38 anos depois da morte em Espanha, ao lado da companheira Ivone Chinita.
Neste 2021 em que teria completado 75 anos.
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RE-FLEXÕES CAMPESINAS
1.
Por uma criteriosa escolha do verso
cheguei à parte mais escura do país. Solidões,
paisagens mortas, animais tristes,
uma literatura perseguida – em vão – por alguns ocultos
crânios. Aí o encontrei, surpreendido, com óculos
aconchegados aos ossos da sua face. O que é humano
no verso é a incerteza de ele mesmo
chegar ao fim. Divagando, mas atentamente, pelo solo
tentação de alinhar sóis, os poucos sinais
de saúde do mundo. Torna-se inviável a construção do texto
para o comércio e indústria. Acrescento à nula erudição do verso
pequenos símbolos poéticos desbaratados nas lutas de classes e géneros
literários alimentícios: os pássaros, o mar, a lua
e até a técnica do soneto.
Perdidos para estrume da terra, do verso.
2.
Eu descia pelos portos à procura
das cidades marítimas. Marés violentas
batiam as enseadas; às vezes sentava-me nos botes
conversando com os agrários do mar. E diziam-me:
Há três cidades à beira-
-naufrágio, e muitas outras sem rosto nem memória.
E nomeavam: Horta, Angra, Ponta Delgada
e arregaçavam mais as calças, os pescadores de algas
e silêncio. Retirava deles a lição do mergulho, retribuindo
com bagaço e cigarros. Crescia barco rumo às ilhas
de oeste.