, entretanto, já pediram ao Ministério da Educação a suspensão do actual modelo de avaliação.
PAíS

Professores recusam avaliar colegas

DR
08:37 – 29 de Novembro de 2012 | Por Notícias Ao Minuto

O DN conta, na edição de hoje, que são vários os professores que estão a recusar avaliar as aulas dos colegas. Os docentes alegam que não receberam a formação que o Ministério da Educação prometeu para o passado ano lectivo de 2011/2012.

Os directores de Agrupamentos de Escolas Públicas e os sindicatos do sector já pediram a suspensão do actual modelo de avaliação de desempenho. Mas, a tutela garante ao DN que os professores avaliadores “terão (ainda este ano lectivo) acesso a uma formação de curta duração”.

As aulas assistidas são obrigatórias para os docentes do 2º e 4º escalões, para os que tiveram nota ‘insuficiente’ ou, por outro lado, para os que pretendem ter ‘muito bom’ ou ‘excelente’, e têm de ser pedidas até dia 15 de Dezembro.

Mas, o vice-presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), Filinto Lima, avisa que “há bastantes pessoas que já pediram escusa”. Nesse sentido, o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel António Pereira, reforça que “o ideal seria excluir as aulas assistidas”.

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Também a Federação Nacional dos Professores (Fenprof) e a Federação Nacional de Educação (FNE) pedem que o modelo de avaliação seja simplificado, uma vez que também não há progressão na carreira.

Com ou sem formação, a avaliação de professores continua a provocar a confusão nas escolas.

fim da educação gratuita

Entrevista Passos anuncia ‘morte’ da escola pública
O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, admitiu, esta quarta-feira à noite, em entrevista à TVI, que os cortes de 4 mil milhões de euros no Estado social, poderão passar, entre outras medidas, pelo fim da Educação gratuita, adoptando-se, para o efeito, “um sistema de co-pagamentos”.
POLíTICA

Passos anuncia 'morte' da escola pública

DR
07:11 – 29 de Novembro de 2012 | Por Notícias ao Minuto

Que o Governo iria proceder a cortes de 4 mil milhões de euros nas funções sociais do Estado, já era do domínio público. O que ainda não se sabia é de que forma vai o Executivo levar a cabo esta medida e, sobretudo onde, em que áreas.

Ora, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho deu esta quarta-feira a entender, no âmbito da entrevista que concedeu à TVI, que a área da Educação será um dos principais alvos da ‘tesourada’ que o Estado social vai levar. Desta feita, e à semelhança do que sucede no Ensino Superior, toda a educação poderá deixar de ser gratuita.

“Nós temos uma Constituição, como sabe, que trata o esforço do lado da Educação de uma forma diferente da do lado da Saúde. Isso dá-nos aqui alguma margem de liberdade na área da Educação para poder ter um sistema de financiamento mais repartido entre os cidadãos e a parte fiscal directa, que é assegurada pelo Estado”, sublinhou Pedro Passos Coelho.

Se de facto a Constituição não é um entrave para que a Educação passe a ser transversalmente paga, tudo indica que o modelo de propinas possa vir a ser aplicado à escola pública, através da introdução de co-pagamentos nos níveis de ensino que até aqui eram gratuitos.

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A Saúde e as pensões serão outras das áreas visadas nos cortes previstos, até porque, fez sobressair o primeiro-ministro, “70% da nossa despesa é com pessoal e prestações sociais”.

O líder do Executivo partilhou ainda que terá solicitado à troika três meses adicionais, isto é até ao Verão de 2013, por forma a negociar as medidas e auscultar propostas alternativas caso sejam apresentadas.

SEIXAS DA COSTA FIGURAS NACIONAIS EM ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS

in diálogos lusófonos

Portugal deve promover figuras nacionais em organizações internacionais – Seixas da Costa

Quarta-Feira, 21 Novembro de 2012
O embaixador de Portugal em França defende que o país deve promover a “colocação de figuras nacionais” em cargos de destaque em organizações internacionais, para investir na “imagem do país”. Francisco Seixas da Costa, que cessa funções como diplomata em Paris no fim de janeiro de 2013 e será a partir de fevereiro, diretor executivo do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa, em Lisboa, diz, por outro lado, que a promoção da língua portuguesa em França ficou “aquém” das suas “ambições”.

Numa entrevista à Agência Lusa, Francisco Seixas da Costa afirmou que “a esmagadora maioria das pessoas conhece Portugal, mas sabe pouco” sobre o país, defendendo que, “por isso, torna-se muito importante que a representação (de Portugal) no exterior passe uma imagem positiva”.  “Quando nós temos como presidente da Comissão Europeia um português (Durão Barroso), quando nós temos (um português) como alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados (António Guterres), quando nós temos um alto representante para a Aliança das Civilizações (Jorge Sampaio), quando temos o vice-presidente do Banco Central Europeu (Vítor Constâncio), tudo isto são fatores que funcionam como elemento de prestígio para Portugal”, exemplificou.
“O facto de o nome de Portugal estar ligado ao exercício de funções prestigiantes no quadro internacional é um elemento que nos ajuda a melhorar a imagem”, defendeu o embaixador, acrescentando que Portugal “deve e pode promover uma ação de colocação de figuras nacionais em lugares importantes nas diversas áreas”. O diplomata destacou ainda a necessidade de, depois, se “manter com esses funcionários e com essas entidades uma relação que também seja benéfica para Portugal”.
Na sua perspetiva, a diplomacia portuguesa é “uma espécie de almofada de continuidade, e que está ao serviço da política externa (do país)”. Assim, mesmo com as mudanças de Governo, e apesar de “algumas variações, aqui e ali, é a diplomacia portuguesa (que garante) alguma coerência global à imagem externa do Estado português”. “Portugal está no meio de uma crise complexa sob o ponto de vista da sua dívida ao exterior e não foi isso que abalou as possibilidades de ser eleito para o Conselho de Segurança das Nações Unidas”, exemplificou.

Língua “aquém” das “ambições” 
Sobre o seu trabalho em França, Francisco Seixas da Costa considera que o trabalho de proteção e promoção da língua portuguesa ficou “aquém” das suas “ambições”. “Se olhar para trás, e olhando para aquilo que eram as minhas ambições, o resultado ficou aquém. Não pude, de facto, levar à prática o salto em frente que tinha pensado ser possível”, disse à agência Lusa Francisco Seixas da Costa.
Quando chegou a Paris, em 2009, o diplomata assumiu a questão da defesa da língua portuguesa como “cavalo de batalha”. Mas pelo caminho, conta, encontrou alguns obstáculos. “Em primeiro lugar, nunca foi possível criar, no quadro global dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), um trabalho organizado – porque esse trabalho não existe também à escala mundial -, que (permitisse) promover em conjunto a língua portuguesa”, explicou. Por outro lado, acrescentou, começou a tornar-se evidente que “a promoção da língua portuguesa não está nas prioridades das autoridades francesas”, ora devido a “pressões que têm a ver com o politicamente correto”, ora a “um conjunto de aspetos de natureza comunitária mais prementes, em relação a outro tipo de comunidades estrangeiras”.
Isto, sublinhou, “não obstante o esforço fantástico que muitas pessoas dentro da administração pública francesa que têm responsabilidades no ensino da língua portuguesa têm procurado fazer”. “Globalmente, sinto alguma frustração pela circunstância de não se ter avançado muito mais”, afirmou, lembrando que a este cenário se juntou “uma restrição do número de professores que o Estado português disponibiliza para o ensino primário francês”, no quadro de “uma restrição que atingiu globalmente toda a ação externa e interna” portuguesa.
Como ponto mais positivo do trabalho no seu último posto diplomático no estrangeiro, Francisco Seixas da Costa destacou a economia: “Se há um fator de (confiança) neste ambiente de crise é a atitude otimista que eu tenho recolhido por parte dos empresários portugueses que para aqui vêm”, afirmou. “A França, que é o nosso terceiro cliente, é um caso de sucesso nos últimos anos. O turismo para Portugal aumentou exponencialmente nesses anos. Na parte comercial estamos com um ‘superavit’ histórico. (Isso) indicia um bom trabalho da parte das empresas portuguesas aqui em França”, acrescentou. Entre o que fica por fazer, o embaixador cessante destaca a “reconstituição de uma unidade na área cultural, que permita dar continuidade ao trabalho mas também estruturar melhor o tipo de ação que (se pretende) por parte do Instituto Camões em França”.
Francisco Seixas da Costa tem 64 anos e é um dos mais experientes diplomatas portugueses. Desempenhou funções diplomáticas na Noruega, em Angola e no Reino Unido, tendo também sido embaixador nas Nações Unidas, na Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) e no Brasil. Deixa o posto em Paris no fim de janeiro de 2013 e assume, a partir de fevereiro, funções como diretor executivo do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa.

http://www.mundoportugues.org/content/1/10916/portugal-deve-promover-figuras-nacionais-organizacoes-internacionais-seixas-costa/

outro restauro polémico

Santa restaurada ficou com cara de “Barbie”

Publicado às 00.21

112 10 0

Um restauro numa imagem de Santa Bárbara, instalada numa capela em Niterói, no estado do Rio de Janeiro, deformou as feições da figura, deixando-a com cara de “Barbie”, denunciou o historiador brasileiro Milton Teixeira.

foto DR
Santa restaurada ficou com cara de "Barbie"
Antes e depois do restauro

 

“Venho fotografando a santa há 20 anos e a última vez que fui lá, no dia 24 de novembro, levei um susto. Primeiro pensei que tinham trocado a santa. Fizeram uma ‘lambança’ [trabalho desajeitado], transformaram Santa Bárbara na bonequinha Barbie”, declarou Teixeira em entrevista à Lusa pelo telefone.

Segundo a descrição do historiador, a imagem sofreu pinturas que descaracterizam o seu tom de pele, um contorno excessivo nos olhos, reforço na cor da boca, entre outras modificações, que podem ser consideradas um “crime” ao património histórico brasileiro.

“Botaram batom, fizeram sobrancelha, botaram rímel, acabaram com a santa. E era uma santa com 200 anos, ainda estava com a carnação original, só a recuperação dessa carnação primitiva, vai levar um tempo gigantesco”, queixa-se o professor, que não descarta a possibilidade de a santa ter origem portuguesa.

“A imagem provavelmente veio de Portugal – mas isso eu não posso botar minha mão no fogo – mas pelo tamanho dela, pelas feições, bem lusitanas, eu acreditaria que ela veio de Portugal”, considera.

Ler Artigo Completo (Pág.1/5)

HUMBERTO DELGADO, NUNCA SE FEZ JUSTIÇA

E nunca se fez justiça!!!

Humberto Delgado, o general que desafiou Salazar, foi assassinado e nunca se fez justiça

Ministro da Justiça entrega processo relativo ao homicídio ao Arquivo Distrital de Lisboa

Alberto Costa fez a entrega do “processo comum colectivo nº. 469/04.4TCLSB” em cerimónia a realizar no Tribunal da Boa Hora, Lisboa, com a presença de Noronha do Nascimento, presidente do Supremo Tribunal de Justiça, da família de Humberto Delgado e de Mário Soares, ex-advogado no processo, entre outras personalidades.

A morte do “general sem medo”, que desafiou Salazar ao garantir que o demitiria da chefia do Governo caso fosse eleito nas presidenciais de 1958, ocorreu a 13 de Fevereiro de 1963. Humberto Delgado foi morto por agentes da PIDE, após ter sido atraído para uma cilada em Badajoz (Espanha), montada em redor de uma pretensa reunião com militares portugueses, oposicionistas a Salazar.

Segundo o Ministério da Justiça, o processo relativo ao assassínio de Humberto Delgado é composto por 18 volumes, 45 apensos e “vai ficar sob custódia do Arquivo Distrital de Lisboa a título de depósito, que se converterá em incorporação decorridos os prazos de conservação previstos em portaria de gestão de documentos dos tribunais”.

Entretanto, a tese de que Humberto Delgado foi espancado até à morte – e não morto a tiro como se tem sustentado até agora – é defendida por Frederico Delgado Rosa na primeira biografia do general, que será lançada a 07 de Maio na Assembleia da República.

“Humberto Delgado – Biografia do General Sem Medo” é o título do livro, um trabalho de sete anos de Frederico Delgado Rosa, neto do general.

“A maneira como foi assassinado não fui eu que a inventei”, afirmou à Lusa o autor, que disse basear-se na autópsia feita pelas autoridades franquistas apontando “sucessivas contusões cranianas” como a causa da morte de Humberto Delgado.

Segundo o autor, a ideia de que Delgado foi morto a tiro pela PIDE “foi uma mentira conveniente que permitiu ilibar muita gente”.

Depois do 25 de Abril de 1974, a Justiça portuguesa começou a trabalhar no caso sem ter acesso ao processo espanhol, apontou Frederico Delgado, doutorado em Etnologia e que nos últimos anos tem-se dedicado à investigação da carreira militar e política do avô.

“O processo criminal ficou viciado à partida e quando chegaram tardiamente elementos do processo espanhol já estava construído um dogma em relação ao ‘como’ do crime”, disse o investigador, acrescentando que para isso contribuíram depoimentos dos próprios elementos da PIDE que foram detidos.

FC/EO.

Lusa/Fim

@ Agência Lusa

 

http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/5fc7af029b2ea5359a996f.html

BRASIL CRESCE

IN DIÁLOGOS LUSÓFONOS

O Brasil cresceu…

Brasil ganha 890 km² de extensão na última década, diz IBGE

Do UOL, em São Paulo

  • Instituto Baleia Jubarte/Divulgação

    Arquipélago de Abrolhos (BA), na imagem acima, incorporado ao Estado da Bahia, contribuiu para o aumento da extensão territorial brasileiraArquipélago de Abrolhos (BA), na imagem acima, incorporado ao Estado da Bahia, contribuiu para o aumento da extensão territorial brasileira

A aquisição de arquipélagos fez com que o Brasil aumentasse em mais de 890 km² sua superfície territorial na última década, apontou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta terça-feira (27). A adoção de um novo sistema tecnológico de referência geométrica, que consegue mapear de forma mais precisa o território brasileiro, também contribuiu para este incremento no território brasileiro. De acordo com o instituto, o Brasil tem atualmente 8.515.767,049 km² de território, o que significa um incremento de 0,01% sobre o valor da última publicação da área territorial brasileira feita em 2002.

Apesar de parecer um crescimento pequeno, a superfície ampliada é maior do que muitos países do planeta, como as ilhas caribenhas de Granada (350 km²), Antígua (442 km²) e Barbados (430 km²).

Entre as alterações, está a da área do Estado da Bahia, que passou a incorporar os valores das áreas insulares do arquipélago de Abrolhos, subordinado ao município de Caravelas, e a área do Estado de Santa Catarina, que passou a incorporar os valores de área referentes às águas internas da baía Sul e baía Norte, entre o continente e a Ilha de Santa Catarina.

 

Também houve mudanças nos valores de área dos Estados nordestinos do Ceará, de Pernambuco e da Paraíba onde foram ajustados em conformidade com os limites descritos no “Atlas de Limite”, documento de referência para todos os limites interestaduais do Brasil.

 

No Rio Grande do Sul, foram computadas as áreas referentes à Lagoa dos Patos (10.152,408 km²) e à Lagoa Mirim (2.811,54 km²), de acordo com a Constituição Estadual de 1988.

Tecnologia

No reprocessamento da área territorial do Brasil, em relação aos valores oficiais de 2002, foi adotado o SIRGAS 2000 (Sistema de Referência Geocêntrico para as Américas), cuja principal vantagem, em relação aos demais sistemas de referência utilizados, está no uso direto da tecnologia de GPS, importante ferramenta para a atualização de mapas, além de outros usos como o controle de frota de empresas transportadoras e navegação aérea, marítima e terrestre, em tempo real.

 

Com a tecnologia, foi possível ter maior precisão no mapeamento do território brasileiro e na demarcação de suas fronteiras. Segundo o IBGE, em 1889, data da primeira estimativa oficial para a extensão superficial do território brasileiro, o valor do território do país era de 8.337.218 km².  O valor foi obtido a partir de medições e cálculos efetuados sobre as folhas básicas da Carta do Império do Brasil, publicada em 1883.

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/11/27/brasil-ganha-890-km-de-extensao-na-ultima-decada-diz-ibge.htm

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PRESIDENTE DE CABO VERDE EM TIMOR

Presidente cabo-verdiano visita Timor-Leste

Praia – O presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca, está em Díli, capital de Timor-Leste, para uma visita de Estado de dois dias, durante a qual assistirá às comemorações do 37º aniversário da independência deste país.  Leia mais

OS AÇORES DOS AÇORES

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http://www.lusofonias.net/cat_view/107-textos-escolhidos/125-acores.html?view=docman

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Falcoaria e navegações tardo-medievais:

 

subsídios para a toponímia do arquipélago dos Açores

 

 

 

 

 

 

 

 

Paulo Alexandre Monteiro

 

 

Janeiro de 1998

 

2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esta ave (milhafre) não  habita a ilha Terceira, como também as

demais ilhas dos Açores.

 

 

Conquanto ainda seja muito frequente, parece contudo que ao tempo da

descoberta da ilhas, os milhafres deveriam mais ser abundantes, porque

foi a sua grande quantidade, e por serem considerados erradamente

como açores, que os primeiros navegantes deram este nome às ilhas

deste archipelago.1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa: pormenor da tapeçaria de Bayeux onde estão representados os reis William I e Harold II durante uma caçada com

falcões.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 Cf. SAMPAIO, 1904.

 

3

INTRODUÇÃO

 

 

O presente artigo versa uma questão de séculos: a que se deve o nome Açores para as ilhas avistadas

pelos navegadores tardo-medievais portugueses em pleno Oceano Atlântico, a meio caminho de um

continente então ainda por descobrir?

 

 

Com efeito, se existem apenas duas espécies de aves de rapina nos Açores 2 – uma diurna, a

águia-de-asa-redonda, vulgo milhafre (Buteo buteo rothschildi) e outra nocturna, o mocho de orelhas

(Asio otus) – e nenhuma delas é um açor (Accipiter gentillis), então porque se chamarão essas ilhas dos

Açores?

 

 

Se um ou outro investigador aventa a hipótese de que esta toponímia teria tido origem em Santa Maria

dos Açores – local onde proviria algum dos descobridores tardo-medievais – é comummente aceite hoje

em dia, até pelos próprios manuais escolares açorianos, que o nome Açores terá resultado de uma

confusão feita pelos navegadores de então, erroneamente identificando açores onde haveria apenas

milhafres.

 

 

Se assim é hodiernamente, tal não significa que não se deva conjugar a literatura medieval coeva e os

dados científico actuais relativos à avifauna e à ecologia insular no sentido de se tentar refutar ou

confirmar esta teoria. É o que se pretende fazer com o presente trabalho, fruto da vivência do autor no

arquipélago onde, para além de ter trabalhado em arqueologia subaquática e feito investigação

arquívistica, foi igualmente investigador no âmbito da biologia das aves de rapina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 Em todos os grupos, à excepção do Ocidental.

 

4

 

Os Açores

 

 

Localizadas perto do centro do Atlântico Norte, a 800 milhas náuticas a oeste de Portugal Continental, as

ilhas dos Açores são uma cadeia de nove ilhas criadas por cones vulcânicos que se elevam abruptamente

das profundezas do oceano.

 

 

Embora as ilhas pudessem ter sido conhecidas pelos antigos mercadores romanos – à semelhança do que

aconteceu com as ilhas Canárias – o arquipélago só foi oficialmente descoberto por volta de 1427, quando

os marinheiros portugueses, de retorno da costa de África, avistaram ilhas densamente arborizadas, por

cima das quais pairavam, em grandes bandos, aves de rapina.3 O arquipélago foi sendo rapidamente

povoado durante a terceira década do século XV e, durante os sessenta anos seguintes, este grupo de

colónias portuguesas situadas no limiar do mundo conhecido, constituiu a possessão mais ocidental da

Europa.4

 

 

Mas, voltando à pergunta de abertura, que aves de rapina seriam aquelas?

 

 

Uma das mais antigas descrições que temos sobre a descoberta dos Açores, largamente difundida, é a

que se encontra na Relação do Almoxarife do Paço de Sintra, de Diogo Gomes. Companheiro e criado

fiel do Infante Dom Henrique, Diogo de Gomes esteve nos Açores por volta de 1460 ou seja, cerca de

trinta anos após a sua descoberta. Desse acontecimento escreveu o seguinte:

 

 

“(…) e, vendo que eram Ilhas, entraram na primeira, acharam-na deshabitada, e andando por

ela encontraram muitos milhafres ou açores, e outras aves; e passando à segunda, que hoje se

chama a ilha de S. Miguel, que igualmente estava deshabitada, acharam muitas aves e

milhafres, assim como abundantes nascentes d’ aguas quentes sulfureas. D’ ali viram outra

ilha que na actualidade se chama ilha Terceira, a qual à semelhança da ilha de S. Miguel,

estava cheia d’ arvores, aves e muitos açores.”5

 

 

 

 

 

 

 

3 Carta de D. Afonso V, de 2 de Julho de 1439, concedendo autorização ao Infante D. Henrique para mandar povoar as 7 ilhas

dos Açores até então descobertas e onde ele já tinha mandado deitar ovelhas.

4 Cf. ALVES, F. & MONTEIRO, P. 1999.

5 Cf. GOMES 1977, sublinhados nossos.

 

5

Pela descrição anterior, poderíamos julgar que os descobridores encontraram simultaneamente,

milhafres e açores. No entanto, se recorrermos à versão original, em latim, lemos que:

 

 

(…) videntesque quod essent insulae, intraverunt in primam, et invenerunt eam inhabitatam, et

ambulantes per eam invenerunt multos astures seu açores et multas aves, fuenruntque ad

secundam, quae nunc vocatur insula Santi Michaels, quae similiter erat inhabitata, habens

etiam multas aves et açores, ubi etiam invenerunt plures aquas calidas naturales sc. ex sulfure.

Illic viderunt aliam insulam. quae nunc vocatur ilha Terceyra, quae sic erat; ut insula Santi

Michaelis, plena arboribus et avium et multi açores (…)

 

 

e verificamos que a palavra milhafres nunca apareceu no texto original, constituindo esta apenas uma

fantasia do tradutor6 que assim induziu em erro os investigadores posteriores.

 

 

A relação de Diogo Gomes foi mais tarde ditada a Martim Behaim, que a escreveu em 1492, também

em latim, no globo terrestre que ofereceu à cidade de Nuremberga.

 

 

Martim da Boémia, de origem alemã, era casado com a filha do Capitão donatário do Faial, Josse van

Hurtere, conhecendo portanto de facto os Açores. A legenda afirma o seguinte:

 

 

Por fim descobriram um dia estas dez (sic) ilhas, e tendo ali desembarcado  acharam desertos

e aves que eram tão mansas que não fugiam diante de ninguém; mas não se viu, nestas solidões,

qualquer rasto de homem ou quadrúpede, o que era motivo de os pássaros não serem ferozes. Eis

ali porque se deu a estas ilhas o nome de ilhas dos Açores, ou em alemão Habichen lnseln.7

 

 

De notar que estas aves mansas tanto poderiam ser rapaces como pombos ou outras espécies cinegéticas,

não explicando o tradutor o porquê do nome Habichen – açores, em alemão – significar aves mansas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6 Confirmando mais uma vez o velho adágio que afirma que traduttori, traditori

7 Cf. ARRUDA 1977.

 

6

Gaspar Frutuoso, célebre cronista açoriano do século XVI, 8 recorre à memória dos mais antigos

habitantes, ainda sobreviventes, para nos narrar a mesma recordação dos primórdios da colonização das

ilhas:

(…) andando os homem n’ estas Ilhas roçando os espessos matos e caçando, não com açores nem

gaviões nem outras aves de altanaria, as outras aves que n’e/as havia senão com as próprias

mãos com que as tomavam sem trabalho por eIas não fugirem, pelo pouco uso que de ver gente

tinham (…)9

 

 

Mais completa, daqui se infere que na época, e em outras zonas, o recurso aos acipitrideos – gaviões ou

açores – era a principal técnica de caça para a obtenção de aves.10

 

 

O testemunho seguinte é da autoria de Valentim Fernandes Alemão, também chamado Valentim da

Morávia, impressor em Portugal em 1495. Em 1507 prepara um manuscrito que narra a descoberta e a

situação actual das ilhas dos Açores:

 

 

Anno de 1443 ho iffãnte  Anrique mãdou duas carauellas pera occidete pera buscar se

achassem terra fume ou nõ. E em 270 legoas de Lixboa acharõ hua ylha q agora se chama de

Sancta Maria despouorada  muytos açores. E virõ outra e forõ a ella q agora se chama de 

Miguel tãbem despouada, e chea d’ açores, e assi acharõ a Terceyra e outras todas  muytos

açores pello qual a estas ylhas ficou o nome de Açores. (…) Corvo ylha pequena com a ylha dos

açores esta quasi pegada uma com outra.(…) Estas ylhas aynda que som afastadas das outras 40

legoas tem o nome dos açores como as outras povoados.11

 

 

De notar, mais uma vez, que as aves referidas são açores e não milhafres. Mas, se hoje em dia existem

milhafres e não açores, para onde terão ido estes últimos?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8 Padre Jesuíta, nascido em 1522 e falecido em 1591, Gaspar Frutuoso escreveu as Saudades da Terra, a mais antiga e

completa monografia sobre os Açores.

9 Cf. FRUTUOSO 1977.

10 Em descrições suplementares, Frutoso afirma que a falcoaria nos Açores suplantava até as armadilhas de rede ou os laços

que serviam para apanhar as codornizes, enquanto que os pombos e os cagarros se deixavam apanhar à mão durante o choco,

sendo as outras aves apanhadas pelos arcabuzeiros ou pelos besteiros em treino de pontaria.

11 Cf. FERNANDES 1985.

 

7

Em 1539, o cosmógrafo-mor do rei de Espanha edita um atlas das ilhas do mundo conhecido. Nele faz

referência aos Açores, dizendo que:

 

 

(…) y todas juntas se dizen de las Açores por que despues de aver descubierto la primera ysla

que pusieron nombre de Santa Maria descubrieron tras ella otra que pusieron nombre de San

Miguel donde hallaron muy gran quantidade de açores y como se comencase a poblar

desaparecieron todas y como vieron los habitadores esto creyeron que devia de aver cerca de

alli alguna otra ysla donde se havian ydo y dieronse a buscallay hallaron la y las açores en

ella y la llamaron Tercera y começandose a poblar se tornaron a yr lo qual fue sospecha que

avia otra ysla y asi fueron en busca de ella y la hallaron y desta manera anduvieron con las de

mas hasta venir a la ysla de Flores que fue la postrera que descubrieron y alli asentaron las

açores por no aver mas yslas donde se poder acoger assi que por averse hallado mediante los

açores las llaman el dia de oy las yslas de los Açores.12

 

 

A crer nesta descrição, à colonização humana seguir-se-ia a diminuição gradual da população de

açores, uma diminuição que terminaria em deslocamento para outra ilha (ou extinção). É a partir desta

data que se começam a fazer as primeiras referências ao desaparecimento das aves de rapina,

encontrando eco estas constatações na observação feita por Damião de Góis, em 1567:

 

 

(…) Estas ilhas se chamam dos Açores pela muita criaçam que delles havia nellas, quando has

descobriram, e ainda ha, mas nam tantos como havia, ho que causam as povoações que se

nellas fezeram, nos quais açores sam mais alvos que hos d’ irlanda, mas nam por isso

melhores (…)13

 

 

Como interpretar esta referência à alvura dos Açores, já que a coloração do milhafre açoriano

encontrado hoje em dia no arquipélago é toda ela uniformemente escura?14 Talvez Góis se referisse

mesmo a açores, esses sim, mais alvos do que os da Irlanda. Contemporâneo a Góis, Pompeo Arditi faz

em 1567 uma viagem aos Açores da qual deixará uma memória escrita.

 

 

 

 

 

 

 

12 Cf. CRUZ 1920.

13 Cf. GÓIS, 1939.

14 Cf. CHAVIGNY 1932.

 

8

Italiano, nascido em Pesaro, Arditi descreveu pormenorizadamente os arquipélagos da Madeira e dos

Açores:

 

 

(…) vedemmo di lontano una delle isole de gli Astori; cosi dette per la molta quantita d’astori

che ivi erano quando la prima volta furono ritrovate, ma hora non ve ne è pure uno; chè,

secondo dicono, subito ches s’incominciarono ad abitare, se ne andarono.15

 

 

Mais uma vez, referências ao desaparecimento dos açores, uma teoria subscrita igualmente pelo

célebre viajante holandês, Jan Hugonis van Linschoten que, de 1590 a 1592, residiu na ilha Terceira,

por lá ter naufragado:

 

 

(…) Tem este nome de Afores por causa destas e de outras aves de rapina que  se

encontraram em grande número quando foram descobertas, embora ao presente   não

existam.16

 

 

É de notar igualmente que, na representação cartográfica da ilha Terceira anexa ao livro de Linschoten,

encontramos um escudo de armas com uma ave pousada. Esta ave é, sem sombra de dúvida, um açor,

possuindo até os atilhos de couro usados em falcoaria. Regressemos a Gaspar Frutoso:

 

 

(…) E dizem comumente os antigos que vendo muitos Açores e bons, dos quaes levavam d’aqui

para o Reino no principio, como tinham visto na ilha de Santa Maria, lhe puzeram nome ilhas

dos Açores, o que bem podia ser; mas, o que outros têm por mais verdade, é que por aqui não

haver senão poucos e como adventícios vinham a esta ilha d’outras terras não sabidas, vendo no

ar muitos milhafres que havia, que com eles se pareciam e por taes os julgavam como agora ha,

e assim parecem-lhe, puseram este nome de ilhas dos Açores, o qual também se apegou às outras

ilhas de baixo que depois se descobriram, onde não faltam estas aves de rapina; ou também por

então n’elas se acharem açores, ainda que depois e agora os não houve, nem ha em nenhuma

d’elas, sendo alguns que com temporaes e tormentas acertam de vir desgarrados d’outras partes

(…)17

 

 

 

 

15 Cf. ARDITTI 1985.

16 Cf. LINSCHOTEN 1985.

17 Cf. FRUTUOSO, id.

 

9

Há, para este cronista, conflito entre a teoria dos antigos, suportada pela exportação de açores para o

continente – e para que outro fim, senão para o de servirem na altanaria? – e o facto de não mais se

acharem açores no arquipélago. De notar a observação atenta de que algumas aves chegavam aos Açores

por arribação, aquando de temporais, tal como ainda hoje acontece.

 

 

Ao longo da sua obra, este cronista irá tecer mais algumas considerações sobre este tema:

 

 

(…) Esta ilha de S. Miguel e a de Santa Maria com outras sete que estão para oeste, afastadas

não muitas léguas, se chamam dos Açores, segundo alguns, pela muita criação que d’eles havia

n’e/as quando as descobriram, e ainda  alguns, posto que poucos e  tempos  como

adventícios de outras ilhas ou terras e não naturais nelas nascidos e criados: assim que não são

tantos como soíam, o que causam as povoações que se n’elas fizeram, os quaes açores são mais

alvos que os de Irlanda, posto que não sejam de tão forte presa, são mais ligeiros e de muito

melhor relé; outros (como tenho dito) afirmam chamarem-se estas ilhas dos Açores, pelos muito

bilhafres que nelas ha e havia, quando elas se descobriram, que com eles se pareciam, e

cuidando os primeiros descobridores serem açores os bilhafres lhes puzeram este nome de Ilhas

dos Açores. (…)

 

 

Entre o século XVI e o XVII, parece-nos que a teoria da confusão da identificação das aves de rapina

ganha força.

 

 

Para o Padre Manuel Luís Maldonado, que escreveu a Fénix Angrense no ultimo quartel do Século XVII,

já não haviam duvidas – os descobridores tinham confundido Milhafres com Açores:

 

 

(…) as ilhas que chamão dos Açores cujo nome Ihes prouem de uas aves de rapina que em todas

elas se achão a que chamão Bilhafres, e como estas conuem na parecença e propriedades com os

açores, porquanto se mantem de tudo o que colhem com a garra asim de bichos, como aues de

qualquer especie, foi este o motiuo de Ihes ser imposto aquelle nome na fee de que aquellas auez.

erão Açores, e por acharem em todas as ilhas lhe chamarão as ilhas dos Açores.18

 

 

 

 

 

 

 

 

18 Cf. MALDONADO 1989

 

10

Só no século XIX voltaremos a ter bibliografia sobre o assunto. Francisco Drummond, que publica em

1858 extensa monografia sobre a Terceira, mostra-se partidário da teoria do engano nas aves, apesar de

reconhecer que nas varas dos ministros da justiça andavam pintados açores:

 

 

Derivam o nome de Açores, segundo comum opinião, das muitas aves desta natureza que nelas se

encontravam; mas certamente que nisto houve manifesto equivoco; porque o bilhafre (por outra

queimado, talvez. assim apelidado de sua cor) a que os antigos deram o nome açor, é muito

diferente daquelas que são aves de rapina muito ligeiras, sagazes e de forte presa. Também o

bilhafre é sagaz, e tão cauteloso de si, que, por se não querer arriscar, muitos dias anda sem

comer, atroando os ares com os seus gemidos. Sustenta-se, como o açor de galinhas, pombas,

perdizes, codornizes, melros, coelhos, e ratos mas não se sabe que na mais extrema necessidade

se utilize de carnes mortas. Antes sim, parece, com razão se equivocaram os descobridores das

ilhas tratando por açores ao mocho, e ao bufo, aves de rapina que mais se assemelham, ainda

que em menor número (…)19

 

 

Da mesma época temos o relato do Padre Jerónimo Emiliano de Andrade que, na edição de 189l da

sua Topographia, se afasta da teoria comummente aceite:

 

 

(…) A única ave de rapina que se encontra [nos Açores] é o milhano. Os açores, aves em que

tanto abundavam estas ilhas no tempo do seu descobrimento e que lhes deram o nome,

inteiramente desapareceram. Muitos imaginam que taes aves nunca houveram neste

archipelago, e que os descobridores se enganaram tomando os milhafres por açores.20

 

 

A opinião geral podia ter, no entanto, um meio-termo, tal como podemos verificar pela leitura de João

Gomes que em 1894 escrevia assim:

 

 

Estas ilhas  descobertas e as que se foram descobrindo tiveram a designação de Açores

porque os açores e os milhafres pairavam, em abundância, sobre ellas.21

 

 

 

 

 

 

 

19CF. DRUMMOND 1990.

20 Cf. ANDRADE 1891.

21 Cf. GONÇALVES 1894.

 

11

Contudo, em pleno século XX, a opinião pública estava já plenamente convencida de que nunca teriam

vivido açores nos Açores. O próprio Tenente-Coronel José Agostinho, famoso ornitólogo amador,

escrevia em 1966 no livro de Bannerman – a maior e mais detalhada obra científica existente sobre a

avifauna das ilhas – o seguinte:

 

 

(…) Though old writers mention that the name Azores originated from an error made by the

first settlers, who, believed the buzzards to be goshawks (in portuguese Açores) I incline myself

to the belief that the name of the islands may be due to an assertion by Martim Behaim that “all

the birds found in the islands by the first settlers were so tame that they came to the hand like

hawks.”22

 

 

Estava escrita a História. Aduzemos então argumentos que contrariem esta versão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

22 BANNERMAN, 1966.

 

12

 

 

 

A falcoaria na Idade Média

 

 

A caça com aves de rapina – cetraria, falcoria ou altanaria – possui tradições seculares em Portugal

continental. Já no século X, Al-Rasi gabava a boa qualidade e a formosura dos açores criados na zona

de Cascais e Sintra.23 sendo estas aves criadas e treinadas durante toda a alta e baixa Idade Média para

a obtenção de caça miúda.24

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O rei Conradin em caça de altanaria. Codex Manesse, datado de 1304-1340.25

 

 

 

23 O topónimo de Estoril, por exemplo, provém do baixo latim asturil – local de criação de astor ou açor.

24 Cf. MARQUES 1988.

25 Cf. COSTA, Ricardo & GONÇALVES, Alyne (2003)

 

13

 

 

 

Privilégio da nobreza, era nas casas reais que a falcoaria encontrava a sua maior expressão. Nas

Ordenações do Rei D. Afonso III vimos a saber que, em 1261

 

 

(…) el rey aya pera seu corpo (…) tres açoreiros e quatro falcoeiros (…)”.26

 

 

Por toda a Europa medieval, para além de prepararem o nobre para a arte da guerra, as actividades

cinegéticas contribuíam para a grandeza de quem as praticava. No dizer de López de Ayala:

 

 

[Na falcoaria] existem outros benefícios: uma virtude a que o filósofo [Aristóteles] chama

“magnificentia”, que é a grandeza dos grandes homens; porque é realmente uma coisa nobre

e elevada para um grande senhor o ter falcões e açores, porque lhe dão esplendor, não  à

sua casa como também nos campos, quando o precedem no seu cavalgar e na caça.27

 

 

A caça de altanaria era tão vulgar na época que cenas dela eram representadas em pedras tumulares.28

Fernão Lopes descreve a paixão do rei Dom Fernando pela falcoaria da seguinte maneira:

 

 

(…) era ainda el-Rei Dom Fernado muito caçador… quando mandava fora da terra por aves,

nom lhe tragiam menos de cimqoemta, antre açores e falcoões nevris e girofalcos, todos

primas“.29

 

 

 

 

Pela descrição de Fernão Lopes conclui-se que o comércio de aves de rapina era intenso, incluindo

trocas com a Europa circumpolar, único habitat do falcão gerifalco (Falco rusticolus). Foi, aliás, para

Dom Fernando que Pêro Menino escreveu, entre 1382 e 1385, o Livro de Falcoaria, obra maior da

literatura medieval portuguesa, toda ela inteiramente consagrada à veterinária das aves de rapina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

26 Cf. PEREIRA 1918.

27 APUD CUMMINS 1988.

28 Tal acontece com o túmulo de Fernão Sanches falecido em 1327, em que um monteiro é representado a cavalo com um açor

na mão direita, cf. PEREIRA, id.

29 Cf. LAPA 1931.

 

14

 

 

 

Ora, não é espúrio dizer-se que na Idade Média tardia qualquer pessoa de condição estava

perfeitamente ciente do que era e como se praticava a caça de altanaria. Aliás, muita da literatura de

então estava prenhe de referências à caça, o que automaticamente condicionava o seu entendimento a

quem dominasse a sua organização e convenções.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cabo de faca em prata, datado do princípio do século XIV, encontrado em Skanderborg,

na Dinamarca, figurando um nobre com um falcão no braço.

 

 

Com maior força de razão, a própria caça com ave de rapina reflectia a posição social do falcoeiro. Nas

catorze sepulturas de líderes tribais, datadas da Baixa Idade do Ferro e escavadas em Uppland e

Södermanland, na Suécia, foram encontrados inúmeros restos ósseos de aves de rapina usadas para caça,

por entre espólio bastante rico, indicativo da alta qualidade social dos inumados.30

 

 

 

30 Cf. STEN, Sabine & VRETEMARK Maria 1988.

 

15

Na novela de Bandello, datada de entre 1281 e 1300, o imperador Frederico, andando à caça com o seu

falcão favorito, manda-o decapitar por este ter morto uma águia, símbolo do poder imperial, numa

imagem figurada de um crime de lesa-magestade que não poderia deixar de ser punido com pena capital:

 

 

Lo ‘imperadore Federigo andava a caccia con il falcone, e avevane uno molto eccellente, che

l’avea caro piú d’una cittade. Lasciòllo a una grua, quella montò alta; il falcone si mise alto

molto, sopra di lei. Videsi sotto un’ aquila giovane: percossela a terra e tanto la tenne che

l’uccise. Lo ‘mperadore corse credendo che fosse una grua: trovò come era. Allora con ira

chiamò il giustiziere e comandò ch’al falcone fosse tagliato il capo, perché aveva morto lo suo

signore.31

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Selo de Canuto, 1040-1080, figurando o rei , à caça com falcão.

 

 

Logo, pelo acima exposto, estamos em crer que a bordo dos navios que avistaram os Açores pela

primeira vez seguiam homens conhecedores não só das especificidades da altanaria geral, como das

particularidades de cada espécie de ave nela utilizada. Olhemos então para as duas espécies em causa, o

açor e o milhafre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

31 BANDELLO 1970

 

16

 

 

 

A biologia das espécies

 

 

 

O milhafre

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O “milhafre” açoreano – Buteo buteo rothschildi (Swann 1919).

 

 

Esta ave é a única rapina diurna existentes actualmente nos Açores. A sua designação científica –

águia-de-asa-redonda, uniformizada por Sacarrão32 – está pouco vulgarizada em Portugal, pelo que a

denominaremos a partir daqui pelo nome pelo qual é conhecida no arquipélago: milhafre.33

 

 

32 Cf. SACARRÃO 1962.

33 A mesma espécie é conhecida em diversas regiões de Portugal por nomes tão díspares como Francelho, Bilhafre, Minhoto,

Mioto, Tartaranhão e Gafanhoto, cf. LOPES 1979. Tal explica que se preste a confusão a nomenclatura popular, dando-se

erroneamente o nome de milhafre à águia-de-asa-redonda açoriana, quando nem o milhafre propriamente dito (Milvus milvus)

nem o milhafre negro (Milvus migrans) são espécies que, ao que se saiba, foram alguma vez referenciadas para os Açores, cf.

LE GRAND 1983.

 

17

O milhafre residente e nidificante nos Açores apresenta, em média e como é regra geral em espécies

insulares, dimensões menores do que as encontradas em espécimes continentais. A sua coloração é, no

entanto, muito menos variável, sendo marcadamente escura, acastanhada e com reflexos violáceos.34 Os

seus hábitos alimentares são parcialmente desconhecidos,35 distribuindo-se por todas as ilhas excepto as

do grupo ocidental. Se nas ilhas das Canárias, Madeira, Cabo Verde, Córsega e Sardenha se apresenta em

populações residentes, quando no continente europeu é migratória, tanto para Norte como para Sul do

deserto do Saara. A distância media que percorre entre o seu local de nascimento e o de nidificação é de

cerca de 90 (±21) km.36

 

 

As suas necessidades alimentares, especialmente na época de reprodução, requerem áreas de baixa

proporção de coberto vegetal, propicias à captura de presas terrestres. A sua dieta bastante variada faz

com que esta ave seja oportunista e prospere em zonas com abundância e acessibilidade de presas

terrestres.37 As suas presas típicas nos Açores incluem:

 

 

a) mamíferos até cerca de 500 g, predominando ratos (Mus musculus), ratazanas (Rattus rattus) e,

em menor proporção, coelho (Oryctolagus cuniculus), doninhas (Mustela nivalis);

 

 

b) aves em pequena proporção, sendo estas, geralmente, crias pilhadas aos ninhos: estorninhos

(Sturnus vulgaris), pombo-torquaz (Columba palumbus azoricus) e melros (Turdus merula

azoricus);

 

 

c) répteis, como lagartixas, batráquios, como a rã ,(Rana spp.) (Lacerta spp.) ocasionalmente e

peixes (raramente capturados e só quando mortos ou incapacitados);

 

 

d) insectos: parte insignificante da dieta a não ser em casos de espécies gregárias de um modo

pontual como gafanhotos (Orthoptera ssp.)

 

 

e) Cadáveres de coelhos junto das estradas ou animais maiores, roubando por vezes as presas

capturadas por gaviões ou açores. 38

 

 

34 Cf. CHAVIGNY 1932.

35 Cf. BANNERMAN 1966.

36 Cf. NEWTON 1979.

37 Cf. CRAMP et al.1985.

38 MONTEIRO n. public. 1994 e CRAMP et al., id.

 

18

 

 

 

O açor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O açor – Accipiter gentillis (Lineu 1758)

 

 

Ao contrário do que acontece com o Buteo buteo, o nome vulgar do Accipiter gentilli parece não possuir

variantes regionais39 nem ter sofrido alterações semânticas ao longo dos tempos, o que reduz as hipóteses

de confusão entre diferentes designações.

 

 

 

 

 

 

 

 

39 Cf. LOPES 1979.

 

19

O açor caracteriza-se por ter asas curtas, arredondadas, e por ter uma cauda longa. É de um

cinza-acastanhado na plumagem superior, possuindo uma faixa clara por sobre o olho. A plumagem

inferior é de tonalidade branca com barras castanho-escuras. Habita tradicionalmente florestas de

coníferas ou de folha caduca, podendo também utilizar áreas cultivadas que possuam pequenos bosques

adjacentes, não abdicando nunca de áreas arborizadas. Coloniza zonas até aos 2500 metros de altitude.40

Quando continental, migra no Inverno para o norte do Saara. Nas ilhas, existe uma subespécie na

Córsega e na Sardenha – Accipiter gentilis arrigonii – estando igualmente presentes nas Canárias e na

Madeira, sendo estes indivíduos menores e de tonalidade mais escura. A distância media que percorrem

entre o seu local de nascimento e o de nidificação é de cerca de 60 (±16) km.41

 

 

O açor é capaz de desenvolver velocidades de ponta bastante elevadas, mantendo-as durante cerca de 500

metros,42 caçando por entre as árvores e os ramos e apanhando as aves suas presas em pleno voo. Poderá

também, em raras ocasiões, capturar coelhos, lebres, esquilos e roedores.43 Normalmente voa perto das

árvores ou dos arbustos. Na época de reprodução, plana frequentemente a várias centenas de metros de

altura.44

 

 

As suas presas típicas incluem:

 

 

a) aves: essencialmente pombo torquaz (Columba palumbus), pombo comum (Columba livia),

corvos (Corvidae ssp.), vários lagópodes e outras espécies cinegética, 45 incluindo

charadriiformes46 ou outras aves de rapina47

 

 

b) mais raramente, mamíferos: coelhos (Oryctolagus cuniculus), lebres (Lepus ssp.) e esquilos

(Sciurus vulgaris).48

 

 

 

 

 

 

 

 

40 Cf. CRAMP et al. 1987.

41 Cf. NEWTON, id.

42 Cf. GENSBOL 1988.

43 Cf. KEITH & GOODERS 1990.

44 Cf. CRAMP et al, id e GEROUDET 1984.

45 Cf. KEITH & GOODERS, id. e SAUER 1982.

46 Cf. CRAMP et al., id.

47 Cf. CHIAVETTA 1981.

48 Cf. KEITH & GOODERS, id. e CRAMP et al., id.

 

20

De um estudo feito com 317 casais de açores verificou-se nas presas por eles tomadas, a presença de

8309 aves de 123 espécies diferentes e de 713 mamíferos de 18 espécies diferentes. O açor não

demonstra interesse quer pelos insectos quer pelos batráquios ou repteis.49

 

 

O seu efectivo tem decrescido na Europa de uma forma acentuada devido a ser pouco tolerante à

perturbação do habitat,50 tendendo a resistir em áreas onde a pressão humana se faz sentir com menor

intensidade.51

 

 

Analisadas as especificidades de cada uma das espécies, vejamos então como seriam os Açores em

termos de flora e fauna à altura da sua descoberta e de como estas duas características evoluíram ao longo

do processo de colonização.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

49 Cf. GEROUDET, id.

50 Cf. CRAMP et al., id.

51 Cf. GENSBOL, id.

 

21

 

A ecologia açoreana

 

 

Em termos de flora, e à semelhança da Madeira, o arquipélago dos Açores apresentava-se virgem aos

primeiros descobridores. Estes prontamente desinçaram, pela roçagem e pelo fogo, as matas e as florestas

existentes.52 A instalação das culturas é feita, assim; pelo enfogueiramento, a queimada, e pelo corte de

árvores endémicas, necessárias para a feitura de mobiliário e para a obtenção de energia – a lenha e a

madeira eram a base da civilização material dos açorianos de antanho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Floresta de laurissilva, o coberto vegetal original das ilhas da Macaronésia onde se incluem os Açores.

 

 

Na ilha mais intensamente povoada, São Miguel, a exploração intensiva de madeira e lenha leva a que

esta se torne dependente das ilhas de baixo para a obtenção destes recursos. Com o passar do tempo,

aumentavam as áreas de calvas e tornava-se necessário recorrer as vides, palhas do tremoço, as silvas e a

própria bosta de boi para activar o fogo.

 

 

 

 

 

 

 

 

52 Cf. SANTOS 1989.

 

22

Pela sua escassa demografia, Santa Maria nunca teve falta de lenha enquanto que, na Terceira, se fazia

sentir a importação de madeiras a partir das outras ilhas nomeadamente de São Jorge,53 Pico54 e Flores55.

Nessa altura, as madeiras de maior valor eram o cedro, a ginjeira, o sanguinho e pau-branco. No Faial, em

breve a arvore que lhe deu o nome se esgotou. Os arbustos eram, no entanto, mais comuns, não rareando

assim a lenha. O aumento populacional tornou-se mais acelerado até à segunda metade do século XVI,

época em que os desflorestamentos se processaram quase irracionalmente e se constituíram os principais

agregados populacionais.

 

 

Em termos de fauna, entre 1427 e 1439 decorreram os preparativos para a fixação dos primeiros

colonizadores dos Açores. Desses preparativos avulta o lançamento em terra de algumas espécies de

animais – ovelhas, cavalos, cabras, bovinos, suínos e coelhos. De acordo com as fontes históricas, a

ecologia insular contaria com dois únicos mamíferos: os lobos marinhos (FRUTUOSO 1963) e o

morcego, Nyctalus ozoreum (AGOSTINHO 1966) – todos os outros são-lhes, portanto, posteriores,

introduzidos pelo Homem.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

53 São Jorge dispunha de um bom espólio de sanguinho, teixo, cedro, faial, pau-branco, loureiro e ginjeira tendo iniciado a sua

exportação bastante cedo. Como lenha utilizaria urze, o tamujo, o queiró, o folhado e o azevinho que também serão enviados

para a Terceira.

54 0 Pico era bastante abundante em lenha, essencialmente provinda das urzes e das vides, subproduto dos vinhedos. A

madeira era, também ela, abundante.

55 As ilhas das Flores e do Corvo eram ricas em madeira, embora esta fosse de má qualidade devido aos ventos fortes que por

lá se faziam sentir.

 

23

 

Conclusões

 

 

Colocam-se agora várias questões:

 

 

Tendo em linha de conta que a base da dieta milhafre são os micromamíferos – incluindo o coelho –

de que subsistiria a população destas aves na altura do descobrimento?

 

 

Será plausível que se alimentassem do peixe em que eram abundantes as águas costeiras do

arquipélago?

 

 

Estamos em crer que tal não fosse possível. Não só devido ao facto do milhafre não se adaptar as técnicas

de captura exigidas, mais próprias de uma águia pesqueira, mas também porque uma dieta rica em peixe

leva à desmielinização das fibras nervosas, bem como a outras lesões do sistema nervoso, incluindo

paralisia, devido a uma carência nutricional causada por uma deficiência em tiamina, deficiência esta

provocada pelo alto teor de tiaminases na carne do peixe.56

 

 

Não nos parece, também que uma dieta exclusivamente insectívora pudesse sustentar toda uma

população aparentemente abundante de aves, aves estas que necessitavam de mais de 100 gramas de

alimento diário como capaz de sustentar todo o ano uma população aparentemente de grandes dimensões.

 

 

Por outro lado, se e quando recorre a presas aladas, o milhafre fá-lo apenas caçando crias nidícolas de

passeriformes, visto não possuir a agilidade muscular necessária para caçar presas adultas e voadoras.

Como tal, fora da época de reprodução das outras aves, dificilmente se poderá considerar esta fonte

alimentar.

 

 

Se, pelo contrário, admitirmos a existência de açores no arquipélago, o problema da alimentação fica

automaticamente resolvido. Sabendo que os açores são essencialmente ornitófagos e que uma das suas

presas mais frequentes é o pombo torquaz, verificamos que, em face da abundância deste último nas ilhas,

ao açor não se colocariam problemas de âmbito alimentar.

 

 

 

 

56 Cf. COOPER 1991.

 

24

Nova questão: se os Açores tinham um coberto vegetal tão denso, como caçariam os milhafres, que

necessitam de campos abertos, desflorestados e desmatados, para avistar as suas presas?

 

 

Se admitirmos que, a excepção da Graciosa e do Pico, todas as outras ilhas eram densamente arborizadas

tal problema parecerá insolúvel. Se, no entanto, admitirmos que eram açores e não milhafres as aves de

rapina avistadas pelos descobridores então esse problema deixa de existir.

 

 

Tal como o gavião – Accipiter nisus – nidificante na ilha da Madeira, o açor é uma ave de rapina florestal

por excelência. A perda da floresta, consequência do desflorestamento por acção antrópica, bem como a

pressão humana na sua captura e na das suas presas poderão ter estado na origem da sua regressão e

eventual extinção. A desflorestação intensiva pode ainda ter conduzido à perda de habitat de nidificação

para o açor, que prefere as florestas de idade avançada às de arvores ainda jovens.57

 

 

As indicações dadas por Frutuoso de que os açores eram levados para o reino são, confirmadas pelo facto

de terem sido enviados, de tempos a tempos, falcões (?) e açores para o senhor da ilha que residia em

Portugal Continental. Esta extinção não seria de todo inédita. Basta reparar no caso dos pássaros

angélicos da ilha do Corvo, mortos aos milhares para a obtenção de óleo, ou atentar ao que aconteceu às

galinhas da Guiné que, mal foram introduzidas, prontamente se extinguiram na Terceira e São Miguel,

ainda durante o século XVI. 58

 

 

Finalmente, a questão da altanaria. O milhafre é considerado, para fins de falcoaria, como uma ave

ignóbil visto atacar aves ou animais parados, sendo igualmente necrófago. Inclui-se também na categoria

das aves de evolução lenta em voo, possuindo um psiquismo diferente, menos generoso do que o das aves

nobres.59 Embora seja uma ave capaz de ser treinada em falcoaria, não é nunca selectiva nas presas que

possa vir a caçar, pelo que não há tradição de alguma vez ter servido em altanaria.60

 

 

Ao contrário, o açor era, na altanaria, uma ave destinada a ser usado pelos nobres: os machos para os que

não possuíam terras e as fêmeas para os que fossem proprietários – devido à sua aptidão para caçar tanto

presas terrestres como aladas era até apelidada de ave do cozinheiro.61

 

 

57 Cf. POSTOVIT 1987.

58 Cf. SANTOS 1989.

59 Cf. COSTA 1994.

60 Cf. PARRY-JONES 1993.

61 Cf. CAETANO 1994.

 

25

Em Portugal, os reis D. Afonso III e D. Fernando caçaram com açores.62. É classificada como uma ave de

baixo voo de aptidão nobre, ou seja, é uma ave que no seu meio natural não faz presa de animais ou aves

parados ou pousados, que não é necrófaga, possuindo um psiquismo perfeito bem como uma rapidez

fulminante nas suas caçadas.63

 

 

Finalmente, comparando quer a envergadura, quer a própria silhueta das duas espécies em questão, difícil

achamos que possam ser confundidas por quem, à altura, estaria perfeitamente familiarizado com uma

ave que não serviria para a falcoaria, o milhafre, e com outra que era valiosa pela sua aptidão para a caça.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Silhuetas em voo – açor à esquerda, milhafre à direita. Saliente-se a cauda inconfundível do açor.

 

 

É de notar que a data comummente aceite para a descoberta das ilhas dos grupos oriental e central e

de 1427, logo em pleno período fértil da altanaria, em que os portugueses de então possuiriam

conhecimentos mínimos sobre aves de rapina.64 Por todos os argumentos anteriormente expostos,

achamos legitimo tirar as seguintes conclusões:

 

 

– as aves presentes no arquipélago, aquando do seu descobrimento pelos portugueses, eram realmente

açores. De facto, tendo em conta o peso que a altanaria tinha da época, cremos que fosse impossível

aos descobridores confundir milhafres com açores;

 

62 Cf. PEREIRA 1918.

63 Cf. COSTA 1994.

64 No Livro da Montaria, escrito por Dom João I entre 1415 e 1433, é feita referência à altanaria ou volataria (PEREIRA

1918).

 

26

 

 

 

– esta população insular de açores teria tido inicialmente origem em fenómenos de arribação de

indivíduos provindos da Europa – hipótese menos provável – ou originários da América do Norte –

situação que ainda hoje se verifica em partes da Europa Atlântica.65

 

 

Estes fenómenos de arribação de açores ao arquipélago nunca foram documentados ou verificados,66

embora acreditemos que se tenham desenrolado de uma maneira similar para o milhafre.

 

 

– Pelos vários testemunhos contemporâneos, verifica-se que a população de açores foi alvo de

perseguição por parte do homem quer no intuito do seu adestramento, da sua domesticação e

consequente exportação para o continente. A perda de habitat de caça e de nidificação, bem como

uma diminuição no número de presas, pode ter acarretado uma regressão no efectivo populacional que

terá conduzido o açor insular à extinção;

 

 

– o aparecimento em cena do milhafre pode ter-se processado de duas maneiras distintas:

 

 

a) o milhafre coexistia com o açor (tal como o faz na Córsega e na Sardenha), povoando as

zonas menos arborizadas – como, por exemplo, a ilha Graciosa – tendo ocupado

posteriormente o nicho deixado vago pelo açor, aproveitando a introdução dos

micromamíferos, ou

 

 

b) após um breve período de interregno, logo a seguir à extinção dos açores (período esse

comentado por Arditi e Linschoten) deu-se uma movimentação de águias-de-asa-redonda a

partir do arquipélago da Madeira. É de notar que a sub-espécie de milhafre – B.b harterti –

descrita para a Madeira é marcadamente semelhante à descrita para os Açores.67

Estas rapaces foram ocupando sucessivamente as ilhas, num processo que ainda hoje decorre e

que irá terminar, certamente, pelo povoamento do grupo ocidental.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

65 Cf. CRAMP et al 1987.

66 Cf. BANNERMAN 1966.

67 Cf. BANNERMAN 1965.

 

27

 

 

 

Em conclusão, estamos em crer, que seria extremamente difícil aos descobridores coevos

confundirem o açor, tão comum na altanaria da época e com valor comercial e utilitário, com a

águia-de-asa-redonda, sem préstimos para a caça com ave de presa.

 

 

Assim, a perda de documentos originais bem como a adulteração de dados históricos, sucessivamente

transcritos e traduzidos, levou ao estabelecimento histórico da teoria ainda hoje vigente e que,

esperamos, este trabalho venha a colocar em causa.

 

28

 

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STEN, Sabine & VRETEMARK Maria (1988) “The Chieftain’s grave project – osteological analyses of

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